Felipe Rau/Estadão
Felipe Rau/Estadão

Em SP, árvores ocupam apenas 11,7% das ruas; bairros expõem contrastes

É o que revela estudo do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), que utilizou dados do Google Street View para analisar a cobertura verde de 23 cidades do mundo. Capital paulista ocupa 21ª posição, à frente apenas de Quito e Paris

Giovana Girardi, O Estado de S.Paulo

30 Julho 2017 | 05h00

SÃO PAULO - Pode até ser clichê, mas não é à toa que São Paulo é vista como uma selva de pedras. Considerando a malha da cidade, sem contar os bolsões de mata ao sul e ao norte da capital nem seus parques, o índice médio de cobertura verde no viário urbano é de só 11,7%. 

O dado foi revelado em uma pesquisa do Laboratório Senseable City, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), que já calculou, com o auxílio do Google Street View, a cobertura verde de 23 cidades do mundo. Na lista, São Paulo, o único município brasileiro analisado, fica na terceira pior posição, só à frente de Quito, no Equador, (10,8%) e Paris, na França, (8,8%), a pior colocada.

Os organizadores do projeto, apelidado de Treepedia, explicam que a ideia não é criar um ranking para que as cidades compitam em uma “olimpíada verde”, mas gerar reflexões entre os tomadores de decisão sobre onde é preciso agir para melhorar esses índices. E também servir como uma ferramenta para ajudar a decidir onde essa ação tem de ser priorizada. 

“O objetivo da Treepedia é quantificar e caracterizar como os cidadãos veem e experimentam a paisagem de uma cidade e seu verde. Como as ruas são a unidade primária pela qual as pessoas se movem e experimentam a cidade, nos concentramos nelas. E, considerando os muitos serviços que fornecem, como o resfriamento e a retenção da água das chuvas, as árvores das ruas são fundamentais”, disse ao Estado Carlo Ratti, diretor do laboratório.

O mapeamento não só quantifica a cobertura das cidades, mas também a distribuição de árvores. No caso paulistano, ele revelou nossa desigualdade verde. Enquanto a zona oeste é bem arborizada, a leste padece sem sombras. Em alguns poucos cantos, a cobertura supera a média das cidades que aparecem com melhor desempenho, como Vancouver, no Canadá,(25,9%) e Cingapura, na Ásia, (29,3%). Algumas ruas do Alto de Pinheiros chegam a ter 46%, enquanto vias na Mooca têm menos de 3%.

O efeito mais evidente disso são as ilhas de calor. Andar numa avenida como a Celso Garcia, na foto acima, à direita, é imensamente mais desagradável que no canteiro central da Avenida Sumaré. A diferença pode ser de 4°C a 5°C. 

Árvore é saúde. Pesquisas científicas têm apontado, porém, que os benefícios associados a uma boa arborização vão muito além do conforto térmico. Árvores removem poluentes da atmosfera e umidificam o ar. Estima-se que uma única árvore de grande porte pode transpirar 150 mil litros de água em um ano – 400 litros por dia. Estudos em cidades da Europa e dos Estados Unidos também já apontaram para uma redução da depressão, do risco de morte por doenças cardiorrespiratórias e melhora geral do bem-estar em quem vive em áreas urbanas mais verdes.

Foi esse melhora na qualidade de vida que buscou a família do professor de Geografia João Victor Pavesi de Oliveira, que trocou, há cerca de um mês e meio, um apartamento na Bela Vista com vistas para a Avenida Nove de Julho para uma casa em uma rua arborizada da Vila Itajaí, na zona oeste. Ele e a mulher, Camila Haddad, buscavam um lugar onde pudessem andar sem estresse na rua com o filho Francisco, de 9 meses. “Aqui não tem barulho, o ar é mais puro. O bebê parece estar respirando melhor. Ele nunca tinha visto passarinho, e aqui tem um monte”, conta Oliveira.

Outra mudança sentida foi na temperatura, principalmente no trajeto que ele faz de bicicleta de casa à Universidade de São Paulo (USP). “É visível que estamos em uma ilha de frescura, o oposto da ilha de calor. E com menos poluição.”

