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Arara ganha bico de titânio feito em impressora 3D

Animal encontrado em Praia Grande (SP) com deformidade no bico só conseguiu se alimentar após a cirurgia de implantação da prótese

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Fábio de Castro,
O Estado de S. Paulo

02 Março 2016 | 14h47

A arara Gigi, encontrada em Praia Grande (SP) com uma grave deformidade no bico, foi a primeira ave do mundo a ganhar uma prótese de titânio feita em uma impressora 3D.  Um grupo que inclui designer, dentista e veterinários usou uma tecnologia de escaneamento fotográfico, modelagem e impressão em 3D para desenvolver a prótese. 

O designer Cícero Moraes, de Sinop (MT) desenhou o novo bico metálico da arara a partir de fotos produzidas pelo dentista Paulo Miamoto, de Santos (SP), para que o tamanho, o formato e o encaixe fossem perfeitos. O molde 3D foi enviado para o Centro de Tecnologia da Informação Renato Archer (CTI), em Campinas (SP), onde o bico foi impresso em titânio. A cirurgia para a implantação da prótese foi liderada pelo veterinário Roberto Fecchio, no dia 18 de fevereiro.

Segundo Moraes, o bico metálico foi colado com um adesivo ósseo e fixado com parafusos ortopédicos no local do bico original. "A Gigi já está em recuperação, alimentando-se sem nenhuma dificuldade e usando o bico de titânio para escalar", disse Moraes ao Estado.

Moraes, que ficou conhecido mundialmente por sua técnica de reconstituição em 3D, a partir de fotos de crânios, de rostos de hominídeos extintos e santos exumados,  já havia feito pelo menos seis próteses para diferentes animais mutilados - mas o bico de Gigi é o primeiro impresso em metal. 

"A Polícia Ambiental de Praia Grande encontrou o animal que tinha o bico deformado. Não se sabe o que aconteceu com ela, mas o bico crescia como uma unha, impossibilitando a alimentação. O tratador que se encarregou da ave disse que ela morreria em pouco tempo. Eu estava em Santos, por coincidência, e fui chamado", conta Moraes.

Moraes acionou Miamoto, com quem já havia feito próteses para outros animais. O dentista moldou um negativo do bico deformado e o encheu de gesso, para produzir um molde. Miamoto então produziu cerca de 70 fotografias do molde. 

"Com as foltos do molde, pude usar um algoritmo computacional para produzir o modelo em 3D, com a ajuda de uma tomografia de uma arara da mesma espécie, com um bico saudável, que tínhamos em nosso banco de dados", disse. 

Assim, a reconstrução em 3D ficou com as dimensões de um bico saudável do lado externo e com um encaixe preciso para o bico deformado, do lado interno. "Em tese, a prótese se encaixaria com perfeição no bico quebrado", afirmou.

Interesse científico. Segundo Moraes, o chefe do departamento de impressão do CTI, Jorge Vicente Lopes, colocou à disposição a impressora de metal em 3D. "O pessoal do CTI sempre aceita parcerias quando há interesse científico", disse Moraes. 

Lopes e Marcelo Oliveira, também do CTI, avaliaram que era preciso fazer uma prótese muito fina, de menos de um milímetro, caso contrário a arara não conseguiria manter a cabeça erguida, segundo Moraes. 

Depois de impressa, a prótese foi instalada cirurgicamente pelos veterinários Roberto Fecchio, Sergio Camargo, Rodrigo Rabello e Matheus Rabello. "Discuti muito com o doutor Roberto e o doutor Rodrigo, que estavam cuidadando do animal, porque não sabíamos se a prótese quebraria na hora de parafusá-la. Então já desenhamos o bico com os buracos nos lugares previstos para os parafusos. Ficou perfeito", afirmou.

Todo o processo, desde o escaneamento fotográfico do bico da ave, até a confecção da peça de metal, foi utilizando programas de computador "livres" (gratuitos).

A totatlidade do trabalho de escaneamento fotográfico do bico da ave, design e confecção da peça de metal foi feita em softwares livres, segundo Moraes. "Nós lançamos um e-book gratuito de 425 páginas que ensina todas as técnicas usadas, como fotogrametria, modelagem 3D e confecção de prótese. Tudo o que fazemos é compartilhado", declarou.

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