Lenha ecológica ajuda a combater desertificação da caatinga

Reportagem finalista do 2.º Prêmio Tetra Pak de Jornalismo Ambiental

O Estado de S. Paulo

22 Agosto 2014 | 17h17

Marina de Lima Cardoso, 19 anos (UFRN)*

Desde 2010, o projeto Caatinga Viva, coordenado pelo engenheiro agrônomo Auricélio Costa, trabalha para implementar uma nova fonte energética na região conhecida como Baixo Açu, no oeste do Rio Grande do Norte.

A preocupação inicial do projeto, patrocinado pela Petrobras Ambiental em parceria com cinco outras instituições públicas e privadas, vem de um dado do Departamento de Combate à Desertificação do Ministério do Meio Ambiente (MMA): cerca de 40% da matriz energética das indústrias do Nordeste vem da lenha, retirada através do desmatamento da caatinga. Índice que tem contribuído diretamente para a desertificação - ou seja, a perda da capacidade produtiva - desse único bioma exclusivo do Brasil.

"A iniciativa de produzir uma biofábrica de briquetes (lenha ecológica) surgiu a partir da observação de dois problemas da região: a grande extração de lenha utilizada pelas indústrias de cerâmica e tijolo e também pelo desperdício dos restos da poda urbana nas cidades", explica Auricélio.

Com previsão para começar a operar no segundo semestre deste ano, a biofábrica instalada no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Ipanguaçu (IFRN), à 214 km da capital Natal, já está na fase dos testes finais e atenderá aos 10 municípios que formam a microrregião do Baixo Açu e que concentram em seu território 33 empresas de cerâmica, segundo o Diagnóstico da Indústria de Cerâmica Vermelha do RN, publicado em 2013.

Com uma equipe de nove pessoas, entre professores, técnicos e alunos, trabalhando dentro da fábrica e outra com mais de 100 pessoas atuando direta e indiretamente em campo, na coleta dos resíduos das podas de árvores, o projeto utiliza uma tecnologia chamada adensamento ligno-celulósico que utiliza o material coletado (folhas de mangueiras e cajueiros, palha de carnaúba, restos de cultura, entre outros) que seria incinerado no lixão e o transforma em blocos de matéria orgânica compactados que poderão ser utilizados como fonte de energia "não só nos fornos das cerâmicas, mas também nas pizzarias, padarias e restaurantes", aponta Auricélio.

Escassa e com a extração cada vez mais distante (entre 200km a 300km dos polos cerâmicos da região), a lenha já vem se tornando cara para os empresários. João Walace da Silva, proprietário da Cerâmica Portal do Vale, já estuda a utilização dos briquetes da Caatinga Viva. "Apesar da lenha ainda ser a fonte mais barata, tenho muito interesse pela utilização dos briquetes no processo de queima da indústria, pois sua origem combate diretamente o desmatamento da caatinga e ainda reaproveita os resíduos que iriam para o lixo", relata o empresário.

Para Onildo Marini Filho, coordenador do Centro Nacional de Pesquisa no Cerrado e Caatiga (CECAT), do Instituto Chico Mendes (ICMBio), a substituição da lenha é extremamente importante para o bioma. "A caatinga perdeu grande parte da sua biomassa com o uso intensivo da lenha, principal combustível da região, e hoje está descaracterizada. Muito mais árida", conta ele.  

Segundo o Relatório do Monitoramento do Desmatamento do Bioma Caatinga, 43% da área do bioma foi desmatada até 2009. Além disso, de acordo com Alvamar Costa, superintendente do IBAMA/RN, a região do Baixo Açu deverá ser uma das mais atingidas pela desertificação nos próximos anos. No entanto, após a abertura da biofábrica, Auricélio conta que a ideia será "disseminar a tecnologia na cadeia produtiva da região, fazendo dela uma referência para reverter o quadro atual de desmatamento".

*finalista do 2.º Prêmio Tetra Pak de Jornalismo Ambiental

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