Arte Silvia Rodrigues sobre fotos de Paulo Liebert
Arte Silvia Rodrigues sobre fotos de Paulo Liebert

Ideias na cabeça ou peso nos ombros?

Educação ambiental ganha peso nas escolas, mas especialistas alertam que abordagem do tema pode transferir excesso de responsabilidade às crianças

Karina Ninni, O Estado de S. Paulo

29 Junho 2011 | 00h10

“Minha irmã pequena achava que a água nunca ia acabar. Então eu peguei um mapa, mostrei para ela e disse: ‘Vai, sim. Isso aí é água do mar, a gente não pode usar’”, diz Janaína de Souza Vieira, de 9 anos.

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“Mas os cientistas vão inventar uma coisa para tirar o sal da água do mar e a gente vai poder usar”, rebate Jeferson Santos Dias, de 9 anos.

“Isso chama dessalinização, mas é muito caro para o Brasil fazer”, responde Janaína.

O diálogo, presenciado pela reportagem no dia 20 na Escola Municipal Nakamura Park, em Cotia (SP), é um exemplo do avanço nas escolas da educação ambiental, ausente da maioria delas até o início da década de 90. Nascidos nos anos 70 e 80, os pais de quem frequenta o ensino fundamental hoje lembram-se, no máximo, de comemorar pontualmente datas como o Dia da Água. Hoje são cobrados pelos filhos para economizar luz, água e dar destinação correta ao lixo.

Embora a importância de educar para preservar o ambiente seja consenso, há dúvidas sobre o teor das iniciativas. E, principalmente, sobre o impacto da responsabilidade depositada nos ombros de crianças e adolescentes. “Há avanços, mas a questão ambiental está entrando na agenda das escolas de forma muito complicada. É quase como se estivéssemos responsabilizando as crianças pela salvação do planeta”, opina a psicóloga Laís Fontenelle, coordenadora de Educação do Instituto Alana, que trabalha com consumo infantil.

“A questão ambiental é uma crise civilizatória e o que se discute, no fundo, é o futuro do mundo. Para criar uma criança preparada para o dia de hoje, teríamos de levá-la a pensar sobre isso. Mas não sei até que ponto é pedagógico expô-la a uma discussão que representa uma desestabilização do presente”, diz a professora Eda Tassara, do Laboratório de Psicologia Ambiental da Universidade de São Paulo.

Engajado. Uma situação vivida pela gerente de vendas Thaís Costa, de 31, mãe de Guilherme, de 6, ilustra bem essa questão. “No afã de corrigir coleguinhas que tinham jogado papel no chão e deixado a torneira aberta, Guilherme acabou agredindo os amigos. A professora entendeu a atitude de engajamento, mas achou que ele estava reagindo desproporcionalmente e nos chamou para uma reunião. Dissemos a ele que cada família tem um jeito, uns dão mais importância ao assunto e outro menos”, diz Thaís, casada com um arquiteto que trabalha com construções sustentáveis. “Ele continua engajado, mas entendeu que a conversa é a melhor solução.”

Laís, do Alana, chama a atenção para o fato de que algumas crianças têm discurso mais articulado que os pais. “É até bacana que essa nova geração brigue com os pais por conta de desperdício de água e energia. Mas a criança tem de ser formada pelo adulto, não o contrário. Há uma inversão de papéis aí.”

Do ponto de vista prático, Laís acredita que é preciso conectar as etapas de descarte e consumo. “Trabalha-se muito reciclagem, mas pouco a redução de consumo. O pulo do gato é fazer a criança ver que é preciso consumir de outra forma, em vez de remediar o que foi consumido.”

Atualmente, os pais são cobrados pelos filhos para economizar luz, água e dar destinação correta ao lixo

“Tem muito modismo, marketing ecológico”, diz a professora Conceição Ferreira, da Nakamura Park. Ela lembra de uma aluna que chegou empolgada com um concurso, em que as crianças deveriam mandar um vídeo da escola sendo limpa. “Dissemos: ‘Nossa escola já é limpa.’ E ela: ‘Uai, vamos sujar para depois limpar!’ Tivemos de fazê-la refletir.”

Com mestrado em Engenharia Ambiental pela USP de São Carlos, a professora coordena o programa da escola, premiada este ano pela Secretaria Estadual de Educação por um projeto sobre recursos hídricos. A Nakamura Park tem 130 alunos e fica em um terreno com trilhas, bosque, serelepes (roedores parecidos com esquilos), horta e um galpão para receber alunos de outras escolas. “Usamos teatro, histórias que eles ilustram, jogos, brincadeiras. Usamos as trilhas, que permitem trabalhar o plantio de espécies em vias de extinção, como o xaxim, a araucária.”

No colégio Pentágono, unidade de Alphaville, representantes do 2.º ao 5.° ano são reunidos pelo professor Rogério Sant’anna no núcleo ecológico, e têm a missão de divulgar conhecimentos sobre ambiente e conservação. Cada classe escolhe dois agentes ambientais e o núcleo é formado por sete meninos e sete meninas. “Essa fórmula funciona demais, porque se presta ao exercício da cidadania ecológica. Eleitos no início do ano, eles fazem o trabalho, às vezes por anos seguidos”, explica Sant’anna.

