EUA querem acabar com minas de carvão em montanhas

Governo do país não deve conceder novas licenças para atividade, que causa poluição da água e danos à saúde

Renee Schoof, Do McClatchy Newspapers

08 Janeiro 2010 | 16h22

A evidência científica de que a remoção de carvão em montanhas para mineração destrói córregos e ameaça a saúde humana é tão forte que o governo americano deve parar de conceder novas licenças para a atividade, de acordo com um relatório divulgado nesta sexta-feira por um grupo de 12 cientistas ambientais na revista Science. 

 

As conseqüências das minas do leste de Kentucky, na Virgínia Ocidental e no sudoeste da Virgínia são "generalizadas e irreversíveis", diz o artigo. As empresas são obrigadas por lei a tomar medidas para reduzir os danos, mas seus esforços não compensam as perda nem impedem a poluição da água. 

 

O artigo é um resumo dos recentes estudos científicos sobre as conseqüências de explodir o topo de montanhas para obter carvão e despejar o excesso de rochas em córregos ou vales. Os autores também estudaram novos dados sobre qualidade da água dos córregos da Virgínia Ocidental e descobriram que a mineração os polue, reduzindo a sua diversidade biológica e afetando a saúde. 

 

Surpreendentemente, pouca atenção tem sido dada a esta crescente evidência científica dos danos. "Os reguladores devem deixar de ignorar a ciência rigorosa", acrescentou o documento. Novas licenças não devem ser concedida, alegou o artigo, "a menos que novos métodos possam ser submetidos a uma rigorosa revisão por seus pares e demonstrado para sanar esses problemas". 

 

O artigo da Science cita uma série de riscos potenciais da mineração nas montanhaspara a saúde, incluindo água de poços contaminados, a poeira tóxica e os peixes que estão contaminados com substância química selênio. Ele também verificou os danos ambientais para minas e áreas de preenchimento e para cursos de água. 

 

"A razão pela qual estamos dispostos a fazer uma recomendação política é que a evidência é muito clara", explicou a professora Margaret Palmer, da Universidade de Maryland, principal autora do estudo da Science e uma especialista em ecologia de riachos. Palmer tem vínculos pessoais em Appalachia. Sua família é de do oeste da Carolina do Norte, e ela passou boa parte de sua infância lá. 

 

A avaliação ocorreu dias após a Agência de Proteção Ambiental (EPA, na sigla em inglês) ter aprovado uma autorização pela Lei da Água Limpa para as 45 minas da montanha Hobet, na Virgínia Ocidental. A EPA chegou a um acordo para alterar os planos originais. Em vez de enterrar dez quilômetros de córregos, a empresa vai enterrar apenas cinco. A EPA disse que outra mudança seria reduzir a contaminação dos córregos e proteger a saúde pública. Ao mesmo tempo, a agência reconheceu os custos ambientais. 

   

A exploração de minas em montanhas já destruiu cerca de 3,2 mil quilômetros quadrados de terras em Appalachia e enterrou mais de dois mil quilômetros de córregos, disse o porta-voz da EPA, Enesta Jones, por e-mail. 

 

"Os estudos científicos identificaram problemas cada vez mais significativos na qualidade da água abaixo da superfície de operações de mineração de carvão que podem contaminar as águas superficiais por centenas de anos. Os dados de comunidades de campos de carvão indicam também que a mineração é responsável por causar a mortandade e contaminação de peixes e animais selvagens'', dizia um comunicado do EPA à imprensa sobre a aprovação das 45 minas em Hobet. 

 

A declaração diz que a EPA tem "o compromisso de usar sua autoridade reguladora pela Lei da Água Limpa para reduzir impactos ambientais e da qualidade da água associada à exploração mineira do carvão de superfície".

 

A aprovação por parte da EPA das 45 minas em Hobet, anunciada na terça-feira, foi a primeira grande licença para montanha de mineração que a agência aprovou a partir de um lote de 79 que levantou muitas preocupações. A mina deverá empregar 460 mineiros sindicalizados. Grupos ambientalistas condenaram a decisão e disseram que, mesmo com as mudanças, a mina iria destruir florestas e rios. 

 

O ato Surface Mining Control and Reclamation Act, de 1997, exige um equilíbrio entre proteção ambiental com a necessidade de carvão pelo país. Metade da eletricidade do país vem da queima de carvão. De acordo com o Departamento de Energia, o carvão também contribui para 36,5% das emissões do país de dióxido de carbono, o principal gás de efeito estufa.

 

A revisão dos cientistas de outros relatórios científicos e seu próprio estudo sobre dados do governo na Virgínia Ocidental descobriu que substâncias químicas liberadas em córregos próximos a minas podem prejudicar plantas e animais. 

 

Muitos dos rios apresentaram concentrações tóxicas de selênio, substância química que ocorre naturalmente no carvão. Descobriu-se que peixes e aves com níveis elevados de selênio podem ter falhas reprodutivas. Consultores do governo avisam os moradores sobre os riscos de comer muito peixe contaminado por selênio. 

 

A poluição continua muito tempo após a extração de carvão terminar, diz o artigo. Margaret Palmer disse que nenhum córrego foi totalmente restaurado ainda. "Nunca se comprovou que as mudanças químicas na água possam ser reparadas", disse ela em uma entrevista. Ela e seus co-autores escreveram que as empresas são obrigadas a tomar medidas para compensar a perda de habitat, mas essas etapas não servem para proteger ou restaurar a qualidade da água. 

 

A EPA tem autoridade para vetar licenças de mineração e impõe regras que determinam como o processo de mineração na montanha será conduzido.

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