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Humano transgênico

Publicados resultados de procedimentos feitos nos primeiros seres humanos modificados geneticamente

Fernando Reinach

18 Novembro 2010 | 15h15

Faz mais de dois anos que os primeiros seres humanos transgênicos circulam lépidos e  felizes entre  nós. Mas não se preocupe, eles não são policiais com superpoderes ou corredores de maratona turbinados. São pessoas que nasceram com doenças genéticas graves e foram geneticamente modificados nos hospitais. Receberam o gene que faltava em seu genoma e se livraram da doença. Agora, após dois anos de acompanhamento, os resultados desses experimentos estãos endo publicados na literatura científica. É o começo de uma nova era.

 

 

O paciente P2 é um jovem de 18 anos que teve o azar de herdar de um dos pais uma cópia não funcional do gene que produzum dos componentes da hemoglobina, a proteína que carrega oxigênio e é responsável pela  cor  vermelha do sangue. Mas seu azar foi duplo,  pois a cópia do gene que herdou do outro progenitor também era defeituosa e incapaz de produzir a quantidade  necessária de hemoglobina.

 

Essa doença é comum, chama- se talassemia e,quando as duas cópias do gene não funcionam, provoca anemia fortíssima. Antigamente era fatal, mas hoje pode ser tratada com transfusões periódicas ou transplante de medula.Foram as transfusões que recebia a cada mês, desde os 3 anos, que mantiveram P2 vivo, pois nunca foi achado um doador compatível.

Num primeiro passo, os cientistas colheram uma amostra da medula óssea de P2, onde estão as células que produzem hemácias. No caso de P2, essas células não produziam hemoglobina. As células foram mantidas vivas fora do corpo e geneticamente transformadas com um vírus modificado.

Esse vírus continha uma cópia normal do gene que faltava a P2. Enquanto suas células geneticamente modificadas cresciam no laboratório, P2 foi submetido a uma forte quimioterapia para matar grande parte das células que habitavam amedula de seus ossos.

Finalmente, em junho de 2007, as células originais de sua medula, agora com um gene funcional, foram reinjetadas. Durante o primeiro ano, P2 teve de receber transfusões, mas a análisedo sangue mostrava que, aos poucos, a quantidade de hemoglobina derivada das novas células aumentava.

 

Isso porque as células se dividiam e colonizavam a medula dos ossos. Em junho de 2008, P2, agora um humano transgênico, recebeu sua última transfusão e foi considerado curado da talassemia.

 

Novidade. O desenvolvimento do vírus modificado,capaz de carregar o gene para a célula, é a novidade que permitiu o tratamento. Desde 1984, cientistas tentam construir um vírus capaz de executar essa tarefa de modo seguro.

 

Os primeiros, desenvolvidos tendo como base os retrovírus, foram testados em pacientes entre 2000 e 2003,quando se descobriu que eles alteravam o comportamento das células. Algumas se tornavam malignas,causandocâncer. Esse fracasso provocou moratória nos testes.

 

O novo vírus, baseado no HIV, parece mais seguro e os testes em humanos foram retomados. Foram 25 anos entre a ideia inicial e a cura dos primeiros pacientes.

 

Em todos os experimentos foi respeitada uma regra autoimposta: as modificações genéticas introduzidas em humanos não deveriam envolver a linhagem germinativa.Isso quer dizer que P2, apesar de ser transgênico e ter o gene correto em sua medula, não tem o gene correto nos testículos e, se tiver filhos, certamente transmitirá a doença.

 

A construção dos primeiros humanos transgênicos inicia uma nova era. Após compreender como funcionam os genes e modificar geneticamente plantas e animais, estamos nos aventurando no nosso genoma. Alguns serão contra essa incursão – por medo ou restrições éticas e religiosas –, mas P2 é hoje um homem mais feliz.

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