COP da Biodiversidade enfrenta mesmos problemas da reunião do clima

‘Nós estamos à beira de uma enorme convulsão de extinção’, diz o primatólogo Russel Mittermeier

AP

18 Outubro 2010 | 20h12

Delegados de mais de 190 nações deram início à Conferência das Nações Unidas focada na sobrevivência de diversas espécies e  ecossistemas ameaçados pela poluição, pela exploração e a invasão de habitats.

 

Mas a maratona de negociações da Convenção da ONU sobre a Diversidade Biológica enfrenta os mesmos rachas -- a respeito de quais seriam as medidas a tomar -- que se observam na Convenção sobre o Clima entre as nações ricas e pobres.

 

Os cientistas avisam que a menos que o mundo comece a fazer mais para proteger as espécies, extinções irão se suceder e o mundo natural, marcado por uma intrincada interconexão, sofrerá danos com consequências devastadoras.

   

"Nós estamos à beira de um enorme espasmo de extinção", disse Russel Mittermeier, presidente da ONG Conservação Internacional e biólogo que passou décadas estudando primatas. "Ecossistemas saudáveis são os fundamentos do desenvolvimento humano."

 

Se uma parte da complexa rede de organismos vivos desaparece - como abelhas, que têm o papel de polinização e cujo número vem caindo - todo o sistema pode entrar em colapso, argumentam os cientistas.

   

Esta é a décima edição da Convenção de Diversidade Biológica, que nasceu na Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, a Rio 92. O objetivo da reunião é chegar a um conjunto de 20 metas quantificáveis para a próxima década para tentar retardar ou parar a tendência de perda de biodiversidade no mundo.

 

"A hora de agir é agora e o lugar é aqui", disse o secretário executivo da convenção, Ahmed Djoghlaf.

 

Uma das propostas mais comentadas é a transformação de vastas extensões de terra e oceano em áreas protegidas, embora as nações em desenvolvimento não tenham interesse em reduzir suas estimativas de crescimento econômico para os próximos anos.

 

Outra questão polêmica é a tentativa de criação de uma estrutura legal para dividir equilibradamente o acesso e os benefícios dos recursos genéticos, como plantas com valor medicinal. Um exemplo é a pervinca rosa, uma planta nativa de Madagascar, que entra na composição de dois remédios contra o câncer. As companhias farmacêuticas do ocidente cultivaram as plantas e lucraram com elas, mas pouco dinheiro voltou para Madagascar. Os países em desenvolvimento argumentam que deveriam receber uma parte dos benefícios advindos da comercialização dos medicamentos.

 

A convenção não tem um bom histórico pregersso. Falhou, por exemplo,  na obtenção de metas globais estabelecidas em 2002 para melhorar a proteção da biodiversidade em 2010.

 

Os cientistas estimam que a Terra está perdendo espécies entre cem e mil vezes mais rápido do que a média histórica. Eles avisam que isso está levando a Terra em direção a sua sexta grande fase de extinção, a maior desde que os dinossauros foram banidos do planeta, há 65 milhões de anos.

Mittermeier disse que em seu campo, a primatologia, dos 669 diferentes tipos de primatas, 49% estão ameaçados, em grande parte por conta da destruição sde habitats e pela caça.   

   

   

"Isso é um indicativo de um risco real de extinção", disse ele.  

 

Em uma das 20 metas propostas para 2020, os delegados tentarão entrar em consenso quanto à porcentagem de terra e oceanos que deverão ser transformados em áreas protegidas,que podem ser tanto reservas naturais fechadas quanto áreas manejadas para o uso sustentável dos recursos naturais. 

 

O rascunho do texto final de um acordo cita uma porcentagem de terra entre 15% e 20% do globo, mais do que os atuais 13%. Mas

nenhuma meta específica foi sugerida para os oceanos, dos quais menos de 1% é protegido.    

  

Mas mesmo que os governos concordem com um número global, a implemantação do plano deverá enfrentar muitos obstáculos,  incluindo a resistência das corporações que não querem desistir do acesso aos recursos hoje disponíveis.

 

A Convenção da Biodiversidade foi assinada por 193 nações, mas três não a ratificaram: os EUA, Andorra e o Vaticano.  

   

Enquanto isso, o Japão, país sede da décima edição da Convenção (que acontece a a 270 km de Tóquio, na cidade de Nagoya) vê no evento uma chance de se apresentar como um defensor da biodiversidade, depois de ajudar a enterrar muitas das medidas da Convenção sobre o Comércio Internacional de Espécies Ameaçadas (CITES), entre elas as relativas ao limite do comércio de atum, tubarão e outras espécies marinhas.

 

Tokyo também tem sido duramente criticada por grupos ambientalistas por seu programa de caça às baleias.

 

"É uma chance do governo japonês mostrar que o país pode ter um papel de liderança nas questões marinhas e de biodiversidade", disse Wakao Hanaoka, um membro do Greenpeace.

 

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