Fábio Motta/Estadão
Fábio Motta/Estadão

Emissões de gases vão ser reduzidas mesmo sem acordo global

Especialistas acreditam que pressão dos consumidores e ações da iniciativa privada podem reverter aquecimento do planeta

Denise Chrispim Marin, ENVIADA ESPECIAL

02 Novembro 2014 | 03h00

COPENHAGUE - O mundo caminha para a redução das emissões de gases do efeito estufa, puxada pelo setor privado e pelos consumidores, independentemente de haver ou não um acordo global entre os 190 países convocados para a Conferência das Partes sobre Mudança Climática (COP21), em 2015. É esse o consenso entre os especialistas que participaram na última semana do Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática (IPCC), em Copenhague.

Com o acordo, haverá chance de a temperatura da terra não subir mais do que 2°C até 2100, diante do dado da era pré-industrial. Mas, mesmo sem ele, não baterá na previsão pessimista de aumento de 7,8°C. A elevação deverá rondar os 4°C.

O cenário não chega a tranquilizar. Tuvalu, país da Oceania, terá boa parte de seu território coberto pelo mar. Áreas agrícolas ficarão salinizadas e impróprias para o cultivo, e a pobreza e a desigualdade tenderão a se acentuar, explica Suzana Kahn, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e membro do IPCC. 

Mas esse quadro é menos ruim do que o propagado em caso de não haver acordo. Inovações tecnológicas no setor de energias renováveis, reorientação de investimentos e políticas de governos nacionais e subnacionais estão em curso e vão se acentuar nas próximas décadas. Relatório do IPCC divulgado em março deste ano mostra que o atual fluxo financeiro para a redução de emissões varia de US$ 343 bilhões a US$ 385 bilhões por ano. A nova economia verde, de baixo carbono, começa a ser construída, mesmo sem estímulos oficiais.

Suzana estima o aumento de 4°C, sem acordo na COP21, em Paris. A organização ambiental WWF também calcula algo entre 3°C e 4°C a mais, segundo Samantha Smith, líder da Iniciativa Global sobre Clima e Energia. Mas o WWF pondera que a Terra, hoje com mais 1°C do que em 1750, já enfrenta tragédias provocadas por eventos climáticos extremos, como as inundações e a seca. “A agenda de redução vai avançar, empurrada pelo setor privado e pela sociedade. Os governos virão a reboque”, afirma Suzana. “Hoje, não há empresa petroleira no mundo que não esteja trabalhando com a energia renovável. Abu Dabi, nos Emirados Árabes, já atua nessa área.”

Mas, para levar energia limpa a 1,3 bilhão de pessoas no mundo sem acesso à eletricidade e aos 3 bilhões dependentes de carvão para cozinhar e se aquecer, serão necessários investimentos de US$ 72 bilhões a US$ 95 bilhões ao ano até 2030. 

Relatório. Ao longo da última semana, o IPCC se reuniu para resumir seus últimos três relatórios sobre a mudança climática. O texto síntese será divulgado neste domingo. Não trará novidades, mas uma linguagem cuidadosamente burilada pelas intervenções de representantes dos governos.

O resumo, em princípio, deverá guiar as negociações globais, que começam em dezembro, em Lima, e devem ser concluídas em Paris, em novembro. Suzana sublinha a importância desse acordo não apenas pelos seus efeitos de mitigação da mudança climática, mas também para a redução da pobreza e da desigualdade e a adoção de políticas de adaptação em países menos desenvolvidos. 

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