Impacto no clima. Num futuro cada vez mais quente por causa das mudanças climáticas, a arborização urbana assume importância fundamental, afirma o biólogo Marcos Buckeridge, da USP, que compõe o grupo do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) que analisa os cenários em torno da meta de conter o aquecimento a 1,5°C definida pelo Acordo de Paris.

Arborização urbana aparece como umas das principais estratégias para amenizar ao máximo um aquecimento médio acima de 1,5°C, que podemos sentir já a partir de 2030. Árvores serão o guarda-chuva verde que vai proteger as pessoas”, diz.

Prefeitura tem meta de plantar 200 mil árvores

O prefeito João Doria (PSDB) já prometeu em mais de uma ocasião que em 2020, ao final da sua gestão, São Paulo terá ganhado 1 milhão de árvores. O plano de metas, porém, define o plantio de 200 mil. O secretário do Verde, Gilberto Natalini, explica que essa meta é de plantio próprio da Prefeitura, mas que estão sendo buscadas parcerias com a iniciativa privada para ampliar a entrega. Segundo ele, só neste ano já foram plantadas 55 mil mudas e pelo menos uma empresa já se prontificou a plantar mais 400 mil árvores.

Natalini disse que foi criado um Comitê Municipal de Arborização, que deve ter sua primeira reunião agora em agosto, com o objetivo de orientar como se dará o plantio e fazer um levantamento das árvores que existem na cidade – quantas são, onde estão e qual seu estado de saúde. A ideia é usar uma metodologia com satélite para isso.

“Nosso lema é plantar a árvore certa, no lugar certo e na hora certa. Não vamos sair plantando na loucura, arrebentando calçada”, diz. Segundo ele, também será atualizado o manual de arborização e de poda da cidade para ser único. “Hoje o Verde, as prefeituras regionais e a Eletropaulo fazem cada um de um jeito e queremos padronizar.”

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Giovana Girardi, O Estado de S.Paulo

30 Julho 2017 | 05h00

SÃO PAULO - Foi depois de ver a única árvore da rua morrer por uma poda drástica e grosseira, um pau-ferro que vivia em frente da sua casa, que o advogado Danilo Bifone, de 41 anos, deu o primeiro passo para o que se tornaria sua missão de vida. 

Morador da Mooca, na zona leste, uma das áreas com menor cobertura vegetal de São Paulo, ele decidiu que precisava ajudar a cidade a ser mais verde para se tornar melhor. Ele então plantou duas árvores no lugar do finado pau-ferro. De lá para cá, estima, devem ter sido mais de 20 mil.

“Era uma coisa meio subversiva. Eu saia à noite, às escondidas, plantando na frente de imóveis que estavam para alugar, achando que estava fazendo uma coisa proibida. Até descobrir que para plantar em calçada não é necessária nenhuma autorização. Seguindo o que manda o manual técnico de arborização urbana da Prefeitura, todo mundo pode”, diz.

Ao perceber isso, nascia o Muda Mooca, um grupo de voluntários que, inicialmente no bairro e depois em vários lugares da cidade, saiu à busca de calçadas pouco arborizadas. 

“A maior dificuldade não é achar muda, quebrar calçada ou destinar o entulho, mas convencer o morador a deixar plantar na frente da casa dele. Tem muita gente que não quer árvore na frente de casa. É uma visão meio higienista de que faz sujeira. Reclamam da folha que cai sem enxergar a poluição da cidade, sem ver os benefícios para a umidade do ar, a melhora na sensação térmica”, afirma.

Ele teve de convencer os próprios vizinhos disso, mas hoje conseguiu transformar a rua de casa, que há 20 anos tinha apenas uma árvore, em um pequeno corredor. E o trabalho está se espalhando. Até mesmo na cracolândia, no início do mês, o grupo aportou com ferramentas e mudinhas de árvores nativas.

Multiplicadores. E também já formou grupos filhotes e multiplicadores, como o Muda Ipiranga, o Muda Itaim e o Muda Itaquera. Um dos mais novos é o Muda Leopoldina, que tem como uma das organizadoras a consultora em gestão de mudança organizacional Tânia Maia. Ela explica que buscou desenvolver um trabalho de educação ambiental com os moradores, principalmente com as crianças, para que possam continuar plantando no futuro em busca de uma visão diferente de cidade, mais sustentável.

