WERTHER SANTANA/ESTADÂO
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Especialistas dão dicas para expandir a discussão sobre sustentabilidade

Em linhas gerais, a mensagem que todos passaram é que é preciso atuar em duas frentes: em uma mais individual, que toque as pessoas, e em uma mais sistêmica, em que a sustentabilidade deixe de ser tratada como assunto apenas de um setor ou departamento

Giovana Girardi, O Estado de S. Paulo

04 Outubro 2016 | 19h39

Há alguns anos a marca esportiva Nike estava planejando a criação de um departamento de sustentabilidade e saiu a campo para perguntar para jovens se eles se engajariam em um campanha sobre o assunto. Recebeu diversas negativas, ouviu que era um tema tedioso, chato. A empresa, então, reposicionou sua abordagem e voltou a procurar os jovens com uma outra pergunta: você quer ajudar a construir um mundo melhor? O apoio, dessa vez, foi massivo.

A anedota foi contada na manhã desta terça-feira (4) por Tom Moore, sócio da consultoria Mandalah e um dos responsáveis pela articulação da campanha global de comunicação dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável no Brasil, durante um debate que buscava encontrar respostas justamente para o desafio de mobilizar as pessoas para a sustentabilidade. “A sustentabilidade tem um problema de imagem”, definiu Moore.

Organizado pelo Instituto Democracia e Sustentabilidade (IDS), em parceria com o Estado, o evento discutiu como levar o tema para além do “gueto ambientalista” e teve entre os palestrantes, além de Moore, o cineasta Fernando Meirelles, a especialista em comportamento do consumidor Mônica Gregori, sócia da Agência Cause, que fez o estudo “O Fluxo das Causas”, sobre desafios e oportunidades de comunicar grandes causas como cidades sustentáveis e mudanças climáticas; e o publicitário Ricardo Guimarães, especialista em comunicação e identidade de marca.

Em linhas gerais, a mensagem que todos passaram é que é preciso atuar em duas frentes: em uma mais individual, que toque as pessoas para elas se entenderem parte do problema e possam se engajar em busca de soluções; e em uma mais sistêmica, em que a sustentabilidade deixe de ser tratada de modo setorial, como por um departamento dentro de uma empresa, por exemplo, ou apenas por uma secretaria ou ministério e entre na base de ações de empresas ou governos.

“É preciso ativar outras dimensões nas pessoas, para se sentirem motivadas a participar. É importante virar uma convocação, um convite de ação. E tem de trazer uma porta de saída. Não adianta dar só os fatos desesperados. É como falar de morte. Ninguém quer falar disso, porque se não tem saída, melhor nem falar”, comentou Mônica.

Meirelles, que foi convidado a contar como levou o tema das mudanças climáticas para 3,5 bilhões de pessoas na abertura da Olimpíada no Rio, contou que levou isso em consideração ao planejar a introdução do tema na festa. Ele também adiantou que está elaborando uma série de TV com a questão como mote.

Em um minuto e meio, os expectadores viram informações gráficas sobre o aumento das emissões de gás carbônico no mundo, o aumento da temperatura média no planeta no último século, o derretimento do Ártico e projeções de como o nível do mar, ao subir, pode alagar cidades como o Rio de Janeiro. Mas depois da tragédia, ele quis mostrar soluções. Ou ao menos uma delas: o plantio de florestas para absorver o carbono que está na atmosfera provocando o efeito estufa.

“Acho que em geral as imagens catastróficas, de desastres, que já vimos tanto, não tocam mais. Mas ali a ideia era ir direto à informação. E depois veio a boa notícia: mostramos projetos de reflorestamento em todo o mundo. Representam a mudança de atitude que queremos. Plantar floresta é a maneira mais barata de absorver carbono. Não resolve o problema, mas mitiga”, disse.

“Tentamos contar a história de como o derretimento do Ártico vai nos afetar. De certo modo mostramos isso. Derretendo o Ártico e o cara que mora na Quinta da Boa Vista vendo o mar chegar. Mas só a apologia do desastre não funciona. Se não deixarmos uma portinha de saída, de que ainda tem jeito, o cara se desinteressa. Tem que mostrar um caminho.”

Guimarães falou sobre como a transformação pode ocorrer no campo empresarial. “Acho que a chave está em trazer a sustentabilidade como inspiração, no planejamento estratégico, na busca por soluções. Colocar a sustentabilidade no cerne da organização, no negócio. Mostrando como se ganha dinheiro tornando o mundo melhor, mais bonito, mais saudável. E não dissociando-a como uma causa anexa, em vez de essencial, como ela de fato é.”

O economista Eduardo Gianetti, que estava no auditório, fez uma participação especial na discussão. “O padrão mais comum na vida das pessoas é que elas são revolucionárias quando jovens e vão se tornando conservadoras e avessas a mudanças à medida que envelhecem. Acho que meu caso está sendo o contrário. Estou ficando mais radical. Eu não me conformo de estar em um mundo em que consumir mais, lucrar mais, ganhar mais é o valor dominante da vida. Tem alguma coisa errada”, disse. 

“Já era péssimo eticamente e agora é temerário biologicamente. O limite agora vem de fora. A gente só não pode perder a esperança. Não é à toa que o Dante colocou no inferno: abandonai toda a esperança a vós que entrais. Não vamos perder a esperança”, complementou.

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