Emissões de gases de efeito estufa aumentam 7,8% no Brasil

Emissões de gases de efeito estufa aumentam 7,8% no Brasil

Mudança no uso da terra foi o fator principal para o crescimento; tendência de queda nas emissões foi revertida

Fábio de Castro, O Estado de S. Paulo

19 Novembro 2014 | 16h25

Atualizada às 20h20

SÃO PAULO - As emissões de gases de efeito estufa cresceram em todos os setores no Brasil, atingindo 1,57 bilhão de toneladas de CO2 equivalente em 2013 - um aumento de 7,8% em relação ao ano anterior. Essas são as conclusões da edição 2014 do Sistema de Estimativas de Emissões de Gases de Efeito Estufa (SEEG) do Observatório do Clima.

De acordo com Carlos Rittl, secretário geral do Observatório do Clima - uma rede que reúne 35 organizações não-governamentais - os dados mostram que houve uma reversão da tendência, que era de queda desde 2005. Houve aumento das emissões nos cinco setores estudados: mudança de uso da terra - ligado à devastação de florestas -, energia, agropecuária, indústria e resíduos.

"O setor que mais contribuiu para esse quadro, com um aumento de 16,4% das emissões, foi o de mudanças do uso da terra, sob o impacto do aumento do desmatamento na Amazônia e no Cerrado. Em segundo lugar, vem o setor de energia, que teve aumento de 7,8%, influenciado pelo aumento do uso de energia termelétrica, o aumento dos investimentos em fontes fósseis e o consumo de gasolina e diesel para transporte", disse Rittl.

Em 2013, o setor de mudança de uso da terra foi também responsável por mais de um terço das emissões, 35%. O setor de energia aumentou sua participação para 30% das emissões, seguido pelos setores de agropecuária (27%), processos industriais (6%) e resíduos (3%). A edição 2014 do SEEG também fez estimativas de emissões por Estado. Os maiores emissores foram o Pará (11,2%), Mato Grosso (9,4%), São Paulo (8,5%) e Minas Gerais (7,5%). Especificamente no setor de mudanças do uso do solo, São Paulo lidera as emissões, com 12,9%, seguido por Minas Gerais (9,8%) e Rio Grande do Sul (7,2%).

Para Rittl, o aumento das emissões já era esperado. "No ano passado tivemos um aumento de 29% do desmatamento na Amazônia, o que não é nada desprezível. Ao mesmo tempo, registramos um aumento no uso de energia de fontes fósseis. Infelizmente, nossa expectativa se concretizou", disse. Segundo ele, é provável que a reversão na tendência de queda das emissões tenha vindo para ficar. 

"É esperado que as emissões aumentem em períodos de grande crescimento econômico. Mas no último ano a economia cresceu pouco e as emissões aumentaram. Isso deixa claro que a intensificação das emissões está ligada a um relaxamento do controle de desmatamento, às mudanças no Código Florestal e aos investimentos em matrizes fósseis de energia, que vão na contramão das diretrizes para uma economia de baixo carbono", afirmou. 

Em análise dos dados do SEEG feita em agosto, o Observatório do Clima já detectara que o período de redução das emissões no Brasil poderia estar chegando ao fim. Segundo Rittl, entre 2004 e 2012 as emissões caíram pela metade no Brasil, graças à queda de mais de 70% nas taxas de desmatamento da Amazônia naquele período. Mas, no mesmo período, houve aumento de emissões em todos os outros setores - em especial o de energia, com crescimento de 30%. 

"A drástica redução do desmatamento na Amazônia na última década parece ter criado uma zona de conforto, que mascarou o crescimento persistente dos outros setores e levou a um relaxamento da proteção das florestas. Assim, desde 2009, quando o Brasil lançou metas de redução de emissões até 2020, não se fez nenhum esforço para colocar nossa economia em uma trajetória sustentável", afirmou Rittl.

De acordo com Rittl, o Plano Decenal de Expansão da Energia para 2023, do Ministério de Minas e Energia, prevê investimentos de mais de R$ 1 trilhão em energia. Desse total, 70% corresponde a energias fósseis, incluindo o pré-sal. 

"Isso significa mais de R$ 800 bilhões para essas fontes de energia. Essa nova tendência de aumento das emissões deveriam nos levar a uma reflexão sobre os caminhos que iremos tomar em relação à geração de eletricidade e ao transporte individual, coletivo e de carga", declarou.

Segundo Rittl, o Brasil, em uma zona de conforto ilusória, está investindo muito pouco em matrizes energéticas renováveis. "As  participação das energias renováveis na nossa matriz energética já caiu de 48% para 41% nos últimos cinco anos. A China já produz 13 gigawatts de energia solar ao ano, enquanto nosso governo está planejando chegar a 2 gigawatts até 2023. Até essa data, se seguirmos o plano, a energia solar corresponderá a 2,4% da nossa matriz, enquanto a China já tem 9%", afirmou.

De acordo com ele, só em 2013, os Estados Unidos criaram 23 mil empregos ligados à produção de energia solar. "Países como China, Estados Unidos e Alemanha estão investindo cada vez mais em fontes renováveis de energia e avançando no desenvolvimento tecnológico associado à energia solar em suas cadeias produtivas. Enquanto isso, estamos apostando no pré-sal e ficando para trás", disse Rittl.

Os dados completos do SEEG 2014 podem ser acessados no site.

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