Droga contra câncer em teste

Hospital Albert Einstein avalia remédio feito com planta medicinal

Giovana Girardi, O Estado de S. Paulo

06 Agosto 2008 | 22h02

De uma garrafada tipicamente nordestina pode nascer o primeiro medicamento 100% brasileiro para o tratamento de cânceres. O produto foi desenvolvido a partir de uma planta conhecida como avelós e se mostrou eficaz em testes in vitro e com animais. Agora ele começa a ser avaliado clinicamente em pacientes no Hospital Albert Einstein, em São Paulo.   Veja também: Especial completo sobre biodiversidade Biodiversidade, essa desconhecida Estudos focam doenças tropicais Para vasculhar a Amazônia, quanto mais coleta, melhor Peixe venenoso pode render antiasmático para grávidas Múltiplas ações na vegetação paulista O duro caminho até a indústria Remédios que vêm das toxinas Reinventar relações respeitosas Proposta de nova lei segue sem acordo Natureza inspiradora   A árvore, presente no Brasil e em outras partes do mundo, há anos é manipulada em chás e nas tais garrafadas - misturas feitas com plantas consideradas medicinais pelo conhecimento popular e usadas para os mais diversos fins.   O suposto potencial antitumoral do avelós havia despertado a curiosidade de cientistas, mas as várias tentativas de transformá-lo em medicamento se mostravam frustradas, por conta do seu alto teor de toxicidade. Nenhuma ainda tinha conseguido comprovar sua segurança ou eficácia.   Até que entrou em cena o empresário do setor de bebidas Everardo Ferreira Telles, que viu um parente com câncer apresentar melhora após tomar o preparado em Teresina (PI). Oncologistas disseram que era apenas uma coincidência, mas, intrigado com o resultado, Telles resolveu investir em pesquisas com a planta.   O pesquisador Luiz Francisco Pianowski, proprietário de uma empresa de consultoria farmacêutica, foi chamado para fazer o meio de campo entre pesquisadores e indústria. "Quando ele me procurou, confesso que estava um pouco cético, mas depois percebi que os resultados eram realmente promissores", conta o farmacêutico, que coordenou os estudos junto a laboratórios e uma universidade do Brasil e do exterior, além do Einstein.   O trabalho começou há apenas cinco anos, tempo considerado curto para a média de desenvolvimento de novas drogas, que costuma ser de dez anos, mas Pianowski afirma que isso se deveu aos altos investimentos. Sem citar cifras nem mais detalhes sobre a molécula isolada, o pesquisador só conta que ela age inibindo enzimas relacionadas à multiplicação dos tumores e tem potencial antiinflamatório e analgésico.   Ele credita boa parte do avanço dos estudos também ao fato de os pesquisadores terem identificado uma espécie menos comum de avelós (família das Euphorbiaceaes) que apresenta uma concentração menor de substâncias tóxicas. Mas os pesquisadores fizeram ainda uma depuração da toxicidade para deixá-la adequada ao consumo humano.   No trabalho de desenvolvimento da molécula esteve envolvido, entre outros, o laboratório do farmacologista João Calixto, da Universidade Federal de Santa Catarina. Parcerias anteriores entre Calixto e Pianowski renderam, por exemplo, o antiinflamatório de uso tópico feito com a erva-baleeira ou maria-milagrosa (Cordia verbenacea) - um dos mais vendidos hoje no Brasil.   Além de atestar a segurança, as pesquisas farmacológicas serviram ainda para padronizar a planta, aumentando seu potencial, visto que não chegou a ser desenvolvida uma molécula sintética. "A idéia é continuar usando a planta, para não desfigurar a característica fitoterápica", explica Pianowski.   O projeto recém-iniciado no Einstein tenta agora comprovar a eficácia e a qualidade do produto. Segundo o médico Dagoberto Brandão, da empresa PHC Pharma Consulting, que coordena os testes clínicos junto com Augusto Paranhos, gerente de pesquisa clínica do Einstein, a droga está sendo avaliada originalmente para tumores de mama e próstata.   Esta primeira etapa, com 20 voluntários, busca descobrir a dose mais bem tolerada pelos pacientes. "Um possível efeito colateral é a diarréia, então tentamos ver a dose máxima que podemos dar sem que isso se torne um problema", diz Brandão, que participou do desenvolvimento do antiinflamatório à base de erva-baleeira.

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