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Fazendas em Goiás mantêm a esperança da preservação do Cerrado

O Estado de S. Paulo

22 Agosto 2014 | 16h 42

Reportagem foi a vencedora do 2.º Prêmio Tetra Pak de Jornalismo Ambiental

Sarah Teófilo Marcelino, 21 anos (PUC-GO)*

O Cerrado, vegetação seca que cobre o Estado de Goiás, é considerado o segundo maior bioma brasileiro. Ao viajar pelo Estado, percorrendo estradas rumo a fazendas, chama a atenção quando se vê em um pasto imenso, lá no meio, as cores vivas do ipê. Entretanto, essa vegetação vem sofrendo com o avanço principalmente das monoculturas. Dados do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), mostram que até 2010 quase metade de toda área de Cerrado foi desmatada.

Professor de Agronomia da Universidade Federal de Goiás (UFG) e doutor em Produção Vegetal, Wilson Mozena acredita que esse cenário de preocupação ambiental vem mudando, principalmente com o incentivo governamental com projetos como o Programa Agricultura de Baixa Emissão de Carbono (Plano ABC). Criado em 2010, o objetivo era planejar ações que auxiliassem na redução da emissão dos gases de efeito estufa, sendo as ações mais populares a de Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (iLPF) e o Sistema de Plantio Direto (SPD).

Alguns desses produtores goianos já entendem a importância de assumir um compromisso com o meio ambiente, como Abílio Rodrigues, que possui a fazenda Boa Vereda no município de Cachoeira Dourada, 237 km de Goiânia. Mesmo sem participar do programa ABC, na fazenda Boa Vereda é utilizado o sistema de integração Lavoura-Pecuária-Floresta (iLPF) desde 2009.

O produtor explica que iniciou os trabalhos em um pasto extremamente degradado plantando eucalipto soja, milho e capim, além da atividade de pecuária. Abílio sustenta que essa rotatividade é mais eficiente, já que se produz durante todo o ano.

Donizete Peixoto, produtor em Bela Vista, a 60 km de Goiânia, está inserido no programa ABC desde seu início, em 2010. Produz soja, milho e capim, ocupando o solo o tempo todo. Donizete fala que "esta receita é espetacular". "Rende muito mais do que se fosse a outra forma, se fosse só um tipo de produção", disse.

Para o professor Wilson, a monocultura é a maior vilã da terra. O pesquisador explica que o sistema de integração e de plantio direto promovem benefícios vitais para o solo. O esquema de plantio, em que se varia o tipo de planta, colocando, por exemplo, milho junto com eucalipto, auxilia tanto no "sequestro" do carbono quanto na manutenção de uma terra fértil. "Neste sistema, junto com o milho planta-se a semente da forrageira [plantas usadas para alimentar o gado]. O milho nasce e essa planta fica lá na sombra até quando o milho é colhido para o gado pastar", explica o agrônomo.

Já o "sequestro" de carbono contribui para diminuir a emissão de gases de efeito estufa. Quando a terra é arada os restos são incorporados e os micro-organismos que decompõem morrem sem alimento e o carbono vai para a atmosfera. "Quando se deixa esses nutrientes no solo os microrganismos aumentam para decompor aqueles nutrientes e ficam na terra se alimentando. O carbono permanece com eles não subindo para a atmosfera", afirma Wilson.

O doutor diz o que impede esses sistemas de plantio de emplacarem são questões culturais em torno dos grandes fazendeiros. "O agricultor não se envolve com o pecuarista, acreditando que o trabalho de um não implica no trabalho do outro. Não entendem que está tudo relacionado, e que o lucro será bem maior", disse o doutor. Espera-se que os produtores entendam a importância da implementação desse sistema, altamente lucrativa e de conservação não só do Cerrado, mas de toda a vegetação brasileira. 

*Vencedora do 2.º Prêmio Tetra Pak de Jornalismo Ambiental

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