JF DIORIO/ESTADÃO
JF DIORIO/ESTADÃO

Despoluição de rios é problema mais ‘dramático’ para SP, diz especialista

Com alguns córregos já recuperados na cidade, limpeza do Tietê e do Pinheiros esbarra no baixo volume de água e em problemas estruturais

O Estado de S.Paulo

15 Setembro 2017 | 22h42

A despoluição dos rios na cidade de São Paulo, em curso há mais de 20 anos, deve ser mais difícil do que em outros casos bem-sucedidos no mundo. Isso porque as bacias hidrográficas na região têm baixo volume de água para o tamanho da população atendida, além de fatores como falta de conexão com a rede de esgoto, poluição e impermeabilização do solo, segundo a geógrafa Stela Goldenstein, ex-secretária municipal e estadual de Meio Ambiente, nas gestões Marta Suplicy e Mário Covas, respectivamente. Desde a década de 90, quando projetos de revitalização dos rios tiveram início, poucos córregos da capital já foram despoluídos e voltaram a ter peixes.

Na bacia do rio Pinheiros, cerca de 40% do esgoto produzido ainda acaba nos córregos e rios sem qualquer tipo de tratamento. Isso ocorre por causa de ocupações irregulares sem coleta, casas e condomínios que não fazem conexão com a rede de coleta e até falta de tubulação da Sabesp que leve o resíduo a estações de tratamento, como a de Barueri, segundo Stela. Ex-diretora da organização Águas Claras do Rio Pinheiros, Stela hoje faz parte do 2030 Grupo de Recursos Hídricos (WRG), do instituto International Finance Corporation (IFC), ligado ao Banco Mundial, que tem como meta cumprir os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU para saneamento e acesso a água. Para ela, a falta de água na região metropolitana é causa de problemas relacionados a poluição, além de episódios como a crise hídrica de 2014.

Confira a entrevista com Stela e com o coordenador do projeto Observando os Rios, da SOS Mata Atlântica, Gustavo Veronesi:

Segundo a geógrafa, outra grande fonte de contaminação dos rios é a poluição do ar. Quando chove, essa poluição, junto com restos de óleo de carro, raspas de pneu e até fezes de cachorro, é carregada para os córregos que estão enterrados e para os rios. “Essa situação é mais grave ainda porque impermeabilizamos a cidade toda. Se tivéssemos mais áreas verdes, o solo filtraria a água, e ela chegaria muito mais limpa aos córregos”, diz. 

Para Stela, São Paulo talvez seja um dos casos mais agudos no mundo de densidade de população - são 21 milhões de habitantes na região metropolitana de São Paulo - com pouca quantidade de água nos rios da cidade. Com volume hídrico baixo e grande quantidade de resíduos, o processo de autodepuração dos rios é prejudicado. Um corpo d'água com poluição, mas que ainda tenha um pouco de oxigênio, tem uma capacidade de “auto-limpeza”, conforme o rio segue seu curso. “Mas com pouca água, a qualidade do que você lança (de esgoto) tem de ser muito boa, porque você não tem diluição desse efluente. É muita carga para pouca água”, diz.

Recuperados. Apenas 2,5% dos rios, córregos e bacias hidrográficas das regiões de Mata Atlântica no Brasil têm qualidade boa, segundo levantamento da fundação SOS Mata Atlântica. Segundo Gustavo Veronesi, coordenador do projeto Observando os Rios, da SOS, apenas seis de 240 pontos de coleta estudados tiveram índice bom na qualidade da água. Outros 70% tiveram desempenho regular.

O estudo conta com a ajuda de voluntários que fazem coleta e análise de água em 17 Estados que têm vegetação de Mata Atlântica. Apenas em um ponto do Parque Nacional da Tijuca, uma área de conservação no Rio de Janeiro, houve qualidade ótima verificada entre as amostras.

“Isso é um enorme sinal de alerta, muito preocupante”, avalia Veronesi. “A gente começa a relacionar o quanto é importante a preservação das áreas verdes, o quanto é importante a preservação florestal na qualidade da água.”

Apesar disso, já há exemplos de córregos que foram recuperados em São Paulo nas últimas décadas. Veronesi cita casos como o do córrego da Água Preta, na zona norte, onde é possível ver peixes novamente após décadas de poluição. Na zona sudeste, há também o Pirarungáua, afluente do córrego Ipiranga, que passou décadas sob o concreto mas foi novamente colocado a céu aberto no Jardim Botânico da cidade. “Começamos nosso projeto nos baseando em modelos estrangeiros, e agora já podemos citar casos aqui no Brasil, inclusive em São Paulo”, diz Varonesi.

Na zona oeste, o córrego do Sapé também foi despoluído após uma ação conjunta da prefeitura, da Sabesp e de envolvimento da comunidade na região. “A recuperação dos córregos precisa de um trabalho muito integrado, com a prefeitura fazendo urbanização, a Sabesp fazendo a coleta e o tratamento de esgoto e a população se envolvendo de várias formas”, explica Stela.

“Outros tantos rios passaram por processo de despoluição, mas que não tiveram envolvimento comunitário, e em pouquíssimo tempo voltaram a ser poluídos”, completa Veronesi.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.