Com muita gente a força é grande

Rápido crescimento econômico pressionou a água e outros recursos hídricos, deixando a China com apenas 0,08 hectares de terra arável per capita

Norman Gall, O Estado de S.Paulo

25 Julho 2012 | 09h04

A população da China dobrou nas quatro décadas entre a fundação da República Popular, em 1949, e a revolta pró-democracia na Praça Tiananmen, em 1989. A duplicação anterior da população chinesa não levou 40 anos, mas sim 2 séculos, de 1750 a 1950. Mais recentemente, a população cresceu outro terço nas últimas duas décadas, chegando a 1,34 bilhões em 2010. O rápido crescimento econômico pressionou a água e outros recursos hídricos, deixando a China com apenas 0,08 hectares de terra arável per capita, uma das médias homem-terra mais baixas do mundo, com terras frágeis comprometidas por intensa erosão do solo e urbanização.

Mao Tsé-tung, uma das figuras políticas mais importantes do século 20, emergiu ousado, sangrento e resoluto de décadas de guerra civil e revolução, quando seu exército comunista marchou sobre Pequim em 1949. Instalou-se nos mesmos pavilhões residenciais e jardins dos imperadores, em Zhognahai.

Mestre das guerras de guerrilha, com uma estratégia baseada na mobilização de camponeses como "vanguarda de revolução", Mao desenvolveu um marxismo inovador, fundido com o anarquismo e o populismo presentes na criação do Partido Comunista nos anos 1920. Em seu celebrado Inquérito sobre o Movimento Camponês em Hunan (1927), Mao previu que "centenas de milhões de camponeses surgirão como um tornado, uma força tão extraordinariamente ágil e violenta que nenhum poder, não importa quão grande, será capaz de suprimi-la".

Nenhuma dessas posturas ideológicas pode explicar a indiferença de Mao à morte e ao sofrimento de milhões durante suas campanhas políticas. A população da China ainda peleja para contornar as consequências do Grande Salto para Frente (1958-61) e da Revolução Cultural (1966-76) sob a atual pressão popular e a degradação dos recursos de água e terra.

O chefe do Partido Comunista Soviético Nikita Khrushchev relembrou como, em 1957, Mao explicou-lhe a geopolítica do crescimento populacional da China: "Não devemos ter medo de mísseis atômicos. Não importa o tipo de guerra que estourar lá fora – convencional ou termonuclear –, nós iremos vencer. Quanto à China, se os imperialistas declararem a guerra a nós, poderemos perder mais de 300 milhões de pessoas. E daí? Guerra é guerra. Os anos vão passar e vamos trabalhar produzindo mais bebês do que nunca."

Havia muitos slogans e exortações: "com muitas pessoas, a força é grande"; "o homem deve conquistar a natureza"; "quando um grande líder emergir, o Rio Amarelo vai correr limpo".

Em seu estudo Mao’s War against Nature, a antropóloga Judith Shapiro argumenta que "o Grande Salto levou a China a uma corrida autodestrutiva rumo ao colapso do ecossistema e da fome". "Abra os campos selvagens para plantar grãos", Mao ordenou. "Faça a alta montanha curvar sua cabeça, faça o rio ceder o caminho." "Prepare-se para guerra. Prepare-se para a fome, pela causa do povo."

Ambição. Lagos foram drenados. Pastagens frágeis se tornaram desertos depois de arados para semear trigo. Dados oficiais registraram 100 milhões de camponeses criando sistemas de irrigação para 7,8 milhões de hectares, depois aumentados para 32 milhões de hectares.

Na província de Henan, cerca de 110 barragens foram construídas durante o Grande Salto para Frente, mas, feitas de terra e projetadas por camponeses sem orientação técnica, metade delas entrou em colapso por volta de 1966. Entre 1957 e 1977, a China perdeu 29 milhões de hectares de terras agrícolas, apesar da recuperação de 17 milhões de hectares de solo improdutivo.

