Carlos Orsi/AE
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Buraco da camada de ozônio protege a Antártida, diz relatório

Redução da 'capa' protetora da Terra ajuda a aumentar ventos, impedindo aquecimento no continente

Carlos Orsi, enviado especial à Antártida,

01 Dezembro 2009 | 19h48

Relatório editado por um grupo internacional de cientistas sobre o estado do meio ambiente no continente antártico conclui que, nos últimos 30 anos, o buraco da camada de ozônio tem ajudado a proteger a Antártida dos piores efeitos do aquecimento global.

 

Isso ocorreria porque a redução da camada protetora da atmosfera na primavera do hemisfério sul aumenta a velocidade do vórtice polar, um anel de ventos que circunda a Terra na altura do paralelo 60, a mesma faixa onde começa, oficialmente, a zona antártica. Essa barreira de vento estaria isolando a Antártida pelas últimas três décadas, preservando-a dos efeitos mais danosos do aquecimento global.

 

Tanto o buraco da camada de ozônio quanto o aquecimento são atribuídos por cientistas à atividade humana.

 

A perda de ozônio é provocada pela ação dos CFCs, gases que eram muito usados em sprays e aparelhos de refrigeração até que seu efeito danoso na atmosfera foi detectado: ao destruir o ozônio, os CFCs permitem que raios ultravioleta perigosos para os seres vivos atinjam a superfície terrestre. Essas substâncias foram banidas pelo Protocolo de Montreal, assinado há mais de 20 anos. Já o aquecimento global é atribuído ao aumento da concentração de dióxido de carbono na atmosfera, que se vem intensificando desde o início da era industrial. Esses gases são emitidos principalmente pela queima de combustíveis fósseis.

 

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A possibilidade de o buraco do ozônio estar bloqueando parte dos efeitos do CO2 sobre o clima antártico, defendida pelo relatório do Comitê Científico para Pesquisa Antártica (Scar, na sigla em inglês), baseado na Inglaterra, ainda não é consenso entre os cientistas, no entanto.

 

O físico Luciano Marani, encarregado da estação do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) na Antártida que mede, exatamente, o buraco na camada de ozônio, prefere atribuir o resfriamento atípico registrado neste ano na região do continente onde se localiza a base brasileira, a Estação Comandante Ferraz, a uma queda na intensidade da atividade solar, que vem sendo registrada nos últimos três anos.

 

Na Antártida e no sul da América do Sul, o buraco na camada de ozônio é levado muito a sério como risco à saúde humana: em Comandante Ferraz, a orientação para todos é que só se exponham ao ar livre com protetor solar - inclusive em partes do corpo que podem ser atingidas por radiação refletida pela neve, como atrás das orelhas. Em Punta Arenas, a cidade mais meridional do Chile, alertas sobre o índice diário de radiação ultravioleta são publicados com destaque nos jornais. Esses raios podem causar queimaduras graves e problemas de pele, inclusive câncer.

 

O trabalho do Scar não defende o buraco do ozônio como a salvação do ecossistema antártico, no entanto. O relatório destaca os efeitos danosos da radiação ultravioleta sobre os seres vivos, e reconhece que o aquecimento global pode estar sendo atenuado, mas não revertido, no continente gelado.

O trabalho diz que as águas na corrente marítima que circunda a Antártida estão se aquecendo mais rapidamente que as do oceano em geral, ameaçando a sobrevivência de espécies no longo prazo; que as temperaturas na Península Antártica - onde fica Comandante Ferraz - aumentaram em até 1° C por década entre 1950 e 2006, ante um aumento global médio de 0,8° C no último século

 

 

 

 

 

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