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Expedição quer salvar onça-pintada de desaparecer da Mata Atlântica

Projeto vai criar corredor entre Paraná e Santa Catarina que conecte populações isoladas da espécie na Mata Atlântica costeira

Gustavo Bonfiglioli, estadao.com.br

02 Maio 2011 | 21h00

A onça-pintada, principal felino do País, está com os dias contados na Mata Atlântica. As populações da espécie têm hoje menos de 250 exemplares espalhados entre São Paulo, Paraná e Rio, graças a fatores como a exploração ilegal de palmito e a caça do animal, predador de gado. Para evitar o desaparecimento das onças, que estuda desde 1988, o biólogo Marcelo Mazolli propõe a criação de um corredor ecológico entre o Paraná e Santa Catarina.

 

“As populações de onças da Mata Atlântica estão isoladas em pequenas regiões da Serra do Mar, sem conexão entre si”, explica Mazolli, fundador do Projeto Puma, ONG que realiza expedições pela Mata Atlântica para monitorar o animal em seu hábitat. Em parceria com a Biosphere Expeditions, instituição americana que recruta voluntários em todo o mundo para ajudar em expedições científicas, a ONG vai percorrer a região da baía de Guaratuba, no litoral paranaense, entre os dias 15 e 27 de maio. O objetivo é reunir informação científica para mapear e criar o Corredor do Tigre, para unir áreas povoadas por onças, chamadas de tigres pela população local.

 

Segundo Mazolli, o desenvolvimento da região separou populações de felinos, principalmente depois da construção da BR-277, que liga Curitiba ao Porto de Paranaguá, rodovia de tráfego intenso. “O corredor conectaria duas áreas núcleo, num total de 60 mil hectares”, explica o biólogo, que é doutor em Ecologia pela Universidade Federal do Rio GRande do Sul e integrante do Grupo de Especialistas em Felinos da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN).

 

“Não há medida dos órgãos ambientais públicos para cuidar da conexão entre populações de onças na Mata Atlântica”, critica Mazzolli. Segundo o biólogo, os resultados da expedição vão fazer parte de um plano de manejo que será apresentado ao Instituto Chico Mendes de Biodiversidade (ICMBio), mas ainda falta um bom caminho para que a questão vire política pública. “Existe uma tendência das instituições se voltarem à preservação de espécies ameaçadas que ainda apresentam grandes populações. Muitos têm medo de investir na preservação de uma espécie muito ameaçada pelo medo de fracassar. A onça-pintada ainda não é considerada criticamente ameaçada”, declara.

 

O declínio populacional das onças-pintadas na região está ligado principalmente à ação de extratores de palmito no entorno do Parque Nacional de Saint Hilaire/Lange, um dos principais redutos da espécie. O palmito-juçara, árvore típica da Mata Atlântica, é explorado de forma ilegal, o que compromete a vegetação nativa. “Para resolver esse problema, também temos projetos com as comunidades locais, para incentivar, por exemplo, o cultivo sustentável de açaí como alternativa para a atividade.”

 

Turismo científico. Na viagem ao Paraná, o Projeto Puma terá a Biosphere Expeditions como parceira. Malika Fettak, pesquisadora alemã que lidera expedições da Biosphere pelo mundo, explica que a instituição funciona como uma “ponte entre projetos científicos e voluntários leigos, mas mobilizados”. A ONG britânica, fundada em 1999, recruta colaboradores para participar de trabalhos de campo. Antes da viagem, eles são orientados pelos cientistas responsáveis e têm dois dias de treinamento antes de entrar na mata. Além disso, pagam um valor alto para participar: só a reserva é de R$ 800,00. “Às vezes os voluntários se assustam por terem que ‘pagar para trabalhar’, mas depois que explicamos com detalhes a complexidade dos projetos e das expedições, a maioria acha justo.”

 

A expedição terá um acampamento, onde fica a equipe e são realizados os treinamentos iniciais, equipamentos de monitoramento como câmeras-armadilha (que ficam escondidas na mata e disparam, graças a sensores, quando o animal passa) e carros com tração 4x4, cedidos pela Land Rover.

 

“Também procuramos envolver as comunidades locais, que conhecem a região. Contratamos guias e pensamos em soluções sustentáveis para problemas ambientais da região com eles”, diz Malika. “Procuramos priorizar espécies que, além de ameaçadas, representem uma peça chave no ecossistema em questão, para que nossas ações também preservem aquele hábitat.”

 

A Biosphere já organizou expedições científicas em vários países com espécies em risco, como Namíbia (guepardo), Rússia (leopardo da neve), Omã (leopardo árabe) e Honduras (recifes de corais).

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