Max Whittaker / The New York Times
Max Whittaker / The New York Times

Carros elétricos podem diminuir ilhas de calor, diz estudo

Cientistas chineses mostram que veículos elétricos emitem 20% menos calor e podem reduzir temperatura urbana em até 1ºC

FÁBIO DE CASTRO, O Estado de S. paulo

19 Março 2015 | 18h20

A substituição de carros convencionais por veículos elétricos tem potencial para reduzir a temperatura das cidades e ajudar a amenizar o aquecimento global, de acordo com um novo estudo realizado na China e publicado nesta quinta-feira, 19, na revista Nature. 

A pesquisa revela que a substituição por carros elétricos - que emitem menos calor - pode diminuir a intensidade do fenômeno de ilhas de calor urbanas. Com as grandes cidades menos quentes, os habitantes reduziriam o uso de ar condicionado, o que levaria a níveis mais baixos de emissões de dióxido de carbono, contribuindo para a redução da temperatura global. 

Os autores, no entanto, fazem uma ressalva: os cálculos foram realizados a partir das condições ambientais e econômicas encontradas na China, onde a maior parte da energia elétrica é produzida por usinas termelétricas. Os resultados poderiam ser diferentes em países com outras matrizes energéticas, como o Brasil.

Até agora, os pesquisadores não estavam convencidos de que a substituição da frota de carros por veículos carros elétricos seria uma boa alternativa para reverter o aquecimento urbano. Embora a alternativa seja capaz de diminuir as emissões locais de calor e de gases de efeito estufa, o carro elétrico tem um processo de fabricação que produz mais poluição que o do carro convencional - o que comprometeria os benefícios climáticos. Mas a nova pesquisa revela "benefícios ocultos" dos veículos elétricos, fazendo com que eles voltem, teoricamente, a ser uma alternativa viável. Segundo os autores, a descoberta poderá estimular uma aceleração na substituição da frota por carros elétricos.

De acordo com o estudo, o carro e o ar condicionado são os dois principais fatores que contribuem para aumentar a intensidade das ilhas de calor - fenômeno que faz com que as temperaturas nas cidades sejam mais altas que em áreas rurais. Os veículos elétricos, segundo os cientistas, emitem cerca de 20% menos calor que os veículos a gasolina. Usando dados de emissões coletados em Pequim, no verão de 2012, os pesquisadores calcularam que a substituição pelo carro elétrico poderia reduzir a intensidade das ilhas de calor em cerca de 1 grau Celsius. Os cálculos indicaram que, com um grau a menos na cidade, Pequim teria economizado, em 2012, cerca de 14,4 milhões de quilowatts por hora, o que teria cortado as emissões de dióxido de carbono em 11,8 toneladas por dia.

"Não é fácil enxergar o cenário geral em questões que envolvem o carro elétrico e o aquecimento global. Mas nós fizemos uma abordagem holística e encontramos algumas conexões inesperadas. As ondas de calor matam e, em termos de mudanças climáticas, reduzir um grau já pode fazer diferença", disse um dos autores, Jianguo Liu, diretor do Centro de Sistemas de Integração e Sustentabilidade, nos Estados Unidos. O estudo foi coordenado por Canbing Li, da Universidade Hunan, em Changsha, na China. "Fiquei surpreso com o nível de redução do consumo de energia com o ar condicionado", disse Li.

Os pesquisadores, no entanto, afirmam que há vários fatores que contribuem para a formação de ilhas de calor urbanas, que não foram tratados no estudo. Além da mudança nos fluxos de calor envolvida na troca de carros a gasolina por carros elétricos, pesquisas futuras poderão considerar variáveis como o balanço de umidade, o efeito do vento e as interações entre os prédios e a atmosfera. Enquanto isso, os carros elétricos vão sendo aperfeiçoados: os cientistas acreditam que dentro de algumas décadas, quando forem superados desafios técnicos como a autonomia e infraestrutura de carregamento de baterias, eles dominarão o mercado de transporte. "Ao contrário dos carros convencionais, que dependem de combustíveis não-renováveis, os carros elétricos têm desvantagens que podem ser superadas pela ciência", disse Li.

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