Matas podem arder em fornos de siderúrgicas

Avanço do desmate para produzir carvão destinado a empresas ameaça cerca de 200 mil ha ao ano em MS

Giovana Girardi,

02 Julho 2008 | 23h57

O Pantanal está na mira de sofrer uma agressão semelhante à que ceifou boa parte do seu primo vizinho, o cerrado: a derrubada da mata nativa para alimentar os fornos da indústria siderúrgica. O alerta foi lançado pelo Ibama no começo do ano, quando o órgão constatou que as atividades de extração de lenha para a produção de carvão estavam ameaçando uma área de mais de 200 mil hectares por ano em Mato Grosso do Sul, em especial na Bacia do Alto Paraguai, onde está incluída a planície pantaneira.    Biomanta ajuda a resgatar áreas degradadas  Projetos evitam o desperdício de água  Bioma em pé rende US$ 20 bi  59% da vegetação sofreu transformação  Referência mundial  Semi-árido tem saída até contra a fome  Unir sustentabilidade e preservação é desafio  Área protegida beneficia a pesca  Criação de reserva privada colabora com biodiversidade  Incentivo para conservar  Florestas de eucalipto substituem campos  Muito além da Amazônia   Galeria de fotos   Os biomas brasileiros  "Cumprimento das legislação pelos proprietáros rurais não é o suficiente para preservação"  "É mais fácil lutar por um ecossistema com a ajuda da sociedade"   Essa conclusão foi baseada em um monitoramento de quase dois anos e no fato de que 44% dos 10 milhões de metros de carvão vegetal (1 mdc é o equivalente ao quanto cabe de carvão em uma caixa de 1 m3) transportados no Brasil, em 2007, tiveram origem no Estado. Isso levou à criação de um grupo de trabalho para fiscalizar as atividades das carvoarias na região sul do Pantanal e na Serra da Bodoquena. Por meio de uma operação de cruzamento dos dados do chamado Sistema-DOF (Documento de Origem Florestal), o Ibama tem conseguido identificar o consumo de carvão de origem ilegal.   Só no mês passado, 60 siderúrgicas (55 de Minas, 4 de Mato Grosso do Sul e 1 do Espírito Santo) foram multadas pelo consumo de 800 mil m3 de carvão ilegal em 2007, no valor de R$ 414,7 milhões. Pelos cálculos do instituto, esse carvão é resultante de operações no cerrado e no Pantanal.   É uma quantidade suficiente para preencher 10 mil caminhões que, se enfileirados, ocupariam 200 km de extensão, segundo o Ibama.   Para o gerente de Pantanal da ONG Conservação Internacional, Sandro Menezes, esses números são resultado da falta de um processo mais atento de concessão de licenças. "Não está ocorrendo vistoria do lugar, o que abre espaço para irregularidades. O cruzamento de dados identifica isso lá na frente, mas aí a mata já foi derrubada."   De acordo com especialistas, a atividade carvoeira tem ocorrido tanto na Bacia do Alto Paraguai quanto na planície, que compreende o bioma propriamente dito. Por enquanto, acredita-se que a ameaça é maior na parte alta, onde a vegetação predominante é o cerrado, mas isso não deixa o Pantanal em uma situação confortável. É no planalto que se encontram as nascentes dos vários rios que vão formar a planície pantaneira depois.   Rico em minério de ferro, o Pantanal por muito tempo apenas exportou o produto, sem beneficiamento. Somente nos últimos anos surgiram as primeiras siderúrgicas e, mais recentemente, começou a instalação de um pólo que deve elevar a produção a milhões de toneladas por ano.   Um estudo encomendado pela Conservação Internacional tentou contabilizar o impacto que essa expansão pode ter no ambiente. O principal problema considerado pelo pesquisador André Carvalho, da Fundação Getúlio Vargas, é que o estoque legal de madeira plantada que pode ser convertida em carvão em Mato Grosso do Sul é insuficiente para atender a demanda.   Carvalho calculou que, no ano passado, para abastecer o novo complexo minero-siderúrgico de MS, eram necessárias 240 mil toneladas de carvão (ou 5,5 mil hectares de área plantada para corte). Em 2009, isso deve subir para 400 mil t (9 mil ha); em 2011, para 1,4 milhão (32 mil ha); e, a partir de 2015, serão necessários 2,4 milhões de t (56 mil ha).   A árvore mais usada nas reservas é o eucalipto, mas, como ele leva sete anos para chegar à fase de corte, a área necessária para o abastecimento contínuo do complexo deve ser, pelo menos, sete vezes maior do que a de corte.   Assim, no auge da produção de ferro-gusa, a área plantada deveria ser de 392 mil ha, calculou o economista.   O Estado de MS dispõe hoje de, no máximo, 5 mil ha prontos para o corte. Considerando a demanda de 9 mil para 2009, o déficit de 4 mil ha pode provocar uma pressão imediata sobre 40 mil ha de mata nativa.   Isso porque a produtividade das áreas plantadas é dez vezes maior do que nas áreas naturais.   A remoção da vegetação na cabeceira dos rios abre espaço para que uma enxurrada de sedimentos corra para a água. O caso mais emblemático desse problema no Pantanal é a história do Rio Taquari. Ele sofreu um assoreamento tão devastador, a partir da década de 1970, que foi capaz de mudar o seu curso, provocando inundações permanentes em áreas onde antes eram fazendas de gado.   Manter esse equilíbrio é importante também para outras áreas do País, como a Bacia do Prata. É a planície pantaneira que regula seu fluxo de água ao reter por meses o volume que desce das nascentes dos rios durante o período de cheias e liberá-lo, aos poucos, para a bacia. Se essa vegetação se perder, as chuvas podem começar a descer rapidamente, com potencial de provocar enchentes nas cidades à beira do Rio Paraguai.   Em levantamento paralelo ao do Ministério do Meio Ambiente, a CI apontou que já há motivo de preocupação. Segundo o estudo, cerca de 17% do Pantanal foi perdido até 2004 (para o MMA esse número é de 11%). Em toda a Bacia do Alto Paraguai, o desmatamento estimado pela ONG foi de 44%.

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