Marco Bertorello/AFP
Marco Bertorello/AFP

Apelidada de 'Lúcifer', onda de calor na Europa leva 11 países a declarar emergência

Duas pessoas morreram no continente e impacto econômico já é sentido na agricultura; em Roma, termômetros marcaram 43ºC

Jamil Chade, Correspondente de O Estado de S. Paulo na Suíça

04 Agosto 2017 | 13h50

GENEBRA - O casal suíço Pierre e Clara Schmidt, de 72 e 69 anos, decidiu que, neste fim de semana, irá para seu chalé nas montanhas dos Alpes. Algo que eles costumam fazer apenas no inverno. Mas, desta vez, a decisão foi a de subir a estrada para fugir de uma onda de calor sem precedentes em mais de uma década.

Com a pior onda de calor em 14 anos, 11 governos europeus anunciaram um plano de emergência e apelam aos cidadãos para que adotem medidas extras de proteção. Para os cientistas, o fenômeno, apelidado de "Lúcifer", deve se repetir nos próximos anos com maior regularidade, afetando até estruturas de cidades, o abastecimento de água e a produção agrícola. 

Por enquanto, a recomendação para a população é de permanecer em locais cobertos durante os horários mais perigosos, evitar o sol, reduzir planos de caminhadas longas e hidratar com frequência. Duas pessoas já morreram, na Polônia e na Romênia. Mas o temor dos serviços de saúde é de que ocorra o mesmo que em 2003, quando a Europa descobriu que a onda de calor tinha matado mais de 20 mil pessoas.

Agora, as autoridades chegam a sugerir que vizinhos liguem para aqueles moradores que são mais idosos em seus prédios, para garantir que a mesma tragédia não se repita. 

A emergência já foi declarada na Itália, Suíça, Hungria, Croácia, Romênia, Sérvia, Bósnia, Espanha e França. 

Itália

Algumas das mais altas temperaturas foram registradas na Itália, com 43ºC em Roma e 44ºC na Sardenha, com a possibilidade de chegar a 46ºC neste fim de semana.

Em Roma, as autoridades indicaram que as internações aumentaram em 15% nesta semana. O calor ainda está levando a Itália a viver sua pior seca em 60 anos, enquanto prefeitos desligaram suas tradicionais fontes. Em locais turísticos, aparelhos de ar-condicionado não tem dado resultado e certos museus tiveram de fechar suas portas por algumas horas. 

O impacto econômico também já é uma realidade. Agricultores abandonaram suas férias para começar já a colher as uvas, o que deveria ocorrer apenas em dez dias. A previsão já aponta para uma queda de 50% na produção de azeitona e azeite, enquanto a produção de leite já encolheu 30%. No total, onze regiões italianas sofrem com a seca. 

Outros países

O mesmo impacto já é também sentido no meio rural da Bósnia, que prevê queda de produção de 10% neste ano. Já a safra de milho será 35% inferior à média normal na Sérvia. 

Na França, o Vale do Ródano chegou a registrar 41ºC, enquanto cidades como Praga, Varsóvia e Munique registraram temperaturas acima de 35ºC. 

Em Split, na Croácia, o termômetro chegou a marcar 42,3ºC, enquanto a costa sul da Espanha prevê 43ºC para domingo, contra 42ºC para Ibiza. 

Ondas de calor

A expectativa é de que a onda de calor dure até meados da próxima semana e já é o segundo pico neste verão. Em julho, as altas temperaturas ainda favoreceram incêndios e mesmo cortes de energia em algumas regiões. Nesta sexta-feira, 4, a Europa contava um total de 75 focos de incêndio pelos países.

De acordo com os serviços de meteorologia, certas regiões estão com temperaturas de 10ºC a 15ºC acima da média da temporada. Por enquanto, a pior onda de calor continua sendo a de 2003, e o recorde de temperatura foi atingido em Atenas em 1977, com 48ºC. 

Mas o que especialistas alertam é que a Europa terá de se acostumar e se adaptar à nova realidade, já que a previsão aponta para uma frequência cada vez maior de ondas de calor por conta do impacto das mudanças climáticas. 

"Nos últimos 150 anos, vimos um número relativamente limitado de eventos extremos", disse Omar Baddour, da Organização Meteorológica Mundial (OMM). "Mas nos últimos 30 anos, estamos registrando mais e mais casos", alertou.

Até o final do século, a previsão aponta que tais ondas de calor no sul da Europa podem transformar a paisagem e a forma de turismo. Para alguns vilarejos nos Alpes suíços, a oportunidade também é a de se apresentar como novos destinos, mas para aqueles que queiram fugir do calor.  

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