Florestas foram destruídas para o plantio de grãos nas montanhas e para alimentar fornos de quintal, em que camponeses derretiam ferramentas domésticas para fundir aço para que a China pudesse ultrapassar a Grã-Bretanha, como Mao previu: "Com 11 milhões de toneladas de aço no próximo ano e mais 17 milhões no ano seguinte, o mundo será abalado. Se pudermos chegar a 40 milhões de toneladas em cinco anos, poderemos eventualmente alcançar a Grã-Bretanha em sete anos. Adicione mais oito anos e vamos alcançar os EUA."

No outono de 1958, os fornos de quintal produziram 10,7 milhões de toneladas de aço inútil, provocou o caos no campo e a pior fome induzida pelo homem na experiência civilizatória. Oficialmente, a população da China perdeu 13,5 milhões de pessoas entre 1959 e 1961, e a taxa de mortalidade dobrou entre 1959 e 1960. Pesquisas demográficas depois estimaram a perda de entre 30 e 40 milhões de vidas.

Apesar da fome, a exportação de grãos quase dobrou em 1959, principalmente para pagar as dívidas com a União Soviética, mesmo com a produção despencando para um quarto em 1958-60, enquanto a mão de obra agrícola era desviada para a construção de barragens e produção de aço de fundo de quintal.

Pessoas famintas comeram cascas de árvores, sementes, raízes, roedores e às vezes recorriam ao canibalismo. "Não sobraram pássaros e as próprias árvores tinham sido despojadas de suas folhas e cascas", disse um sobrevivente. "À noite, não havia nem mesmo o ruído de ratos e camundongos, pois eles também tinham sido comidos ou morreram de fome".

Em junho de 1959 Mao visitou sua aldeia natal, Shaoshan, na província de Hunan, como lembrado aqui por seu médico particular: "Os homens estavam fora, trabalhando em fornos caseiros de aço ou projetos de conservação de água. Mao não teve de investigar muito para aprender que a vida era difícil para as famílias em Shaoshan. Com a construção de fornos caseiros, potes e panelas tinham sido confiscados e jogados na fornalha para fazer aço – e nada tinha sido devolvido. Todos estavam comendo em refeitórios públicos. As famílias não tinham equipamentos de cozinha. Todos reclamavam dos refeitórios. Os mais velhos não gostavam porque os jovens sempre furavam a fila. Os jovens não gostam porque nunca havia comida suficiente. Muitas brigas aconteciam, e grande parte dos alimentos era desperdiçada quando acabava no chão.

Quando as questões de Mao cessaram, a sala se calou. O Grande Salto para Frente não estava indo bem em Shaoshan. "Se vocês não conseguem encher seus estômagos no refeitório público, então é melhor acabar com isso", disse Mao. "É um desperdício de comida. Quanto ao projeto de conservação de água, não acho que toda comunidade rural precise construir um reservatório. Se os reservatórios não forem bem construídos, haverá grandes problemas. E se vocês não conseguem produzir aço bom, podem parar."

Os comentários de Mao nunca foram divulgados, mas se espalharam rapidamente, boca a boca. Logo, muitas comunidades desmantelavam seus projetos. Mao ficou brevemente marginalizado até 1966, enquanto os líderes mais cautelosos do partido buscavam uma "retificação" para corrigir os erros do Grande Salto.

As Guardas Vermelhas. Depois, Mao lançou outra mobilização de massas, a Grande Revolução Cultural Proletária (1966-76). Estudantes atacaram seus professores assim como intelectuais "capitalistas" e "burgueses" e líderes do Partido "revisionistas", gerando caos institucional e enviando milhões para trabalhos forçados no interior.

Jovens em uniformes da Guarda Vermelha se aglomeraram na Praça da Paz Celestial para reverenciar o Grande Timoeiro, balançando seus pequenos livros vermelhos com os pensamentos de Mao antes de uma parada com oficiais veteranos do partido forçados a usar chapéus estúpidos, em procissões ao longo das ruas de grandes cidades na traseira de trios elétricos.

