China, Estados Unidos e o aquecimento de nosso planeta

Secretário de Estado americano diz que redução da emissão de gases do efeito estufa é problema que exige solução conjunta

John Kerry , THE NEW YORK TIMES

12 Novembro 2014 | 21h47

PEQUIM - Os Estados Unidos e a China são as duas maiores economias mundiais, os dois maiores consumidores de energia e os dois maiores emissores de gases responsáveis pelo efeito estufa. Juntos, eles são responsáveis por cerca de 40% das emissões mundiais.

Precisamos resolver este problema juntos porque nenhum de nós pode resolvê-lo sozinho. Mesmo que os Estados Unidos eliminassem todas as emissões domésticas de gases do efeito estufa, isso ainda não seria suficiente para compensar a poluição de carbono que vem da China e do restante do mundo. Da mesma maneira, mesmo que a China zerasse suas emissões, isso não faria diferença suficiente se os Estados Unidos e o restante do mundo não mudassem de direção.

Essa é a realidade do que estamos enfrentando. É por isso que foi importante que o relacionamento mais consequente do mundo tenha acabado de produzir algo de grande consequência no combate à mudança climática.

Nesta quarta-feira, o presidente americano Barack Obama e o presidente chinês Xi Jinping anunciaram conjuntamente metas para reduzir as emissões de carbono no período pós-2020. Com isso - juntos, e bem antes do prazo estabelecido pela comunidade internacional -, estamos encorajando outros países a apresentarem logo suas metas ambiciosas de redução das emissões e superarem divisões tradicionais para podermos firmar um sólido acordo sobre o clima global em 2015.

Nosso anúncio pode injetar ímpeto nas negociações sobre o clima global, que retomam em Lima e culminam no próximo ano em Paris. O compromisso dos dois presidentes de empreender ações ambiciosas em nossos próprios países e trabalhar em estreita colaboração para remover obstáculos da estrada para Paris envia um importante sinal de que precisamos que este acordo seja alcançado, que podemos consegui-lo e que o conseguiremos.

Isso é um marco na relação Estados Unidos-China, o resultado de um esforço concertado que começou no ano passado em Pequim, quando o conselheiro de Estado, Yang Jiechi, e eu começamos o Grupo de Trabalho para a Mudança Climática Estados Unidos-China. Foi um esforço inspirado não só por nossa preocupação comum sobre o impacto da mudança climática, mas por nossa crença de que as maiores economias, consumidores de energia e emissores de carbono do mundo têm a responsabilidade de liderar.

As metas em si são importantes. Uma ação ambiciosa conjunta de nossos países é o alicerce para construirmos a economia global com baixa emissão de carbono necessária para enfrentar a mudança climática. Os Estados Unidos pretendem reduzir as emissões líquidas de gases do efeito estufa de 26% a 28% abaixo dos níveis de 2005 até 2025 - uma meta que é tanto ambiciosa como factível. Isso aproximadamente dobra o ritmo das reduções de carbono no período de 2020 a 2025 em comparação com o período de 2005 a 2020. Isso nos coloca num caminho para transformar nossa economia, com reduções de emissões da ordem de 80% até 2050. 

Isso está assentado em uma extensa análise do potencial de redução das emissões em todos os setores da economia, com benefícios adicionais significativos para saúde, ar limpo e segurança energética. 

Ambição. Nossa meta se apoia no objetivo ambicioso do presidente Obama, estabelecido em 2009, de reduzir emissões na faixa de 17% abaixo dos níveis de 2005 até 2020. Estamos no caminho de cumprir essa meta e ao mesmo tempo criamos empregos e promovemos o crescimento da economia com a ajuda de um florescente setor de energia limpa. Desde que o presidente assumiu o cargo, a produção de energia eólica triplicou e a de energia solar aumentou dez vezes. Neste verão, a Agência de Proteção Ambiental propôs as primeiras normas sobre poluição de carbono para usinas de eletricidade existentes, que respondem por um terço da poluição de carbono dos Estados Unidos.

As metas chinesas representam um importante avanço. Pela primeira vez, a China está anunciado um ano de pico para suas emissões de carbono - em torno de 2030 - e um compromisso de tentar alcançar esse pico mais cedo. Isso é importante porque, nos últimos 15 anos, a China foi responsável por aproximadamente 60% do crescimento das emissões mundiais de dióxido de carbono. Estamos confiantes de que a China pode atingir e atingirá o pico das emissões antes de 2030, à luz dos compromissos do presidente Xi para reestruturar a economia, reduzir dramaticamente a poluição do ar e estimular uma revolução energética.

A China também anunciou que ampliaria a parte do consumo total de energia que provém de fontes com emissão zero (energia renovável e nuclear) para cerca de 20% até 2030, enviando um poderoso sinal a investidores e mercados de energia em todo o mundo e ajudando a acelerar a transição global para economias com energia limpa. Para atingir seu objetivo, a China precisará mobilizar 800 a 1 mil gigawatts adicionais de capacidade nuclear, eólica, solar e outras energias renováveis até 2030 - uma quantidade enorme, aproximadamente a mesma que todas as usinas de eletricidade movidas a carvão hoje existentes na China e quase o mesmo tanto que a capacidade total de geração de energia dos Estados Unidos.

Está fora de questão que todos nós teremos de fazer mais para promover a descarbonização da economia mundial. Mas na diplomacia climática, como na vida, é preciso começar pelo começo, e este avanço marca um novo começo. Dois países considerados por 20 anos como os líderes de campos opostos nas negociações climáticas se uniram para encontrar um terreno comum, determinados a fazer um progresso duradouro em um desafio global sem precedente. Precisamos assegurar que este seja o primeiro passo para um mundo mais próspero e mais seguro. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

John Kerry é Secretário de Estado dos Estados Unidos

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.