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Fumar faz mal às florestas nativas brasileiras, alerta OMS

Estudo marca o Dia Mundial sem Tabaco, celebrado nesta quarta; cultivo é um dos principais fatores de desmatamento

Jamil Chade, Correspondente de O Estado de S. Paulo

31 Maio 2017 | 08h45

GENEBRA - O cigarro não é prejudicial apenas à saúde. Mas também ao meio ambiente e, em especial, no Brasil. A avaliação é da Organização Mundial da Saúde (OMS) e faz parte de uma pesquisa para marcar o Dia Mundial sem Tabaco, marcado para esta quarta-feira, 31.

Em seu primeiro estudo realizado sobre o impacto ambiental do tabaco, a entidade alerta que seu cultivo no Brasil tem causado desmatamento, desertificação do solo e outros problemas ambientais.

"No Brasil, o segundo maior produtor de folha de tabaco do mundo, o cultivo do tabaco é um dos principais motivos para a perda de vegetação, ao lado de soja e trigo", indicou a OMS. "No Sul do Brasil, entre 12 mil e 15 mil hectares de floresta nativa foram retiradas anualmente durante os anos 1970 e 1980, somando 95% da produção nacional (de tabaco)."

A OMS lembrou que "coincidentemente" essa área é também "a maior área de operação da British American Tobacco no mundo" e alertou para a erosão dos solos onde o cultivo ocorre no Brasil. "Melhoria de tecnologia, restrições legais e a plantação de espécies exóticas reduziram a perda de vegetação para cerca de 6 mil hectares por ano na década de 1990."

Mas, segundo a OMS, a destruição de espécies naturais e de madeira continuaram "generalizadas".  

"De uma forma geral, o cultivo do tabaco no Sul da Brasil contribuiu significativamente para a redução da floresta nativa para menos de 2% de sua extensão original", afirmou a OMS.

Na avaliação da entidade, o cultivo do tabaco não é rentável aos agricultores que vivem uma situação econômica difícil. "Entre os produtores do Vale do Rio Pardo, no Rio Grande do Sul, os indicadores de desenvolvimento socioeconômico são inferiores a outras municipalidades do Estado que são menos dependentes do tabaco", disse a OMS. 

Pelo mundo, 7,5 milhões de toneladas de folha de tabaco são produzidas por ano, com um total de 4,3 milhões de hectares de terra. Nos últimos anos, a produção migrou quase que de forma completa para os países em desenvolvimento, onde está 90% do cultivo atual. A China vem na primeira posição, com Brasil e Índia em segundo e terceiro lugar, respectivamente. 

As últimas estimativas da OMS indicam que 7 milhões de pessoas morram por ano pelo cigarro, com um custo para a economia global de US$ 1,4 trilhão.

"O tabaco nos ameaça a todos", disse a diretora da OMS, Margaret Chan. "A pobreza é exacerbada, a produtividade econômica, reduzida, e polui o ar", disse.

Para ela, governos precisam tomar "medidas robustas" para salvaguardar tanto os cidadãos como o meio ambiente.

De acordo com a entidade, 7 mil produtos tóxicos estão presentes no cigarro e entre 10 bilhões e 15 bilhões de cigarros são diariamente jogados no meio ambiente. "Pontas de cigarro somam 30% de tudo o que é coletado em costas e zonas urbanas", disse. 

Uma das alternativas defendidas pela OMS é a elevação de impostos. Hoje, governos já coletam US$ 270 bilhões em receita do cigarro por ano. Mas esse valor poderia aumentar em mais US$ 141 bilhões se cada pacote tivesse seu preço elevado em um dólar.

"O tabaco é uma barreira ao desenvolvimento global", completou Douglas Bettcher, um dos diretores da OMS. 

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