Ilha de Maré sofre com contaminação por metais pesados

Reportagem finalista do 2.º Prêmio Tetra Pak de Jornalismo Ambiental

O Estado de S. Paulo

22 Agosto 2014 | 17h00

Edvan Lessa dos Santos, 21 anos (UFBA)*

No ano passado, a professora da Escola de Nutrição da Universidade Federal da Bahia (UFBA) Neuza Miranda recebeu um prêmio no Congresso Brasileiro de Toxicologia. O reconhecimento, no entanto, resulta de um dado que se opõe ao prestígio acadêmico. As crianças da Ilha de Maré, na Baía de Todos os Santos (BTS), em Salvador, estão contaminadas com níveis altos de chumbo e cádmio lançado por indústrias locais.

Com cerca de 500 famílias, a ilha tenta perpetuar as tradições quilombolas e a pesca artesanal, sob as intensas atividades das indústrias química, petroquímica e petrolífera, como a Petrobrás, a Dow Química e a Refinaria Landulpho Alves, que despejam substâncias que contaminam as águas e os pescados desse trecho da BTS, a segunda maior baía do país, com 1233 km² de extensão e expressiva área de recifes de corais, estuários e manguezais, atrás apenas da baía de São Marcos, no Maranhão.

No caso da pesquisa de Miranda, que empresta a Ilha de Maré a alcunha de "ambiente enfermo", foi feito um monitoramento da intoxicação de 116 crianças de até 6 anos. "Essa população consome o chumbinho (espécie de molusco), que é a principal fonte de proteína. Mas ele tem altas concentrações de metais pesados de 0,2 a 16,2 microgramas por grama para o chumbo", revela.

De acordo com a representante do Movimento dos Pescadores e Pescadoras Artesanais, Eliete Paraguassu, antes de confirmar o problema, os moradores de Ilha de Maré já suspeitavam da elevada mortandade. "A gente sabia que estava aparecendo muitos peixes mortos, mas achava que era comum. Em 2001 a perda do baiacu, caramuru, raia, que não morrem com bomba, foi muito alta", lembra. Segundo ela, também começaram a surgir doenças que não eram comuns da região. "O Porto de Aratu (em frente à costa leste de Ilha de Maré) já vem matando nosso povo há anos", lamenta.

Segundo o Instituto Kirimurê, referência em estudos sobre da BTS, dentre as baías da costa leste do Brasil, a baiana apresenta dez terminais portuários de grande porte, um canal de entrada naturalmente navegável e canais internos profundos. Isso evidencia o potencial de desenvolvimento para a região - à luz da pesquisa liderada por Miranda - corrobora a opinião de diversos ambientalistas de que ainda não aprendemos a crescer sem destruir o meio ambiente.

Em 2013, a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) publicou um livro em que mapeia conflitos envolvendo Injustiça Ambiental e Saúde no Brasil. Nesse estudo, a Ilha da Maré aparece como espaço que luta para "afirmar identidade, titular territórios quilombolas e combater práticas de racismo e degradação ambiental, bem como atividades portuárias e industriais que põem em risco a alimentação e sobrevivência de 500 famílias".

O Instituto de Meio Ambiente e Recurso Hídricos da Bahia (Inema), que reconhece a BTS como uma Área de Proteção Ambiental (APA) também aponta o lançamento de efluentes domésticos e industriais na baía como um conflito ambiental. Diante disso, e da necessidade de equilibrar o desenvolvimento econômico com o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), a discussão rende posições pessimistas, já que alguns interessados na questão sugerem que o quadro deve piorar.

Segundo o último relatório da Comissão Pastoral da Terra, a Ilha de Maré está incluída na lista dos conflitos por água no Brasil, que aumentaram de 79 para 93 entre 2012 e 2013. O dado, que inclui outras 20 localidades do estado, é um único recorte da injustiça ambiental existente no país que, segundo mapa da Universidade Autônoma de Barcelona, é o terceiro em crimes ambientais do mundo.

*finalista do 2.º Prêmio Tetra Pak de Jornalismo Ambiental

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.