Após COP, Europa quer retomar influência na questão climática

União Europeia tenta recuperar seu papel importante na luta mundial contra aquecimento global

Paul Taylor, da Reuters

13 Janeiro 2010 | 17h32

Surpresa por ter sido marginalizada no final da cúpula do clima em Copenhague, em dezembro de 2009, a União Europeia começa a debater formas de recuperar a sua influência sobre a luta contra o aquecimento global. 

 

O maior bloco econômico e comercial do mundo tem várias opções para responder ao fracasso do acordo firmado em Copenhague: de forma simpática, desagradável, persistente ou pragmática. As duas primeiras opções - fixando um exemplo mais ambiciosos para os outros países, ou ameaçando os 'retardatários do clima' com as tarifas de carbono - são gestos tentadores, e cada um tem os seus apoiadores. 

 

Mas, quando a poeira baixar, os 27 países da União Europeia estão propensos a manter a sua estratégia de redução de emissões de gases de efeito estufa enquanto podem se tornar mais pragmáticos sobre como trabalhar fora do quadro das Nações Unidas para alcançar o progresso, dizem especialistas. 

 

A União Europeia foi às negociações da ONU em Copenhague, no mês passado, com o objetivo de firmar um acordo vinculativo para reduzir as emissões de gases de estufa responsabilizados pelo aquecimento do planeta, com metas precisas de redução sujeitas a controle e execução internacional. 

 

Apesar dos sinais de que seus objetivos não eram realistas, os europeus esperavam convencer o resto do mundo a adotar o seu próprio modelo de administração supranacional. "Temos que ser honestos. Nós não cumprimos os nossos objetivos", disse o presidente da Comissão Européia, José Manuel Durão Barroso, em uma conferência em Bruxelas na terça-feira. 

 

No final, os 190 países da conferência simplesmente não tomaram conhecimento do acordo vinculativo sobre princípios gerais, sem compromissos com números, celebrado por Estados Unidos, China, Brasil, África do Sul e Índia, na ausência da União Europeia. 

 

Kyoto condenado

O bloco de ministros do Meio Ambiente dos países irá realizar um 'exame póstumo' de Copenhague, quando será realizada uma reunião informal na cidade espanhola de Sevilha, neste sábado. Autoridades reconhecem, em particular, que o sistema de impor restrições obrigatórias de emissões criado pelo Protocolo de Kyoto, de 1997, está condenado, porque a China não aceitará nenhuma restrição sobre o seu futuro crescimento econômico, e os Estados Unidos não vão aderir a qualquer acordo que não seja vinculativo também para Pequim. 

 

Os governos dos países da União Europeia concordaram, em 2008, em reduzir suas emissões de carbono de forma unilateral em 20% até 2020, com base nos níveis de 1990, e produzir 20% de sua energia proveniente de fontes renováveis. Eles também se comprometeram a fazer cortes mais profundos de 30% se outras grandes economias se empenharem em medidas equivalentes. 

 

O grupo composto, em grande parte, por ativistas do clima, mas também pelos conselheiros do governo britânico e holandês, argumenta que a União Europeia deve fazer valer a liderança concordando, unilateralmente, em um corte de 30% das suas emissões. Mas isso talvez não aconteça. Tal movimento exige o acordo unânime dos Estados-membros da União Europeia, alguns dos quais já entraram em atrito pelo corte de 20%. 

 

Funcionários da União Europeia dizem que qualquer reabertura das negociações sobre mudanças climáticas no bloco conduziria, mais provavelmente, a um enfraquecimento das metas já existentes sob a pressão das indústrias na recessão. 

 

Os 'desagradáveis', liderados pela França e pela indústria siderúrgica, argumenta que a União Europeia tem sido ingênua em sua diplomacia sobre o clima e ganharia mais força se decidisse cobrar uma taxa de carbono sobre as importações de países que aplicam normas de menor corte de emissões. 

 

Isso também talvez não aconteça. O czar da Comissão Europeia sobre o comércio, Karel de Gucht, advertiu esta semana que isso poderia provocar uma guerra comercial global. "É uma abordagem que vai incorrer em muitos problemas práticos. O grande risco é que haverá derrapagens em uma guerra comercial com os povos ultrapassando uns aos outros sobre essas medidas", disse Gucht, em uma audiência do Parlamento Europeu. 

 

A China poderá retaliar o acordo impondo suas próprias taxas de carbono, calculada em emissões per capita, que são muito mais elevadas em países industrializados do que em sua economia emergente. 

 

Na prática

Por enquanto, a União Europeia opta por ações como melhorar seus métodos de negociação, cumprir suas próprias metas de redução e trabalhar mais ativamente com a China, com outras potências emergentes e com os Estados Unidos"Aconteça o que acontecer no processo global, iremos entregar os nossos compromissos", disse Durão Barroso. "Seria um erro completo, por causa da decepção em Copenhague, abandonar todas as nossas metas agora." 

 

A perda de produção econômica desde a crise de 2008 vai tornar mais fácil para a União Europeia atingir os seus objetivos de 20% de redução e 20% de energia renovável até 2020. 

 

Além disso, os representantes da União Europeia querem usar todos os caminhos para trabalhar com Brasil, África do Sul, Índia e China - o chamado grupo BASIC - sobre a mitigação das alterações climáticas. Os países estão interessados em aproveitar a experiência europeia no desenvolvimento de uma economia de baixo carbono, na administração de quotas de emissões e no comércio de carbono. 

 

Membros do bloco europeu dizem que a União Europeia procurará utilizar instâncias informais, como o Fórum das Grandes Economias e o G20, para fazer progressos na luta contra as mudanças climáticas porque a conferência da ONU pode ser facilmente bloqueada por poucos Estados obstrucionistas. 

 

"As autoridades da UE estão bastante chateadas com o processo da ONU e muito frustradas", diz Jason Anderson, chefe europeu da política climática e energética do WWF. "O truque é encontrar uma maneira de evitar os bloqueios. Se você pudesse simplesmente conseguir que os principais emissores concordassem com as coisas, isso eliminaria alguns problemas importantes do processo."

 

Os europeus não estão dispostos a aceitar uma possível lição de Copenhague: que talvez a sua influência esteja diminuindo no mundo. 

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