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Humanidade entra no 'cheque especial' do meio ambiente, diz ONG

De acordo com estimativa da Global Footprint Network, planeta esgotou nesta terça recursos ambientais disponíveis para todo o ano

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Fábio de Castro ,
O Estado de S. Paulo

19 Agosto 2014 | 03h00

SÃO PAULO - Nesta terça-feira, 19, a humanidade entrou no "cheque especial" com a natureza. Em menos de oito meses, o planeta esgotou todos os recursos naturais disponíveis para o ano, de acordo com um estudo feito pela ONG Global Footprint Network (GFN) e divulgada em parceria com a WWF. 

A data do "Dia da Sobrecarga da Terra" é calculada anualmente desde 2000 e, a cada ano, o déficit ecológico chega mais cedo. Em 2000, a humanidade "entrou no vermelho" no dia 1º de outubro. A estimativa é feita a partir de cruzamento de dados sobre a demanda de consumo de recursos naturais dos países e sua capacidade de gerar serviços ambientais. 

De acordo com a secretária-geral da WWF Brasil, Maria Cecília Wey de Brito, a questão do uso dos recursos naturais acima da capacidade da Terra se tornou um dos principais desafios do século 21. "Entramos no cheque especial da natureza. A partir de hoje, pelo resto do ano, vamos manter o nosso déficit ecológico, reduzindo nossas reservas e aumentando as emissões de gases de efeito estufa na atmosfera", disse ela. 

Desmatamento, escassez de água doce, erosão do solo, perda de biodiversidade e o aumento de CO² na atmosfera são os principais fatores que fazem crescer a dívida ecológica, de acordo com ela. "O planeta tem limites e é preciso levá-los em conta, mas não é isso que os governos estão fazendo" afirmou Brito. "Em um país eminentemente tropical, com uma insolação intensa, continuamos investindo em fontes de energia do século passado e retrasado - como o petróleo do pré-sal - em vez de privilegiar matrizes limpas como a energia eólica e solar", declarou.

Consumo. Segundo o estudo, 85% da população mundial vive hoje em países cuja demanda de consumo é maior que os recursos naturais que os seus ecossistemas podem renovar. Os cálculos indicam que seriam necessários 1,5 planeta para produzir os recursos ecológicos capazes de suportar a atual pegada ecológica mundial. 

O Brasil está bem próximo à média mundial: o modelo brasileiro consumiria recursos ecológicos equivalentes a 1,6 planeta. "Ainda assim, esse ritmo nos levaria a um consumo acima de 50% da capacidade planetária", disse Brito. 

O fato do planeta gastar seu capital natural mais rápido do que ele pode ser reposto é análogo a uma pessoa ter gastos que excedem sistematicamente sua renda. 

"Em termos planetários, o custo dessa conta no vermelho fica mais evidente a cada dia. A humanidade simplesmente está usando mais recursos do que dispõe. O orçamento não fecha", diz Brito.

Para fazer o cálculo, a GFN utilizou a metodologia da "pegada ecológica", que correlaciona a demanda humana por recursos naturais e a capacidade regenerativa do planeta. A pegada ecológica de uma nação (ou de uma cidade, ou pessoa) corresponde ao tamanho das áreas produtivas de terra e de mar necessárias para gerar produtos, bens e serviços que ela consome. 

Esse consumo é então comparado com a "biocapacidade", ou capacidade ecológica do planeta: a eficiência dos ecossistemas para produzir recursos úteis e absorver os resíduos gerados pelo ser humano. Tanto a pegada ecológica como a biocapacidade têm seus resultados expressos em hectares globais (gha), uma unidade de área de biologicamente produtiva padronizada a partir da média mundial de bioprodutividade.

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