Nilton Fukuda/Estadão
Nilton Fukuda/Estadão

'Compromissos precisam ser rápidos e urgentes'

Para pesquisador, países devem se comprometer com patamares muito maiores de reduções de emissões de gases

Entrevista com

Carlos Nobre

Fábio de Castro, O Estado de S. Paulo

15 Dezembro 2014 | 02h02

Na sua avaliação, os países emergentes conseguiram uma vitória com os resultados da COP-20?

A ideia de "responsabilidade comum, mas diferenciada" é um princípio filosófico válido e foi importante mantê-lo. Os países mais pobres foram os que menos contribuíram para o problema das mudanças climáticas e, no esforço mundial para contorná-lo, pagariam um preço muito alto caso não houvesse esse princípio de equidade global e justiça. Eles precisam ter um tratamento muito especial. De certo modo, isso foi representado na concepção do Fundo Verde. Mas a ideia, importante e poderosa, precisa adquirir concretude. Temos de ver quem serão os doadores dispostos a honrar o compromisso.

As expectativas são boas para que esses avanços se tornem concretos?

No primeiro trimestre, cada país vai estabelecer seus compromissos e vamos poder avaliar melhor. O interesse que os países manifestaram em assumir compromissos, em especial com o acordo feito entre a China e os Estados Unidos, indica que vamos em uma direção positiva. Mas, se realmente há um desejo global de impedir que a temperatura média suba muito mais do que 2°C, esses compromissos precisam ser mais rápidos e urgentes, com patamares muito maiores de reduções de emissões.

Qual a expectativa na comunidade científica?

Pouquíssimos cientistas hoje diriam que estamos em uma trajetória sustentável. Mas esse prognóstico é muito mais um exercício de política do que de ciência. É difícil saber o que vai acontecer. Talvez tenhamos o início de um círculo virtuoso, já que a ciência demonstra claramente que é possível ter energia renovável competitiva. Mas é uma suposição otimista. Pode ser também que prossiga a inércia institucional que vemos há 20 anos.

A atenuação do antagonismo norte-sul nas discussões climáticas pode ajudar a evitar, em 2015, outro fracasso como o de Copenhague em 2009?

Na minha avaliação, o problema da COP de Copenhague, na Dinamarca, não foi o antagonismo norte-sul, mas a falta de um acordo entre Estados Unidos e China. Acompanhei toda a preparação da COP em 2009 e os dois países chegaram com pontos de vista completamente antagônicos. Nesse sentido, avançamos muito agora, assim como na questão do Fundo Verde, que permitirá o desenvolvimento sustentável dos países da África, por exemplo, onde a população tende a crescer muito nas próximas décadas. Mas não podemos relaxar.

CARLOS  NOBRE É CLIMATOLOGISTA E PESQUISADOR DO INPE

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