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TIAGO QUEIROZ/ESTADÃO

Desmatamento na Amazônia dispara neste ano e chega a quase 8 mil km²

A perda da floresta aumentou 29% no período de agosto do ano passado a julho deste ano, chegando a 7.989 km², contra 6.207 km²

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Giovana Girardi e Leonencio Nossa ,
O Estado de S. Paulo

29 Novembro 2016 | 17h48
Atualizado 29 Novembro 2016 | 19h58

O desmatamento na Amazônia disparou no último ano, chegando a 7.989 km², o equivalente a mais de cinco vezes a área do município de São Paulo. É o mais alto valor desde 2008, ano em que o combate ao problema se tornou mais efetivo e as taxas anuais de perda da floresta tiveram uma intensificação na queda. É a primeira vez desde 2010 que a destruição do bioma supera a marca dos 7 mil km².

Os dados do Prodes, sistema de monitoramento por satélite que fornece o balanço anual do desmatamento na região, foram divulgados nesta terça-feira (29) pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). O valor observado entre agosto de ano passado e julho deste ano (período em que é medido o desmatamento) é 29% maior que o período anterior, que tinha registrado perda de 6.207 km². É o segundo aumento consecutivo. O desmatamento de agosto de 2014 a julho de 2015 já tinha sido 24% maior que o observado entre 2013 e 2014.

Ambientalistas que trabalham na região já vinham alertando e o governo federal também trabalhava há alguns meses com a expectativa de que a perda da floresta iria subir além da média que tinha se estabelecido nos últimos anos, de menos de 6 mil km². Mas o número surpreendeu. Depois de 2008, que registrou a taxa de 12.911 km², o desmatamento teve um queda de 43% no ano seguinte e continuou caindo até chegar, em 2012, ao menor nível desde o início dos registros: 4.571 km². Depois a taxa flutuou um pouco e reassumiu uma tendência de alta em 2014.

O líder de destruição da floresta foi o Estado do Pará, com 3.025 km², seguido de Mato Grosso, com 1.508 km², e Rondônia, com 1.394 km². Na comparação com o ano anterior, porém, merecem destaque o Amazonas, que teve um aumento de 54% no desmatamento (passando de 712 km² para 1099 km²); seguido de Acre, 47% de aumento (de 264 km² para 389 km²) e do próprio Pará (aumento de 41% – a perda em 2015 tinha sido de 2.153 km²).

Causas. Pela manhã, em evento em Brasília para apresentar medidas para impulsionar o combate ao desmatamento, o ministro do Meio Ambiente, Sarney Filho, tinha antecipado o aumento da perda florestal entre os últimos meses de governo Dilma Rousseff e no começo do mandato de Michel Temer, mas sem citar números.

“Isso se deu por várias razões. Mas nós estamos retomando o controle do desmatamento e temos certeza que essa tendência será revertida”, afirmou. “Embora seja uma herança, não vamos pelo caminho fácil de dizer que a responsabilidade é da gestão anterior. Temos de nos ater aos pontos fundamentais e dizer que os Estados também têm responsabilidade.”

O coordenador de políticas públicas do Greenpeace, Márcio Astrini, citou entre as causas do aumento do desmatamento ações tomadas pelo governo federal entre 2012 e 2015, como a anistia de multas por desmatamento ilegal, o abandono de áreas protegidas – unidades de conservação e terras indígenas – e o anúncio, segundo ele “vergonhoso”, do plano de zerar o desmatamento ilegal só em 2030. “A gente vê a floresta sendo morta a prazo”, disse.

Sarney Filho anunciou que vai tornar públicos os dados do Cadastro Ambiental Rural. A transparência era um dado solicitado há meses por ONGs ambientalistas uma vez que o CAR é considerado um instrumento que tem como objetivo conter o desmatamento em áreas privadas.  O ministro disse ainda que dará concessões para exploração da Floresta Nacional do Caxiuanã, nos municípios paraenses de Portel e Melgaço – uma área total de 176 mil hectares – às madeireiras Benevides Madeiras Ltda e Cemal Comércio Ecológico de Madeiras. O Serviço Florestal Brasileiro (SFB), órgão responsável pelas concessões, não especificou quais madeiras serão arrancadas da floresta.

As concessões florestais, instituídas por lei em 2006, tinham objetivo de combater o desmatamento. Mas, especialmente no caso das concessões dadas pelos governos dos Estados, os planos de exploração apenas serviram para legalizar a destruição da floresta. A fiscalização é um gargalo no setor. 

Acordo de Paris. “A gente esperava algo acima de 7 mil km², mas não próximo de 8 mil. Esse número assusta”, comentou Paulo Moutinho, pesquisador do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam). “Esse aumento coloca em risco a imagem do Brasil lá fora de ser capaz de controlar o desmatamento.”

A queda de cerca de 82% do desmatamento observada entre 2004 e 2014 vinha sendo usada pelo Brasil no exterior como um exemplo de sucesso sobre como um país em desenvolvimento consegue conter suas emissões de gases de efeito estufa. Historicamente, o desmatamento, que libera CO2 quando as árvores são queimadas ou cortadas e o solo, revolvido, foi a principal fonte do principal gás responsável pelo aquecimento global.

Nessa toada, o País se comprometeu, junto ao Acordo de Paris – esforço global para contar as mudanças climáticas – a reduzir ainda mais as suas emissões nos próximos anos, tendo como uma estratégia justamente uma maior redução do desmatamento. “Só que esse aumento agora indica que o País terá dificuldade de avançar no cumprimento de seus compromisso internacionais”, opinou Moutinho.

“O crescimento do desmatamento em 2016 deve representar um aumento de 130 milhões de toneladas de gás carbônico equivalente nas emissões brasileiras. Isso equivale a tudo que emitiu em 2015 o Estado de São Paulo. A área desmatada é o dobro da meta que o Brasil fixou para 2020, de reduzir o desmatamento na Amazônia em 80%, para 3.925 quilômetros quadrados. Estamos nos afastando cada vez mais do compromisso”, calculou Tasso Azevedo, coordenador do Sistema de Estimativa de Emissão de Gases de Efeito Estufa (Seeg) do Observatório do Clima.

Na última Conferência do Clima da ONU, que ocorreu em Marrakesh em meados de novembro, Sarney Filho disse que estava preocupado com o desmatamento. "As altas taxas de desmatamento que permanecem exigem que fortaleçamos nossas ações coercitivas, continuando a combater o desmatamento ilegal e, ao mesmo tempo, proporcionando às pessoas que vivem na Amazônia alternativas econômicas viáveis e sustentáveis que promovem o desenvolvimento das áreas florestadas, ao reconhecer o valor econômico dos recursos florestais”, afirmou em discurso à plenária. Mas esses estratégias ainda não foram anunciadas.

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