Arquivo/AE
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Biocombustíveis são cortados de relatório do IPCC antes de discussão

Trecho que incomodava delegação brasileira nem chegou a ser debatido; para líder do grupo, visão estava enviesada

Giovana Girardi - Enviada especial a Yokohama, no Japão,

30 Março 2014 | 21h00

A sentença que mais incomodava o Brasil no "Sumário para Formuladores de Políticas" da segunda parte do novo relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) acabou sendo retirada de discussão antes mesmo de as discussões nesta semana começarem.

 O trecho que dizia, com "alto grau de confiança", que "aumentar o cultivo de plantações para bioenergia coloca riscos para ecossistemas e a biodiversidade, apesar de a contribuição da energia de biomassa para a mitigação reduzir os risos relacionados ao clima" estava na versão preliminar do sumário que foi enviado para os países. E a delegação brasileira já tinha indicado que se manifestaria pela sua retirada.

 De acordo com um negociador presente à reunião, os próprios autores e co-chairs, ao revisarem o texto antes do início dos trabalhos, já cortaram o trecho. O material projetado em telão para a avaliação dos delegados mostrava que ele fora cortado. Desse modo, ele nem entrou em discussão.

 Sem ter precisado entrar em embate sobre a questão, o Brasil acabou se dando por satisfeito. "O Brasil sempre vai defender os biocombustívei pois, além de mitigar emissões, geram emprego e desenvolvimento. E com o zoneamento agroecológico (que define por onde a cana pode se expandir, por exemplo), contribuem para o desenvolvimento sustenável", disse José Domingos Gonzalez Miguez, do Ministério do Meio Ambiente, que liderou a delegação brasileira.

Para ele, o sumário trazia uma visão enviesada: "Só ressaltava o lado negativo, e não o positivo". Ele diz acreditar que o trecho foi retirado pelos autores por não estar "no local adequado". O relatório lançado ontem fala de impactos, vulnerabilidades e adaptação. Biocombustíveis se encaixariam mais no tema do terceiro relatório, sobre mitigação, que será lançado daqui duas semanas, em Berlim. Foi desse modo que ele foi tratado no relatório anterior do IPCC, de 2007.

Medidas de mitigação são aquelas que reduzem as emissões de gases de efeito estufa e os tiram da atmosfera. Como não é um combustível fóssil, o etanol e o biodiesel tem potencial de ajudar nesse sentido.

Ainda no documento. Mas apesar de o parágrafo ter sido retirado do sumário, a mensagem pode ainda permanecer no corpo do relatório científico. O sumário é a única parte não técnica do documento. Ele destaca os principais pontos com um tom mais político, para orientar decisões e também negociações internacionais.

No capítulo que fala de Riscos Emergentes e Vulnerabilidades-Chave, no rascunho final os autores escrevem que "reduções de gases de efeito estufa a partir da produção de biocombustível e seu uso (comparado com o de combustíveis fósseis) podem ser compensadas parcialmente ou inteiramente por décadas ou séculos por emissões de CO2 induzidas de desmatamento". 

Eles citam um caso brasileiro: "No Brasil, é esperado que a expansão dos biocombustíveis incida sobre o Cerrado, a Amazônia e a Mata Atlântica - todos os três têm altos níveis de biodiversidade e de endemismo".

Esse dado vem de um estudo de 2010 feito pelo ecólogo David Lapola, da Unesp, que disse achar que seu trabalho não foi muito bem compreendido pelo IPCC.

Ele trabalhou com modelagens explorando um cenário extremo de expansão da cana para produção de etanol e de soja para biocombustíveis. A cana no Sudeste e a soja no Mato Grosso. 

"Para a cana consideramos que até 2020 ela se expandiria sobre áreas de pastagem, que é o que vem acontecendo. E imaginamos que aquele demanda de pecuária seria realocada para outra outras áreas, de Cerrado e Amazônia", explica. 

Até aí a menção do IPCC faz sentido, "mas para a Mata Atlântica não", diz. "A cana não está ameaçando o bioma, que, pelo contrário, está começando a se recuperar. Os produtores têm feito projetos de reflorestamento."

No caso do deslocamento para o Norte e Centro-Oeste, Lapola explica que considerou duas possibilidades: uma em que todo o gado fosse colocado lá num sistema de pecuária extensiva, com menos de um animal por hectare, pressionado por mais pastagem; e outra em que esse gado seria todo realocado em pastagens já existentes, com intensificação, não resultando em desmatamento indireto.

"Acho que a verdade ficou entre esses dois extremos. De lá para cá de fato a produção de cana vem aumentando, mas o desmatamento está caindo", diz.

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