Estudo aponta que tartarugas 'conversam' para coordenar ações

Sons vocais emitidos pelas tartarugas da Amazônia servem para sincronizar movimentos de migrações e escolher local de desova

Fábio de Castro, O Estado de S. Paulo

19 Agosto 2014 | 15h34

SÃO PAULO - As tartarugas de rio (Podocnemis expansa) usam diferentes tipos de comunicação vocal para coordenar comportamentos sociais, de acordo com uma pesquisa realizada no Pará. O estudo, publicado na revista Herpetologica, indica que a "conversa" entre os animais é uma estratégia natural usada, por exemplo, na sincronização de movimentos durante as migrações, ou na decisão sobre locais específicos para a desova. 

O artigo indica também que os filhotes de tartarugas começam a "tagarelar" antes mesmo de nascer, provavelmente para sincronizar a eclosão dos ovos, a fim de unir forças para cavar a saída do ninho. A pesquisa foi realizada por cientistas do Instituto Nacional de Pesquisas de Amazônia (Inpa) e da Wildlife Conservation Society (WCS).

De acordo com uma das autoras do artigo, Camila Ferrara, da WCS, as vocalizações das tartarugas foram gravadas com microfones e hidrofones instalados nos cascos dos animais. "O estudo se baseou em 220 horas de gravações realizadas entre 2009 e 2011 durante o período de reprodutivo", disse Camila. O período reprodutivo, segundo ela, tem início com a migração das tartarugas - que nadam das florestas alagadas até as praias de rio onde é feita a desova - e termina com o nascimento dos filhotes, sua saída dos ninhos, o reencontro com as mães e a migração de volta à floresta alagada.

"Observamos seis tipos de sons diferentes emitidos pelas tartarugas nesse período. Os dados indicam que essas vocalizações têm um papel importante na sincronização das atividades dos grupos durante a fase reprodutiva", afirmou Camila. Segundo ela, os sons foram gravados em cinco momentos diferentes: durante a migração, no momento da agregação diante das praias de rio, durante a  noite de desova, ao esperar na água fora do momento de desova e durante a espera da chegada dos filhotes. 

Segundo Camila, os cientistas se surpreenderam com a variedade de sons. "Foram registrados desde sons simples como pulsos, até outros mais complexos, como os harmônicos e híbridos, que podem ser comparados até com vocalizações de grupos mais evoluídos como cetáceos e macacos", afirmou. 

As "conversas" das tartarugas, no entanto, só podem ser ouvidas por quem estiver muito perto delas, em total silêncio, de acordo com outro autor do estudo, Richard Vogt, do Inpa. "Os sons são muito baixos, embora audíveis para a frequência humana. São sons de pouco mais de 36 hertz e nós captamos frequências a partir de 20 hertz", explicou Vogt.

Segundo o artigo, os sons feitos pelas tartarugas durante a migração tinham as frequências mais baixas, provavelmente, para facilitar o contato entre os animais em longas distâncias. As vocalizações feitas durante o período em que são feitos os ninhos tendem a ter frequências mais altas - o que facilita sua transmissão em águas rasas e no ar. 

Em outro estudo publicado no início de 2013 na revista Journal of Comparative Psychology, também utilizando as gravações das vocalizações de tartarugas, os pesquisadores haviam revelado pela primeira vez um caso de cuidado parental entre répteis. Antes disso, pensava-se que as tartarugas não cuidavam de suas crias, apenas deixavam os ovos enterrados, abandonando os filhotes à própria sorte. Mas, ao estudar os sons, os pesquisadores perceberam os filhotes, ao sair dos ninhos e entrar no rio, chamam pelas fêmeas. "Elas respondem e os aguardam em frente à praia. Só então adultos e filhotes começam a nadar juntos no rio, em direção às áreas de floresta alagada", disse Vogt.

Os cientistas também observaram que até dois dias antes da eclosão dos ovos, os filhotes emitiam sons vocais. "Era curioso para mim observar que muitos dos filhotes nasciam prematuros. Agora acreditamos que isso acontece porque eles são estimulados pelos outros após a vocalização. Com isso, unem as forças para cavar", declarou.

Com o novo estudo, focado no período reprodutivo das tartarugas, os cientistas observaram que os filhotes permanecem juntos com as fêmeas adultas durante toda a migração, que dura mais de dois meses. "O grupo, de centenas de indivíduos, chega a descer o rio por mais de 70 quilômetros. Agora está provado que eles migram junto com as fêmeas e achamos que eles usam os sons vocais para manter a coesão do grupo e se manter seguros", disse.

O papel das vocalizações na sincronização das fêmeas no momento da desova também foi observado. "É algo fabuloso ver mais de 200 fêmeas saindo da água ao mesmo tempo para desovar. Antes, era cogitado que elas sincronizavam esse movimento a partir da temperatura da água. Mas agora achamos que isso acontece graças à comunicação vocal", disse o cientista.

Além de Camila Ferrara e Richard Vogt, participaram do novo estudo Renata Sousa-Lima, da Universidade Cornell, Bruno Tardio, do Instituto Chico Mendes e Virginia Campos Diniz Bernardes, do Inpa.
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