Brasil pode ter zona morta permanente

Em 20 anos, áreas costeiras como a Baía da Guanabara estarão sob risco por falta de oxigênio na água

Bruno Versolato, especial para O Estado de S.Paulo

04 Junho 2009 | 18h17

A região da Baía de Guanabara próxima à Baixada Fluminense, no Rio, deve estar morta em cerca de 20 anos. Nenhum organismo que dependa de oxigênio conseguirá sobreviver. A projeção é do professor do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo (USP) Alexandre Turra.

 

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Baía da Guanabara, no Rio, é uma das regiões no Brasil que estariam comprometidas

 

Isso acontecerá porque as águas costeiras recebem uma quantidade cada vez maior de dejetos industriais e residenciais e agentes contaminantes, como metais pesados, fertilizantes e agrotóxicos. Elas podem ser povoadas por micróbios que não precisam de oxigênio para sobreviver - e que a mantêm tóxica. "Essas bactérias produzem substâncias como o ácido sulfídrico. A água fica com cheiro de ovo podre e torna-se uma zona morta permanente", explica Turra.

 

Zonas mortas podem ser temporárias ou permanentes. São áreas onde a quantidade de oxigênio disponível é menor do que 0,2 mililitro para cada litro de água, uma situação conhecida como hipóxia. Ela ocorre quando há multiplicação de bactérias aeróbicas além do normal, que consomem todo o oxigênio da água. A fauna e a flora marinhas morrem ou migram para onde há mais oxigênio. Com o tempo, a hipóxia mata as bactérias aeróbicas e a água volta a apresentar níveis normais de oxigênio. Porém, esse processo pode ser interrompido pelos micróbios anaeróbicos.

 

Segundo o professor, o mesmo processo ocorrerá em trechos da Baixada Santista e na região portuária de Salvador, Recife e Vitória. "Quanto ao prazo não tenho a menor dúvida. Resta saber quais dessas serão as áreas mais atingidas." Ele arrisca uma: a região próxima à Cia. Siderurgia Paulista (Cosipa), em Cubatão (SP).

 

O mundo tem cerca de 400 zonas costeiras mortas, que cobrem uma área de mais de 245 mil km², o equivalente ao Estado de São Paulo. Todas estão ligadas à exploração humana, como o Delta do Mississippi, no Golfo do México. Havia uma atividade pesqueira intensa na área até meados da década de 1970; hoje ela está morta. "A tendência é acontecer o mesmo com áreas muito grandes no Brasil. Aqui quase não se investe em saneamento básico", diz.

 

Desconhecimento

 

Cena de Cubatão, no litoral paulista, uma das cidades mais poluídas do Brasil

 

Para Luiz Eduardo Maia Nery, pró-reitor de Pesquisa e Pós-Graduação da Universidade Federal do Rio Grande (Furg), um dos problemas é a falta de dados para identificar as regiões que serão afetadas primeiro. "Zonas como Baía de Guanabara e Baixada Santista são as que têm mais dados disponíveis sobre carga de esgoto, fauna e flora. Mas há lugares onde não fazemos ideia do tamanho do problema. Porto de Vitória (ES) é um caso", diz Nery.

 

"Precisamos de dados para criar modelos matemáticos que expliquem qual será a evolução de uma área exposta a determinados tipos de agente contaminante em longo prazo", conclui Haroldo Mattos de Lemos, presidente do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) no Brasil.

 

O coordenador de pós-graduação em Oceanografia Física da Furg, Maurício Mata, destaca a falta de produção acadêmica para a área. "A oceanografia física é classificada pela Capes (órgão ligado ao Ministério da Educação que regula a pós-graduação no Brasil) como geociências, mas há uma diferença de produção de conhecimento entre geologia e oceanografia física, por exemplo", diz. "Para ir até a mata, não se precisa muito além de botas. O sujeito pode até ir de ônibus. No mar não tem jeito. Precisa de navio e equipamento", completa Turra. O País conta apenas com dois navios de pesquisa marinha - um deles, o Professor W. Besnard, da USP, está parado por problemas mecânicos.

 

A falta de pesquisa na área leva a um outro problema: pesquisadores não sabem com exatidão se há espécies que só existem no fundo da Baía de Guanabara, por exemplo, e que vão desaparecer na zona morta.

 

O cenário na pesca oceânica não é mais animador. O País tem basicamente uma área de piscosidade, no litoral norte do Rio, e as reservas estão sendo exploradas além do limite. "Pesca é extração. Não adianta aumentar e melhorar a frota que não haverá mais pescado", diz Nery. "Há uma tentativa de regulamentação da frota pesqueira e de utilizar de uma espécie de radar para evitar a pesca predatória", diz Turra.

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