Frente fria matou pinguins no litoral de SP, diz Ibama

Em 15 dias, mais de 500 pinguins apareceram mortos; para bióloga, número está dentro da normalidade

Rejane Lima e Manuel Cunha Pinto ,

23 Julho 2010 | 21h11

A grande quantidade de animais marinhos, a maioria pinguins, encontrados mortos nas praias da Baixada Santista na última semana está dentro da normalidade da época e não aconteceu devido a algum fato específico. A conclusão foi divulgada nesta sexta-feira (23) pela chefe do escritório regional do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), Ingrid Maria Furlan Oberg, depois de mais de três horas de reunião com veterinários, biólogos, pesquisadores e ambientalistas no Centro de Capacitação e Pesquisa em meio Ambiente (Cepema), centro ligado a USP em Cubatão.

 

Mais de 500 pinguins foram encontrados mortos nas praias do litoral sul de de São Paulo desde o último dia 6, causando preocupação a biólogos da região. Além da mudança climática brusca ocorrida na costa gaúcha na semana passada,  outras hipóteses levantadas por especialistas eram a escassez de alimentos e a poluição.

 

De acordo com Ingrid, o grupo que monitora o encalhe de animais marinhos não encontrou nenhuma condição além da normal nos testes e exames realizados até agora. "Os exames detalhados, as análises patológicas, só saem daqui uns 30 dias, mas não há nada que indique uma causa diferente nessas mortes", disse Ingrid, que acredita que a grande repercussão do fato - inclusive na imprensa internacional - aconteceu porque os animais apareceram em um curto período e concentrados em poucas praias. "Mas acreditamos que isso aconteceu por causa da frente fria, que acabou trazendo todos de uma vez."

Thiago Nascimento, biólogo do Aquário de Peruíbe, disse ao Planeta que no ano passado apenas uma dezena de pinguins mortos é registrada na cidade litorânea. Só no último sábado (17), foram recolhidos ali mais de uma centena de animais da espécie pinguim-de-magalhães, característicos de águas temperadas e que migram por vezes até o Brasil vindos das zonas costeiras de Argentina, Chile e Ilhas Malvinas.

 

 

Ingrid afirmou, entretanto, que o número de animais que apareceram - pelo menos 535 pinguins, 28 tartarugas, seis golfinhos e algumas aves oceânicas, como atobás, fragatas, albatrozes e andorinhas-do-mar - está dentro da normalidade para o período do inverno, quando eles migram da Patagônia em direção as águas mais quentes do norte. "No ano passado, tivemos poucos animais encalhados, mas em 2008 chegaram mil pinguins mortos ao litoral paulista e outros mil na Bahia", conta a bióloga, que acredita ainda que o aumento dos números nos últimos anos se deve a consolidação do trabalho da "rede de encalhe", um grupo de ONGs que resgata e estuda o assunto.

 

"Antes eles apareciam mortos, iam para os lixões e ninguém ficava sabendo, agora há todo um trabalho em torno disso", explica.

 

 

Segundo Ingrid, a hipótese de o lixo e a poluição ter causado a morte dos animais não se confirma, já que as esses casos (ocorridos principalmente com tartarugas) foram isolados. "Encontrar plástico dentro das tartarugas é algo que sempre acontece, pois elas confundem plástico com águas-vivas e acabam ingerindo esse lixo, que não deveria estar no meio do oceano, mas infelizmente está", completa.

 

 

Nesta quinta-feira (22) o Aquário de Peruíbe recebeu dois pinguins-de-magalhães vivos que, debilitados, passam por tratamento veterinário para se recuperar. Eles fazem companhia a outro que foi recolhido na última sexta-feira (16). No domingo (18), o aquário também acolheu um jovem albatroz, ave oceânica que não frequenta as praias da região, provavelmente trazido por correntes e ventos fortes.

 

Cerol

 

Em Praia Grande, entretanto, foi constatado que há outro vilão agindo contra os animais: o cerol utilizado em linhas de pipas. Após verificar acidentes envolvendo motociclistas e ciclistas, a Prefeitura agora aperta o cerco para evitar a morte também dos animais, principalmente as aves marinhas. Na última semana, o Grupamento Náutico da Guarda Ambiental do Município resgatou uma gaivota viva, com a asa direita machucada por causa do fio cortante. Encaminhada ao Centro de Triagem de Animais Selvagens (Cetas/Unimonte), o animal teve que passar por uma cirurgia e agora aguarda a cicatrização dos pontos, para então fazer fisioterapia.

 

"Somente depois de bem recuperada poderá ser devolvida ao seu meio ambiente, esse é um processo que exige tempo, em média são oito meses de trabalho", disse o biólogo do Cetas, Nerison Camargo, informando que dezenas de aves morrem todos os anos por causa dos fios com cerol.

Segundo ele, apenas o Cetas já atendeu sete vítimas da linha cortante desde 2002: uma coruja que teve a asa amputada, essa gaivota com ferimento na asa direita, e outras cinco aves diversas que não sobreviveram, entre elas um falcão quiriquiri.

Mais conteúdo sobre:
pinguins ibama litoral planeta vida

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.