É o caso de Diego Tedin, de 9 anos, da 4.ª série do fundamental. Ele é agente ambiental há 3 anos e toda semana leva uma apresentação para os colegas, preparada com a ajuda do pai, Domingos Tedin. “Não tenho obrigação de fazer toda semana, mas quero dizer aos meus amigos que este mundo que a gente está poluindo é o mundo onde nós e nossos filhos vamos viver”, conta Diego. “Se a gente não cuidar, o problema vai ser nosso.”

“Os colegas esperam dele um exemplo”, diz o pai. “Pesquisar e criar meios de informar a turma passou a ser um compromisso semanal. Ajudo passando apresentações para o pen drive.”

Diego até inventou um jogo para que os colegas tivessem mais facilidade de identificar o tipo de lixo que deve ser colocado em cada recipiente. “A gente escala quatro crianças para representar as cores das latas de lixo reciclável – vermelho, amarelo, azul e verde. Depois escrevemos em pedaços de papel o nome de vários tipos de lixo. Os participantes têm de sortear um papel e colar no colega que representa o lugar certo para aquele lixo.”

Composteira. A Escola Viva, na Vila Olímpia, zona sul de São Paulo, que atende do ensino infantil ao médio, sempre usa seu espaço físico como ponto de partida nas discussões sobre ambiente. “O prédio do Fundamental II, por exemplo, tem aproveitamento de luz natural, captação de água da chuva para reúso, madeira certificada e pregos e parafusos reutilizados”, diz Sônia Marina Muhringer, coordenadora de Meio Ambiente.

O espaço da educação ambiental cresce conforme as crianças ganham maturidade. “Tentamos confrontar esse cidadão que estamos formando com questões reais e fazer com que apresente soluções”, explica. O instrumento usado para isso é o trabalho pessoal (ou TP).

Um exemplo é a hora do lanche. A alimentação é fornecida pela própria escola. Não há copinhos nem louça descartáveis, e a escola utiliza uma composteira para

reaproveitar o que sobra.

“A gente aprende a não pegar a mais, ou então, a se servir várias vezes, até ficar satisfeito. Porque a gente vê a professora do TP colocar todas as sobras em uma bandeja, e depois pesar para ver o quanto desperdiçamos, antes de jogar na composteira”, diz o aluno do 3.° ano Leo de Figueiredo Costa, de 8 anos.

 

MAIS DE 90% DAS ESCOLAS TÊM PROJETOS AMBIENTAIS

Os dados oficiais mais recentes sobre educação ambiental, colhidos no censo escolar do Ministério da Educação (MEC) em 2004, mostram que 95% das escolas do ensino fundamental no País tinham algum tipo de iniciativa nessa área. Em 2001, o porcentual dos colégios que afirmavam trabalhar o assunto com estudantes era bem menor: 61,2%.

O tema que se tornou comum na grade de muitas escolas, tanto da rede pública como da privada, começou a entrar na agenda do ensino brasileiro depois da Eco-92, conferência ambiental da ONU realizada no Rio.

“Em meados dos anos 80, metade dos 250 professores que entrevistei para meu doutorado nunca tinha ouvido falar do termo educação ambiental”, afirma Luiz Marcelo de Carvalho, professor do Departamento de Educação da Universidade Estadual Paulista (Unesp) que em 1989 defendeu a tese A Temática Ambiental e a Escola de 1.º e 2.º Grau. “A escola trabalhava a natureza de maneira geral, e não o impacto das ações humanas no meio. Não se atribuíam a eventos naturais e às intervenções humanas os significados de hoje.”

Na lei. Na tentativa de criar parâmetros para iniciativas de educação ambiental nas escolas e ONGs, em 1999 o governo promulgou a Lei 9.795, criando a Política Nacional de Educação Ambiental. Pela lei, regulamentada em 2002, o tema deve estar presente em todos os níveis de ensino, de modo transversal, sem constituir disciplina específica.

Alguns Estados já editaram leis, ainda não regulamentadas, como Mato Grosso e São Paulo. Outros estão discutindo os termos, como Bahia e Paraná. O texto paulista é de 2007 e sofreu vários vetos no governo passado.

“A educação ambiental não é uma política pública no Estado. Há ações pontuais, mas, na prática, cada um faz o que quer”, afirma Mônica Borba, da ONG Instituto 5 Elementos.

“Há desde trabalhos articulados a ações focadas nas velhas datas comemorativas”, diz Carvalho, da Unesp. “E também experiências de tanto valor que é preciso tirar o chapéu para professores e gestores.”

Tirar o chapéu parece ser a expressão adequada. De acordo com uma pesquisa feita pela Unesco em parceria com o MEC, a iniciativa de um professor ou grupo de professores era a principal motivação para ações de educação ambiental nas escolas, respondendo por 24% dos casos pesquisados.

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