Alexandre Marchetti/Itaipi/Divulgação
Alexandre Marchetti/Itaipi/Divulgação

Ex-desmatador hoje promove a proteção

Produtor Romeu Bruxel teve terras inundadas há 30 anos, mas seguiu na região e garante projeto de agricultura familiar

Bruno Deiro, O Estado de S.Paulo

28 Novembro 2012 | 02h08

No último feriado da Proclamação da República, Romeu Bruxel, de 67 anos, acordou cedo para regar as videiras, seringueiras e outras 18 variedades de culturas do Centro Avançado de Pesquisas (CAP) de Santa Helena, a 120 quilômetros de Foz do Iguaçu. "A planta não aguenta quatro dias sem água", explica. A dedicação do agricultor, que há 30 anos teve suas terras inundadas por Itaipu, é o que mantém o local em funcionamento há 11 anos - as outras duas unidades financiadas pela usina, em cidades vizinhas, já fecharam as portas.

Os CAPs surgiram como centrais para experimentação de alternativas de plantio para a agricultura familiar da região, que tentava em vão competir com grandes produtores pela soja. De quebra, fornecem orientação sobre as melhores práticas de recomposição de áreas desmatadas e regularização de faixas de proteção, o que garante a qualidade da água do reservatório.

"Mais da metade dos 20 mil moradores de Santa Helena vive no campo. Era preciso achar outras culturas que se adaptassem ao nosso clima", diz Bruxel, responsável pelo cultivo nos 7,5 hectares de terreno cedidos pela prefeitura, em área próxima às margens do lago. O projeto ganhou projeção e já foi visitado por 100 mil pessoas, de 69 países.

"Nos primeiros anos, a usina simplesmente pagava os royalties para as cidades. Mas não adiantava dar a terra e não dar condições", afirma. Segundo ele, as ações do CAP provaram que é possível respeitar as áreas protegidas sem diminuir os rendimentos. "Em pequena escala, pode-se ganhar até dez vezes mais com palmito de pupunha que com soja", garante Bruxel.

As culturas escolhidas para serem implantadas no terreno obedecem a dois critérios: têm de ser facilmente adaptadas pelos produtores e garantir rentabilidade. A análise técnica é feita por pesquisadores do Instituto Agronômico do Paraná (Iapar). Experiências com uvas bordô, por exemplo, não deram certo, enquanto testes com seringueiras para a produção de látex tiveram resultados promissores. A liberação para plantio, porém, depende de um processo de avaliação que pode levar até dez anos.

Mas novas culturas em breve deverão ser integradas às locais, como o abacaxi, que rende 15 toneladas em 3 quilômetros quadrados. Outro cítrico bem-sucedido é uma tangerina que registrou produtividade de 8 mil frutos em apenas três pés de muda.

Indenizado. A história de Bruxel acompanha o desenvolvimento de Santa Helena. Na década de 1960, ele saiu do Rio Grande do Sul para se juntar aos milhares de agricultores que colonizaram o oeste paranaense à custa da derrubada de árvores em uma área extensa. "Naquela época, dizia-se: 'Plante, que o governo garante'", lembra o descendente de alemães. O financiamento do governo, afirma, só saía para quem tivesse preparado os terrenos para o plantio. "Pequenos produtores conseguiam comprar ceifadeiras, que hoje custam até R$ 600 mil."

No início dos anos 1980, ele foi um dos 40 mil agricultores indenizados por Itaipu para a construção do lago, cuja margem brasileira ficou exposta pelo desmate - no lado paraguaio, o problema não ocorreu. Diferentemente dos muitos que usaram o dinheiro para comprar terras maiores em Mato Grosso do Sul, Bruxel ficou em Santa Helena. / BRUNO DEIRO

Classificadas como fontes de energia limpa, as hidrelétricas não estão livres da emissão de gás carbônico e metano, que se dá pela decomposição da matéria orgânica acumulada no fundo do lago. Um levantamento com dados do reservatório de 12 usinas do País, porém, aponta que Itaipu está entre as que menos liberam gases do efeito estufa.

O estudo, do Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-graduação e Pesquisa de Engenharia da UFRJ, mostrou que a hidrelétrica emite, por metro quadrado, 10,7 miligramas (mg) de metano e 170 mg de gás carbônico a cada dia.

Segundo os pesquisadores, a explicação é a profundidade do lago e a grande potência energética. A usina de Tucuruí (TO) é a recordista em gás carbônico (8,4 mil mg), enquanto Três Marias (MG) lidera a emissão de metano, com 196 mg - o que a torna mais poluente do que algumas termoelétricas movidas a carvão mineral ou a gás natural.

Mais conteúdo sobre:
Itaipu

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.