Tânia conta que seus primeiros plantios foram quando ainda morava em Salvador, onde gostava de andar com mudas no carro. Com o Muda Mooca, aprendeu a importância da biodiversidade, da polinização. “Por muitos anos eu plantei árvores sozinha. Mas quando vi o efeito que uma ação coletiva dessas tem, mudou minha vida”, afirma.

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'A preocupação de trazer a natureza para o interior das cidades é algo moderno'

Diretor do Senseable City fala sobre o projeto Treepedia, que mapeou a cobertura verde nas ruas de grandes cidades

Entrevista com

Carlo Ratti, diretor do Senseable City

Giovana Girardi, O Estado de S.Paulo

30 Julho 2017 | 05h00

SÃO PAULO - A cidade São Paulo aparece mal no levantamento feito pelo Laboratório Senseable City, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), que calculou, com o auxílio do Google Street View, a cobertura verde de 23 cidades do mundo. Com apenas 11,7%, está na terceira pior posição. Mas não está só. Cidade admiradas por seus parques e pela vida coletiva também não se destacam quando a métrica é a arborização no viário urbano. Londres tem apenas 12,7% de cobertura, Nova York, 13,5%, e Paris, a pior de todas, apenas 8,8%. A melhor cidade, por incrível que pareça, é Cingapura, com 29,3%.

Na entrevista a seguir, o pesquisador italiano Carlo Ratti, diretor do Senseable City, explica os possíveis motivos para isso.

Baseado no que vocês observaram com a Treepedia, seria possível tirar algumas conclusões sobre como as cidades analisadas lidam com as árvores? Além do índice de arborização urbana (GVI na sigla em inglês), o sr. seria capaz de fazer um “diagnóstico” sobre o que descobriu? Por exemplo, se o GVI pode ter alguma relação com PIB, IDH ou algum outro fator?

Ainda estamos ampliando a base de dados, mas definitivamente podemos esboçar algumas considerações iniciais. Por exemplo, muitas pessoas acharam surpreendente que algumas das cidades mais antigas incluídas na pesquisa, como Paris e Londres, estejam na parte inferior do GVI. Mas a preocupação de trazer a natureza para o interior das cidades é algo moderno. Não estava tão presente há alguns séculos, quando as cidades eram menores e a maioria da população vivia e trabalhava no campo. Enquanto isso, muitas cidades mais novas, incluindo algumas norte-americanas, tendem a ocupar uma posição melhor no ranking. Se o planejamento modernista de cidades foi deletério sob diversos pontos de vista, ele provavelmente deixou um legado inesperado: ruas largas e cobertas de árvores, além de bulevares, ao redor do mundo. Posto isso, gostaria de acrescentar que o projeto começou recentemente, e até o momento nós ainda temos uma amostra relativamente pequena de cidades.

Entre os próximos passos do projeto, está a análise histórica de imagens para começar a determinar como a cobertura de árvores de uma cidade mudou com o tempo. Esse tipo de análise vai fornecer mais insights de como as coberturas mudam com o tempo, além de gerar métricas que indiquem se elas estão atingindo as metas de se tornarem mais verdes, se a cobertura de árvores está decaindo ou se expandindo, e se doenças e períodos de seca estão gerando efeitos nas árvores das cidades.

Por fim, estamos também observando como o GVI pode se relacionar com fatores socioeconômicos e de saúde. Por exemplo, nós estamos combinando esses dados com informações sobre mobilidade, para desenvolver novos meios de medir a exposição a espaços verdes nas cidades de forma mais direta. Nós também estamos examinando se a exposição a áreas verdes pode ter efeitos positivos na saúde. É completamente possível analisar métricas socioeconômicas adicionais, e nós estamos tornando esses dados disponíveis, de modo que outros pesquisadores, investidores e cidades possam avançar na exploração das correlações de dados.

