'Não era difícil prever a tragédia'

Catástrofe em Angra estava anunciada por grilagens que trocaram matas por favelas e condomínios privados

Marcos Sá Corrêa*,

06 Janeiro 2010 | 10h22

Quem pôs os olhos no céu do Rio no réveillon viu mais que fogos de artifício. Viu um raro espetáculo meteorológico. Meia hora antes da pirotecnia oficial, as nuvens se esgarçaram sobre a cidade. Primeiro, destampando as praias, como se erguessem a cortina para o show da prefeitura. Depois, sobre a zona sul, uma Lua cheia, que ia alta, mas ainda não tinha aparecido, deu o ar da graça. Na hora certa, até a estátua do Redentor saiu da cerração no topo do Corcovado. À meia-noite, estava tudo pronto para a festa.

 

Tudo nos conformes, como previa o contrato dos poderes públicos municipais com a médium paranaense Adelaide Scritori, da Fundação Cacique Cobra Coral – “a luz que ilumina os fracos e confunde os poderosos”, segundo sua apresentação oficial.

 

Trata-se de uma instituição tipicamente carioca, a Cobra Coral, embora preste serviços em outras praças, até mesmo no exterior. Mas, no Rio, incorporou-se à administração local desde que o prefeito César Maia inaugurou em 1993 o primeiro de seus três mandatos, com um temporal que derreteu morros em toda a cidade. Desde então, nunca mais se descuidou do convênio com a fundação, para fins de prevenção meteorológica.

 

No ano passado, quando Eduardo Paes tomou posse na prefeitura, a Cobra Coral veio à tona como mais uma excentricidade de César Maia, desentranhada de suas contas pelas lupas da sucessão. A mudança durou pouco. O novo prefeito renovou o contrato em 22 de janeiro. E, neste réveillon de estreia, a médium veio expressamente de Buenos Aires para encorpar o palanque das autoridades.

 

Deve-se admitir que ela brilhou na festa. Dois dias depois, os meteorologistas de extração mais científica iriam atestar que ocorrera na noite dos fogos um fenômeno raro. Um sistema de baixa pressão se instalara de repente sobre a cidade, conjurando ventos que varreram as chuvas para o sul. Ou seja, para os lados da cidade de Angra dos Reis. Na Ilha Grande, a mansa praia do Bananal, que as notícias do desastre continuam a chamar de “paraíso”, amanheceu sob 20 metros de lama e pedra. E aí o réveillon já estava longe, superado por cerca de 50 mortes. A catástrofe em Angra estava anunciada por todos os lados, num litoral apelidado de Costa Verde que, nos últimos 20 anos, numa febre de grilagens que contagiou pobres e ricos, trocou a mata de seus morros por favelas e as praias selvagens de suas enseadas por condomínios particulares – ambos igualitariamente temerários e ilegais.

 

Agora que o modelo de ocupação adotado na Costa Verde desabou, não faltam autoridades para admitir que aquilo lá não poderia dar certo. Geólogos, como a secretária estadual do Meio Ambiente Marilene Ramos, explicaram aos repórteres que, naquele trecho da Serra do Mar, toda encosta mais íngreme tende um dia a descer rumo ao mar, decompondo-se num “solo poroso e instável”.

 

O prefeito de Angra, Tuca Jordão, lembrou-se de que os desabamentos haviam começado, mais mansos, três dias antes do réveillon. O governador Sérgio Cabral declarou, sobre o fato consumado, que não se “pode brincar com o solo”. Em outras palavras, ninguém precisava de médium para prever que aquela toada turística teria de dar no que deu. O problema é que há governos para cumprir religiosamente seus contratos com a Cobra Coral, mas não para levar a sério as licenças ambientais que assinam. Talvez eles ainda não tenham notado. Mas elas existem para prevenir esse tipo de problema. 

 

*Marcos Sá Corrêa é jornalista e editor do site O Eco

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.