Escassez gera diversidade

O mais simples dos ambientes é composto por milhares de subambientes. E as espécies competem para ocupar cada microespaço

Fernando Reinach, O Estado de S.Paulo

10 Setembro 2016 | 03h00

Por que existe a biodiversidade? Centenas de plantas, insetos, roedores, lagartos, macacos - sem falar das bactérias e fungos - convivem na mesma floresta. Mas por que tantos? Por que, depois de tanto tempo de evolução, não surgiu uma, ou algumas espécies, capazes de excluir todas as outras espécies e reinar sozinhas?

A explicação é que o mais simples dos ambientes é composto por milhares de subambientes. E as espécies competem para ocupar cada microespaço. Enquanto árvores competem pelos nutrientes no fundo do solo, outras plantas coletam o que podem perto da superfície. Enquanto um inseto come folhas, o segundo perfura o tronco, e um terceiro se especializou em comer o segundo. Uma ave come insetos, outra frutos e as de rapina devoram as duas primeiras. Segundo essa teoria, cada ser vivo se especializou e explora de maneira eficiente um microambiente. Para tanto, é preciso uma grande diversidade de seres vivos, daí a biodiversidade.

É a vantagem de um conjunto de especialistas sobre um generalista. O mesmo acontece nas sociedades humanas: temos médicos, sapateiros, engenheiros e dezenas de outras profissões - cada um se especializou e explora um nicho econômico. Da mesma maneira que uma única pessoa não consegue ser simultaneamente médico, sapateiro e engenheiro, uma única espécie não explora mais que um nicho no ecossistema. A biodiversidade é o resultado da seleção de especialistas. Sua existência demonstra que a especialização é a solução mais eficiente.

Mas essa explicação parecia não fazer sentido em ecossistemas dominados por vegetação baixa, como os campos e as savanas. Neles, onde dezenas de espécies vegetais rasteiras coexistem, o solo é homogêneo e as plantas têm acesso aos mesmos nutrientes. A chuva, a luz e a temperatura são as mesmas. Se ali não existem microambientes por que existiria toda essa diversidade? A hipótese levantada por alguns ecologistas é que nesses ecossistemas o solo é pobre e cada planta desenvolveu soluções para lidar com suas carências nutricionais. Essa é uma hipótese testável. Se for verdade, basta acabar com as carências de nutrientes para reduzir a biodiversidade. Se os cientistas adubassem o solo desses lugares, a biodiversidade diminuiria.

Foi isso que um conjunto de cientistas fez em mais de 50 locais espalhados em 5 continentes. Em cada uma dessas regiões, uma área intocada com uma biodiversidade que variava entre 13 e 103 espécies de plantas foi dividida em dezenas de quadrados. Enquanto um quadrado era deixado intocado, os outros recebiam adubo. Áreas de teste recebiam potássio, nitrogênio e fosfato isoladamente ou em combinações de dois ou três nutrientes, em diferentes doses. O experimento foi feito de modo que nas áreas que receberam todos os nutrientes não houvesse carência de nutriente para nenhuma planta. Os cientistas acompanharam o que acontecia com a biodiversidade em cada área ao longo de 5 anos. A cada ano, verificavam se todas as espécies originais ainda estavam presentes ou se algumas haviam desaparecido.

Após três anos, os cientistas confirmaram a hipótese. Quanto mais nutrientes adicionados ao solo maior a redução da biodiversidade. Em algumas áreas mais de 33% das espécies desapareceram. Além disso, se mais de uma deficiência era corrigida, mais espécies desapareciam. 

Esse resultado comprova que é a falta de nutrientes e as diversas maneiras das plantas lidarem com essa carência que levam ao surgimento da exuberante biodiversidade nesses ecossistemas. Essa é uma dessas descobertas que contrariam nossa intuição. Acostumamos a pensar que mais biodiversidade é bom e que mais nutrientes também são. Ai, erradamente concluímos que mais nutrientes resultam em mais biodiversidade. O que acontece é o contrário. E o mesmo em nossa cidade. Em época de crise, aumentam as profissões. Palhaços nos semáforos, flanelinhas e outras que não existem em ambientes de fartura, cada um tentando explorar um micronicho para garantir a sobrevivência.

MAIS INFORMAÇÕES: ADDITION OF MULTIPLE LIMITING RESOURCES REDUCES GRASSLAND DIVERSITY. NATURE, VOL. 537 PAG. 93 2016

FERNANDO REINACH É BIÓLOGO

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