Burocracia faz com que cientistas se afastem do IPCC

Painel do Clima da ONU apresenta queda no número de pesquisadores voluntários

Afra Balazina, O Estado de S. Paulo

06 Dezembro 2010 | 11h09

CANCÚN - Os cientistas presentes na Conferência do Clima da ONU em Cancún (COP-16) não estão apenas preocupados com a falta de avanços na negociação para um acordo global climático. Eles estão apreensivos também com a desistência de vários pesquisadores de contribuir voluntariamente para o próximo relatório do Painel do Clima da ONU (IPCC).

 

Depois de terem sido encontrados erros nos documentos elaborados pelo IPCC, neste ano, o órgão foi alvo de uma auditoria e, agora, seguirá as sugestões da análise realizada para evitar novos problemas. O IPCC não faz pesquisas próprias, mas compila as existentes sobre o tema de mudanças climáticas.

 

De acordo com Suzana Kahn, pesquisadora da Coppe/UFRJ e ex-secretária nacional de Mudanças Climáticas, “a revisão e auditoria que fizeram foram muito decepcionantes”. “No fundo, o cientista está virando quase um burocrata, com milhões de planilhas para preencher para ver se aquela referência bate com aquela outra. É enlouquecedor”, diz ela, que é vice-presidente do grupo do IPCC que trata de mitigação (ou redução das emissões de gases-estufa).

 

Suzana participou de três relatórios do IPCC e relata que esta é a primeira vez que várias pessoas convidadas não têm aceitado participar. “Antigamente, era uma briga dos cientistas para fazer parte. Agora, são vários convites que foram enviados e as pessoas não querem. Porque é totalmente voluntário, é muito trabalho e você ainda fica com cara de suspeito”, explica.

 

O climatologista holandês Bert Metz diz que há um risco de os cientistas mais experientes, principalmente, abrirem mão de colaborar com o IPCC. “Eles são os primeiros a dizer ‘não, obrigado’. Já têm tantas outras coisas a fazer. E isso seria ruim porque o ideal é que o IPCC reúna os melhores pesquisadores da área”, afirma. “Não podemos perder os mais experientes, isso seria muito ruim para a qualidade e autoridade do IPCC”, afirma.

 

Negociações. Enquanto isso, na COP-16, os países continuam trabalhando para tentar chegar a um consenso. Ontem foi apresentado um texto que pode servir de base para as negociações dos ministros nesta última semana do encontro.

 

Países como o Brasil criticaram a proposta por ela não incluir menção a um segundo período de compromisso do Protocolo de Kyoto – o primeiro se encerra em 2012 e ainda não há acordo para continuá-lo ou outro tratado para colocar em seu lugar. Há pressão de países como Japão e Austrália para não haver continuação de Kyoto – pois os Estados Unidos e a China, os maiores emissores de gases-estufa hoje, atualmente não fazem parte dele.

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