Experts sugerem mudar metodologia do IPCC

Para um deles, o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas poderia se transformar numa iniciativa colaborativa

Reuters

10 Fevereiro 2010 | 18h35

Especialistas sugeriram que o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas das Nações Unidas (IPCC) deve ser dividido ou mesmo transformar-se numa enciclopédia online, como o Wikipedia, para recuperar a confiança após a divulgação dos erros no relatório sobre o derretimento de geleiras no Himalaia. As considerações foram publicadas nesta quarta-feira em um artigo na revista científica Nature.

 

Cinco importantes especialistas do clima fizeram suas propostas, que vão desde manter a existência do painel da ONU até substitui-lo por um modelo de gestão parecido com o da Agência Internacional de Energia Atômica (IAEA, na sigla em inglês).

 

Vencedor do prêmio Nobel da Paz em 2007, o IPCC passou por polêmicas este ano por causa de erros no relatório sobre derretimento de geleiras no Himalaia. O documento dizia que o degelo ocorreria até 2035 e cientistas comprovaram que havia erros de digitação, revisão e redação no texto.

 

No ano passado, o vazamento de e-mails de cientistas renomados de uma universidade britânica - que davam a entender que foram escondidas evidências contrárias ao aquecimento global - também afetaram o IPCC, cujos relatórios são utilizados como guia de políticas governamentais no mundo todo em direção ao uso das energias renováveis para substituir o uso de combustíveis fósseis.

 

"Assim como o setor financeiro no ano passado, o IPCC está experiemtando hoje um fracasso na confiança que revela falhas de estrutura", escreveu Eduardo Zorita, do GKSS Research Centre, na Alemanha.

 

Ele defende que o IPCC seja substituído por uma "Agência Internacional do Clima", baseada nos moldes da IAEA e do Banco Central Europeu, que mostraram que é possível ser independente e respeitado.

 

Muitos especialistas reclamam que o real problema é que o IPCC produz relatórios apenas a cada seis anos. O último foi em 2007, contou com o trabalho de 2,5 mil pesquisadores e  totalizava cerca de 3 mil páginas.

 

John Christy, da Universidade do Alabama, sugeriu tornar o painel climático o "Wikipedia-IPCC", para ser atualizado online com seções que possam ser vistas por grupos de 4 a 8 especialistas.

 

"Uma nova classe de relatórios curtos, rapidamente preparados e revisados pelos pares é necessário", julga Mike Hulme, da Universidade de East Anglia, na Inglaterra.

 

Esses estudos poderiam ser sobre tarifas de carbono, formas de reduzir desmatamentos e degelo do Ártico.

 

Thomas Stocker, da Universidade de Berna, um dos coordenadores de um dos três principais grupos de trabalho do IPCC, defende os trabalhos do painel, dizendo que os relatórios a cada seis anos garantiam "a robustez necessária para uma análise rigorosa".

 

Um outro estudo feito separadamente na Nature sublinhou a necessidade de uma nova metodologia para monitorar as mudanças climáticas, melhorando os cenários usados pelo IPCC até agora que não levam em conta o impacto do corte de emissões, novas tecnologias verdes ou mudanças de estilo de vida.

 

“A ideia é ter uma biblioteca de cenários”, disse Nebojsa Nakicenovic do Instituto Internacional para Análises em Sistemas Aplicados.

 

 O relatório do IPCC 2007 reportou apenas 6 cenários, desenvolvidos depois de uma consulta a experts em áreas como crescimento econômico e uso de energia, à qual foram somados fatores como a probabilidade de emissão de gases de efeito estufa.

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