Cingapura tem o melhor GVI entre as 23 cidades analisadas. Quais seriam as causas?

Provavelmente isso se deve a dois fatores, com a biogeografia de Cingapura desempenhando um papel primário. Cingapura está localizada em uma região tropical e, portanto, já tem uma predisposição a ser bastante verde. A região é caracterizada por uma vegetação abundante e as plantas crescem bastante e rapidamente lá. Por exemplo, mesmo espaços vazios e abertos que não foram modificados têm uma tendência a possuir uma quantidade de vegetação consideravelmente grande e com super crescimento de modo natural. Posto isso, Cingapura também destinou recursos consideráveis para tornar a cidade mais verde e planejar as áreas públicas com vegetação. Esse esforço provavelmente se reflete na pontuação alta no GVI. O “Jardim da Baía” de Cingapura pode ser uma boa ilustração desse trabalho.

A biogeografia tem um papel significativo em determinar o quão verde uma cidade é, mas também cria um desvio que precisa ser considerado. Vancouver (Canadá), por exemplo, tem a segunda maior cobertura urbana de árvores na nossa base de dados, mas a cidade fica em uma região de floresta temperada. É por esta razão que o Treepedia não tem como objetivo avaliar cidades e fazê-las competir em uma “Olimpíada verde”. Sem uma grande quantidade de recursos como água e energia, não se pode esperar que uma cidade no deserto ou na paisagem árida mediterrânea sustente tanto verde quanto uma localizada em zona tropical.

Uma comparação entre cidades não deve, necessariamente, ser um confronto do valor absoluto do GVI. mas talvez a comparação de cidades que possuam configurações biogeográficas compatíveis ou, ainda, a comparação de como a cobertura de árvores está distribuída pela cidade e como ela está mudando (aumentando ou diminuindo) no decorrer do tempo. Por essas razões, pode não ser válido comparar o índice GVI de São Paulo com o de Cingapura, mas sim com o de uma cidade como Sidney (25,9%), na Austrália.

Por que vocês decidiram focar a análise nas árvores de rua, não considerando parques ou jardins no índice? Algumas das cidades analisadas, como Nova York ou Paris, possuem grandes parques que, provavelmente, passam a impressão de que os dois locais são bastante verdes. Considerando benefícios como resfriamento e melhora na qualidade de vida, ter mais ruas com árvores poderia ser melhor do que possuir apenas parques, mesmo que sejam grandes?

O objetivo do Treepedia é quantificar e caracterizar como os cidadãos veem e vivenciam a paisagem de uma cidade e suas áreas verdes. Levando em conta que as ruas são a unidade primária pelas quais as pessoas se movem e vivem a cidade, nós nos focamos nas ruas de vizinhanças. Se considerarmos ainda os serviços que as árvores urbanas fornecem, como resfriamento, redução das ilhas de calor e retenção das águas de tempestades, as árvores de ruas são vitais.

Com nossas pesquisas, em cada metrópole nós podemos quantificar quanto das ruas de cada cidade têm cobertura de árvores e, mais importante, como é essa distribuição ao longo do município. Há áreas mais verdes enquanto outras não são? A cobertura de árvores é bem distribuída ou possui vários “buracos”? Quais partes da cidade carecem de árvores e, portanto, seriam as candidatas ideais a programas de plantio? Todas essas são questões diretamente relacionadas a como a paisagem de ruas e árvores de uma cidade é definida e gerenciada.

Focar-se apenas em árvores de ruas também tem relação com os dados de imagens que nós usamos. O Treepedia se baseia em imagens do Google Street View e, atualmente, elas são disponíveis e padronizadas apenas ao longo de ruas, apesar de alguns parques estarem sendo incorporados no Google Maps e no Google Earth.

Por fim, nós queremos criar uma ferramenta que possa ajudar cidades e cidadãos a serem mais participativos e informados sobre as áreas verdes em suas regiões. Assim, as pessoas podem desempenhar um papel mais efetivo e integral em ajudar a moldar as coberturas de árvores em suas vizinhanças, enquanto os administradores das cidades podem colocar em prática políticas para aumentar as coberturas verdes em suas jurisdições.

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