Aquecimento global ameaça cerejeiras

Mudanças climáticas afetam ciclo de vida de um dos principais símbolos do Japão, alerta a WWF; floresta no norte do país também corre risco

Giovana Girardi, Enviada especial

26 Março 2014 | 20h42

YOKOHAMA (JAPÃO) - Dizem que quando uma cerejeira está morrendo no Japão ocorre toda uma comoção da comunidade local para tentar salvá-la. Cerejeiras são um assunto sério por aqui. Tanto que existem até guardiões das árvores, que zelam pela sua segurança, espalhados pelo país. No futuro próximo, porém, talvez eles não consigam mais protegê-las.

É o medo de Toemon Sano, de 86 anos, que gerencia um negócio de jardinagem próximo de Kyoto e herdou do pai a tradição de cuidar das cerejeiras frondosas, famosas, que mais atraem visitantes na cidade. Com a experiência de fazer isso quase toda a sua vida, ele conta que nos últimos anos as flores de cerejeira estão diferentes.

"O número de flores e as cores delas diferem a cada ano. E isso se deve em boa parte ao clima que antecede o verão. É no inverno que os brotos que vão virar flores na primavera começam a se formar. Mas ultimamente não temos tido invernos frios e as flores estão mudando", conta.

Sano é o que se pode chamar de testemunha da mudança climática. Ele está vendo na prática o que a ciência calcula estar acontecendo. De acordo com a Agência Meteorológica do Japão, a temporada de desabrochar das flores de cerejeira se adiantou numa média de 4,2 dias ao longo dos últimos 52 anos. Nas grandes cidades, onde ocorre o fenômeno de ilhas de calor, a florada ficou ainda mais precoce: 6,1 dias na média nos últimos 50 anos.

Para o futuro, o Ministério do Meio Ambiente japonês fez um cálculo que estima que no período de 2082 a 2100, principalmente no leste e norte do Japão, a florada pode ocorrer em média 14,5 dias antes do que costumava ser entre 1981 e 2000.

O testemunho de Sano foi compartilhado nesta quarta-feira, 26, pela ONG ambiental WWF em Yokohama, no Japão, onde cientistas e representantes do governo debatem a versão final do "Sumário para Formuladores de Políticas" da segunda parte do relatório do IPCC (o painel do clima da ONU), que trata de impactos, vulnerabilidades e adaptação. Coincidiu com a florada das cerejeiras da cidade, que abriram nesta quarta. Antes isso costumava ocorrer só em abril.

Isso já trouxe ao menos uma mudança cultural no Japão. A florada costumava coincidir com o início do ano letivo no país, em abril, e os novos alunos eram recebidos com flores de cerejeira. Agora são os formandos em março que recebem a flor.

A vulnerabilidade da árvore está associada também a uma ação humana. Apesar de existirem mais de 300 tipos de cerejeiras, a mais comum pelo Japão é a chamada "Somei Yoshino", uma variedade selecionada pelo homem e cultivada no esquema de clonagem, em que um ramo de uma árvore é retirado e plantado em outro lugar. "Elas acabam não tendo troncos reais", conta Sano, o que as torna mais sensíveis a condições climáticas mais rigorosas. "Se o clima continuar a mudar, as Somei Yoshino plantadas em todo o país vão enfrentar uma crise."

Floresta sagrada. Outro ícone ambiental do Japão que está em risco são as Montanhas Shirakami (ou deus branco), no norte do país. Considerada Patrimônio da Humanidade pela Unesco, é berço da floresta de faias e do urso-preto e cenário de uma história em quadrinhos muito popular no Japão, A Princesa Mononoke.

Ex-caçador de ursos e hoje guia turístico do parque, Mitsuharu Kudo conta que "alguma coisa incomum está acontecendo na floresta - a neve está diminuindo e há infestação de insetos que comem as castanhas da faia todo ano." Assim como Sano, Kudo foi convidado pelo WWF para compartilhar sua história. Eles compõem um grupo de mais de 130 pessoas que relatam as mudanças climáticas que estão ocorrendo agora.

Um outro estudo do Ministério do Meio Ambiente japonês calcula que no pior cenário do IPCC de mudanças climáticas, 80% da floresta de faias pode desaparecer até o fim do século.

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