TIAGO QUEIROZ/ESTADÃO
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Cientistas propõem 'revolução industrial' para salvar Amazônia

Grupo diz que para evitar savanização em grande escala é preciso transformar bioma em polo de inovação tecnológica, usando conhecimento tradicional

Fábio de Castro, O Estado de S.Paulo

19 Setembro 2016 | 20h55

Um novo estudo realizado por um grupo de cientistas e empreendedores aponta os riscos catastróficos de um processo já em andamento que pode transformar até 60% da Amazônia em uma savana. Ao mesmo tempo, propõe um plano para mudar os paradigmas de desenvolvimento sustentável, transformando o bioma em um polo de inovação tecnológica em grande escala.

De acordo com os autores do estudo, publicado na revista científica Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS), o novo paradigma consistiria em empregar as avançadas tecnologias digitais e biológicas da chamada "Quarta Revolução Industrial" - como inteligência artificial, robótica, internet das coisas, genômica, edição genética, nanotecnologias, impressão 3D -, associando-as ao conhecimento tradicional da região, a fim de criar produtos e serviços inovadores de alto valor agregado para mercados atuais e mercados novos a serem criados.

O estudo foi liderado por Carlos Afonso Nobre, membro da Academia Brasileira de Ciências, da Academia Mundial de Ciências (TWAS) e membro estrangeiro da Academia Nacional de Ciências dos EUA, e pelo empreendedor peruano Juan Carlos Castilla-Rubio, engenheiro bioquímico da Universidade de Cambridge que preside a Space Time Ventures, empresa especializada em inovações da Quarta Revolução Industrial. 

O grupo de autores inclui ainda os pesquisadores Gilvan Sampaio, Laura Borma e Manoel Cardoso, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e Jose Silva, da Universidade Federal de Brasília (UnB).

Segundo os autores, o processo de integração da Amazônia, nos últimos 50 anos, teve base no uso intensivo de recursos naturais renováveis e não renováveis, provocando consideráveis alterações ambientais no bioma. 

O estudo mostra que essa situação poderá levar a um alto risco de uma mudança irreversível na floresta: se a temperatura aumentar 4°C ou se o desmatamento passar de 40% da área florestal, o bioma terá atingido o "ponto de não-retorno", resultando em uma "savanização" de larga escala.

Para evitar esse destino trágico, os cientistas propõem que o desenvolvimento sustentável na Amazônia não fique limitado apenas à tentativa de conciliar o máximo de conservação da natureza, a intensificação da agricultura tradicional e a expansão da capacidade hidrelétrica. Segundo eles, associando a Quarta Revolução industrial a um constante intercâmbio com as culturas tradicionais, é viável desenvolver produtos baseados na biodiversidade com alto valor agregado, capazes de atingir mercados globais com um diferencial único.

Um dos exemplos é o alcaloide spilanthol, encontrado nas folhas, galhos e flores do jambu. Essa planta, comum na Amazônia e com vasta aplicação na culinária local, é conhecida por deixar a língua levemente dormente. O produto já foi descrito em patentes para anestésicos, antissépticos, antirrugas, creme dental, usos ginecológicos e anti-inflamatórios.

Outra vertente desse novo paradigma seriam as chamadas "inovações biomiméticas", ou seja, uma imitação tecnológica dos sistemas biológicos complexos da floresta, mesmo em escala nanomolecular.

"Sabemos como os organismos percebem o ambiente por meio de sofisticados sensores, como se movem a partir da biomecânica e da cinética. A floresta reproduz sistemas biológicos complexos e soluções biomiméticas em escala nanomolecular. Ela nos ensina processos ambientais amigáveis, indicando tecnologias antipoluição, de produção de energia e elaboração de bioestruturas têxteis inspiradas em animais e plantas", disse Castilla-Rubio.

 

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