Entre agosto e setembro de 1966, 1.722 pessoas foram assassinadas em Pequim por Guardas Vermelhos, após tortura e espancamento. O filho mais velho de Deng Xioaping, estudante de Física na Universidade de Pequim, ficou paraplégico após ter sido jogado do quarto andar de um prédio no câmpus. Liu Shaoqi, presidente da China e líder trabalhista veterano, sofreu vários espancamentos públicos nas mãos de Guardas Vermelhos enquanto era denunciado como "renegado, traidor e sarna do partido". Depois, foi destituído de todos os postos e deixado para morrer preso, sem tratamento para diabete e pneumonia.

Controle da natalidade. Apenas após a morte de Mao, em 1976, as novas lideranças puderam discutir as consequências da histeria em massa e planejar o futuro. Um dos primeiros passos foi conter o crescimento populacional com uma política radical: limitando os nascimentos para um filho por casal, o que gerou consequências próprias.

"O trem-bala demográfico da China está correndo para o desconhecido", observou Wang Feng, diretor do Centro de Políticas Públicas Brookings-Tsinghua de Pequim. "Mudanças demográficas profundas na China estão redesenhando os parâmetros do futuro do país. Essas mudanças incluem um declínio substancial no suprimento de mão de obra jovem, o crescente dever de cuidar dos idosos e uma sociedade envelhecida com características chinesas – basicamente um enfraquecido sistema de suporte familiar, causado em grande parte pelas três décadas da política do filho único".

A transição demográfica da China começou antes da implantação da política do filho único. Desde 1970, a taxa de fertilidade total (o número de partos na vida das mulheres) decaiu em três quartos, de 5,8 para 1,4, descendo para níveis muito mais baixos em cidades como Xangai, onde a média registrada é de 0,6 nascimento por mulher. A fertilidade na China está muito abaixo da taxa de reposição necessária para estabilizar o número de pessoas (2,1) e é, grosso modo, igual a de países como Rússia, Japão, Alemanha e Itália – todos com população minguante.

Expectativa de vida. A China precisou de um quarto do tempo levado pelo Ocidente para atingir níveis baixos de fertilidade. Simultaneamente, é a primeira grande economia que deve envelhecer antes de enriquecer. A China aumentou sua expectativa de vida de 40 para 70 anos em 50 anos, um processo que demorou o dobro do tempo em outros países industrializados. O poder e a velocidade dessas mudanças apresentam grandes problemas.

A população economicamente ativa diminui enquanto a população idosa se multiplica rapidamente, abolindo o dividendo demográfico aproveitado pela China nas últimas três décadas: a bênção de uma mão de obra jovem e poucos dependentes, uma mistura que gerou um crescimento econômico per capita de até 25%. Espera-se que o número de pessoas na faixa etária de 20-24 anos caia de 116 milhões em 2010 para 67 milhões em 2030, enquanto o número daqueles acima dos 60 deve dobrar, de 180 milhões para 360 milhões. As necessidades dos idosos reduzirão a poupança muito abaixo dos níveis atuais de aproximadamente 50% do PIB, enquanto demandam grandes investimentos em assistência médica e outros serviços.

Porém, a demógrafa Judith Bannister diz que "a China tem uma miríade de opções para administrar o aumento de idade em sua estrutura", apontando que a população entre 15 e 64 anos cresceu de 620 milhões em 1982 para 999 milhões em 2010, um sétimo da população mundial, e vai declinar apenas marginalmente para 960 milhões em 2030, de acordo com as projeções das Organização das Nações Unidas.

"Grandes ganhos de produtividade podem ser feitos ao empregar sua enorme força de trabalho atual de maneira mais eficaz do que se fez no passado", ela argumenta. "Milhões de camponeses gastam boa parte do ano com atividades de baixa produtividade, matando tempo entre a próxima estação de plantação ou colheita. Milhões de habitantes de cidades estão empregados em trabalhos improdutivos, especialmente no setor estatal. Muitos burocratas de baixo nível parecem passar o dia bebericando chá, lendo o jornal e tirando preguiçosas sonecas à tarde em seus escritórios."

Os ganhos necessários em produtividade dependerão de grandes mudanças institucionais sem o tipo de erupção política que desorganizou a economia da China no passado. Assim a China poderá encontrar maneiras de tratar as perdas de seus recursos hídricos e de terra.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.