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Estudo revela por que tilápia é tão adaptável

Fábio de Castro - O Estado de S. Paulo

04 Setembro 2014 | 03h 00

Alta adaptabilidade preocupa cientistas: Câmara aprovou projeto que libera cultivo de espécies exóticas em represas brasileiras

Reprodução
Alta capacidade adaptativa da tilápia é neste momento uma grande preocupação da comunidade científica

 

Atualizado às 12h20

SÃO PAULO - O sequenciamento genético de cinco peixes africanos - incluindo a Tilápia do Nilo - revelou os mecanismos genômicos que estão por trás da incrível capacidade de adaptação desses animais aos mais variados tipos de ambientes. O trabalho, realizado por uma equipe de mais de 70 cientistas sob liderança do Broad Institute do MIT e Harvard, foi publicado na edição de hoje da revista Nature

A alta capacidade adaptativa da tilápia é neste momento uma grande preocupação da comunidade científica brasileira: a Câmara dos Deputados acaba de aprovar e enviar ao Senado o Projeto de Lei 5989/09, que libera a criação de espécies exóticas - como a tilápia - nos reservatórios de represas brasileiras.

Segundo o artigo da Nature, peixes como a tilápia são verdadeiros “mutantes naturais”, por isso conseguiram se diversificar amplamente em um tempo relativamente curto nos rios e lagos africanos. A comparação dos genomas das cinco espécies da família Cichlidae mostrou uma surpreendente gama de modificações genéticas. “Não detectamos apenas uma grande mudança genética, mas inúmeros mecanismos moleculares que a natureza usou para levar esses peixes a um incrível grau de adaptação”, disse Federica Di Palma, uma das autoras.

Segundo Mário Orsi, do Laboratório de Ecologia de Peixes e Invasões Biológicas da Universidade Estadual de Londrina, o estudo reforça os argumentos da comunidade científica contra o projeto de lei. “Caso o Senado aprove o projeto, teremos uma verdadeira tragédia ecológica. A tilápia tem capacidade para se adaptar nos mais variados ambientes, mesmo em águas extremamente degradadas”, afirmou. De acordo com Orsi, embora já seja encontrada em diversos biomas, a tilápia não se estabeleceu completamente no Brasil. “A tilápia é extremamente agressiva e domina os ambientes onde se estabelece”, disse. De acordo com o cientista, o projeto libera o cultivo de peixes exóticos em tanques-rede. “A tilápia deveria ser cultivada apenas em tanques escavados. Nos tanques-rede é praticamente impossível impedir que os peixes escapem e se espalhem pelos biomas.”

Projeto polêmico. O Projeto de Lei 5989/09, do deputado Nelson Meurer (PP-PR), modifica a lei da Política Nacional de Desenvolvimento Sustentável da Aquicultura e da Pesca, determinando que as espécies exóticas de peixes criadas em tanques-rede, instalados em reservatórios de águas continentais, podem ser equiparadas às espécies nativas. O texto prevê também a obrigatoriedade de proprietários de represas protegerem a fauna, por meio do repovoamento anual dos reservatórios hídricos com espécies presentes no meio ambiente local.

Para Orsi, o projeto de lei "naturaliza" as espécies invasoras como a tilápia e a carpa. "O projeto parte do pressuposto de que esses peixes já invadiram os biomas brasileiros. Isso simplesmente não é verdade. Essas espécies não estão estabelecidas. Mas o projeto vai tratar de fazer isso", declarou. O fato das tilápias já dominarem diversos corpos d'água - como a Represa de Guarapiranga e o Reservatório de Barra Bonita, no Estado de São Paulo - não quer dizer que o peixe possa ser equiparado às espécies nativas.

"A comunidade científica internacional está estarrecida com esse projeto. É inacreditável que o Brasil, com mais de 8 mil espécies nativas, queira naturalizar a tilápia, uma espécie africana exótica sabidamente invasora", disse Orsi.

O cientista explica que a tilápia se prolifera rapidamente, em águas com diversas temperaturas, e é bem-sucedida em ambientes alterados e pobres em recursos alimentares, como os represamentos de hidrelétricas. Segundo ele, a alta capacidade de adaptação desses animais é uma ameaça à biodiversidade nos biomas brasileiros.

"É um animal rústico, com uma capacidade zootécnica muito grande: produz carne rapidamente. Mas a tilápia entra em competição direta com as espécies nativas e promovem o fenômeno da exclusão competitiva. Ela é territorialistae, com sua capacidade adaptativa, ela sempre ganha a competição por espaço e alimento. Além disso, é predadora das larvas e voos de espécies nativas", afirmou.

Mesmo do ponto de vista econômico, a naturalização da espécie trará riscos, segundo o pesquisador. "Houve casos em Barra Bonita e em Minas Gerais nos quais as tilápias escaparam dos tanques-rede com tal intensidade que invadiram toda a represa. Os pescadores artesanais tiveram acesso a grandes quantidades do peixe, derrubando o preço", explicou.

Segundo ele, nenhum cientista é contra a criação de tilápias, mas é preciso evitar os tanques-rede. "É preciso produzir profissionalmente, em tanque escavado", disse.

De acordo com Orsi, a tilápia traz ainda um problemas para a qualidade da água. "Vários artigos científicos mostraram que ela piora a qualidade de água dos reservatórios", afirmou. Segundo ele, o cultivo feito à base de ração rica em fósforo, causa poluição e altera o ambiente aquático para as espécies nativas. "A qualidade da água fica tão ruim que só a tilápia é capaz de sobreviver em tal ambiente", disse. O deputado Nelson Meurer foi procurado pela reportagem do Estado, mas não respondeu às ligações.

Invasoras. Espécies invasoras, ou exóticas, são aquelas que se proliferam sem controle e passam a representar ameaça para espécies nativas e para o equilíbrio de ecossistemas. De acordo com Michele Dechoum, bióloga do Instituto Hórus de Desenvolvimento e Conservação Ambiental, o Brasil tem hoje mais de 700 espécies invasoras de plantas, peixes e animais vertebrados e invertebrados. Veja galeria com algumas espécies invasoras: 

As invasoras
Unesp Rio Claro

Pinus (Pinus elliottii e Pinus taeda, especialmente) - Trazida em 1948 pelo Serviço Florestal do Estado de São Paulo, destacaram-se pelo rápido crescimento e reprodução intensa - características que na época não foram vistas como riscos de invasão biológica. Substitui a vegetação nativa por dominância e sombreamento de ecossistemas abertos e em áreas florestais degradadas, em especial no Sul e no Cerrado.