Animal sagrado da Índia é ícone do agronegócio

Quark é uma espécie de Brad Pitt da pecuária brasileira: um metro e oitenta de altura, mais de uma tonelada de peso, musculatura bem definida, costelas largas, traseiro avantajado, testículos bem desenvolvidos - tudo que uma vaca ou um pecuarista poderiam querer para os seus bezerros. Ele é o touro número um do ranking de reprodutores nelores da Associação Brasileira dos Criadores de Zebu (ABCZ) e da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). Uma obra viva de tecnologia em carne e osso, resultado de mais de meio século de melhoramento genético do rebanho nacional.

Herton Escobar, enviado especial,

26 Setembro 2009 | 16h50

 

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Aos 13 anos, já em idade avançada para um bovino, Quark é um dos produtos de maior sucesso da pesquisa agropecuária brasileira, com mais de 200 mil doses de sêmen vendidas para produtores de todo o País. Dentro de cada amostra, milhões de espermatozoides carregam um relato genético do desenvolvimento da pecuária de corte no Brasil. Escrito nas letras químicas de seu DNA nelore, esse relato é disseminado ao longo da cadeia produtiva, um boi após o outro, até chegar aos açougues, supermercados, churrasqueiras e contêineres refrigerados de exportação de carne.

 

Assim como a maior parte do gado brasileiro, Quark é descendente de imigrantes indianos. Cerca de 80% do rebanho nacional é composto de raças zebuínas (do tipo Bos indicus), de origem indiana, que só foram introduzidas no Brasil em maior escala a partir do século passado. Foi a salvação da pecuária nacional, que até aquele momento dispunha apenas de raças taurinas (do tipo Bos taurus), de origem européia, trazidas pelos colonizadores na época do Descobrimento.

 

Quark, rei da pecuária nacional, número 1 da Associação Brasileira dos Criadores de Zebu. AE

 

Acostumados ao clima temperado do Hemisfério Norte, os taurinos (simental, angus, hereford e outras raças) não suportavam o ambiente tropical brasileiro. Os animais literalmente caíam mortos no campo, vítimas do calor e dos carrapatos. Sobreviveram apenas algumas linhagens mais rústicas, como a que deu origem ao gado pantaneiro, porém sem importância econômica. Até hoje as raças europeias são produzidas apenas no Sul do País, onde o clima é mais ameno e a incidência de carrapatos é menor, por causa das geadas.

 

Já os zebuínos (nelore, gir e guzerá) trazidos da Índia tropical se adaptaram perfeitamente às condições brasileiras. Naturalmente resistentes ao calor e ao ataque dos carrapatos, eles proliferaram em velocidade espantosa. De um plantel de apenas 7.300 animais importados entre o início do século 19 e meados do século 20 (a última importação foi em 1962), nasceram os 136 milhões de zebuínos do rebanho atual, que produzem a maior parte da carne e do leite brasileiros. "A multiplicação do zebu no Brasil é algo sem precedente no mundo", afirma Luiz Antonio Josahkian, superintendente técnico da ABCZ, entidade que representa o setor desde 1967.

 

O animal sagrado da fé indiana virou o animal sagrado do agronegócio brasileiro. Hoje o Brasil tem o maior rebanho bovino comercial do mundo, com 170 milhões de cabeças (quase um boi por habitante) e uma produção anual de carne que passa dos 9 milhões de toneladas. É também o maior exportador de carne bovina do mundo, com 2,2 milhões de toneladas vendidas para o exterior em 2007 - um salto gigantesco em comparação a dez anos atrás, quando o País exportava 370 mil toneladas, segundo dados do Instituto FNP. A taxa de abate é de 40 milhões de cabeças por ano, aproximadamente.

 

As estatísticas disparam entre as décadas de 70 e 80, em sincronia com o avanço das técnicas de reprodução assistida, como inseminação artificial, fertilização in vitro, repartição e transferência de embriões, que permitiram escalonar e acelerar significativamente o melhoramento genético do rebanho. Entre 1979 e 2006, segundo cálculos da Embrapa, a produção de carne brasileira cresceu uma média de 5,7% ao ano.

 

PASTAGENS MELHORADAS

 

Outra inovação crucial neste período foi o melhoramento de pastagens. Assim como os bois, as gramíneas que servem de alimento para os animais tiveram de ser trazidas de fora. Mais de metade das pastagens brasileiras são cultivadas com espécies importadas, principalmente do gênero Brachiaria, de origem africana, bem mais resistentes e produtivas do que as gramíneas nativas. Introduzidas nos anos 60 e melhoradas geneticamente a partir da década de 80, as braquiárias triplicaram a capacidade de suporte das pastagens nacionais - de 0,5 animal por hectare para 1,5 animal por hectare. Entre 1996 e 2006, o tamanho do rebanho brasileiro aumentou 11%, apesar da área de pastagens ter diminuído 3%, segundo dados do Instituto FNP.

 

"A pastagem é o prato de comida do boi", diz o pesquisador Alexandre Caetano, da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia (Cenargen), em Brasília. "Não adianta ter uma ótima genética animal se não tiver uma alimentação adequada que permita ao animal expressar essa genética." Plantar e manter um bom pasto, segundo os especialistas, requer tanto cuidado quanto uma lavoura. O nível tecnológico é tão alto que o comércio de forrageiras hoje é o terceiro maior mercado de sementes do Brasil, atrás apenas da soja e do milho.

 

Na ponta da faca, o churrasco brasileiro é uma receita de gado indiano alimentado com capim africano e temperado com tecnologia brasileira. "Juntas, a genética zebuína e as braquiárias formaram um combinação imbatível", comemora Josahkian.

 

MELHORAMENTO GENÉTICO 'NO OLHO'

 

O processo de melhoramento genético é igual para plantas e animais. A cada ano, no caso do gado, os melhoristas selecionam os melhores animais de um determinado rebanho e os utilizam como "reprodutores genéticos" para compor os rebanhos dos anos seguintes, de forma que as características desejadas sejam transmitidas via DNA para as próximas gerações. Com o tempo, os genes desses animais se disseminam pela população, melhorando a qualidade do rebanho como um todo.

 

Ao contrário do que ocorreu em culturas agrícolas, porém, em que as instituições públicas de pesquisa comandaram a inovação tecnológica do setor, o melhoramento do rebanho brasileiro foi feito principalmente pelos próprios criadores. "Nossa pecuária foi toda feita no olho", diz o especialista em melhoramento genético da ABCZ, Carlos Henrique Machado. "O Brasil é o que é hoje graças ao olho dos nossos profissionais."

 

Uma nova importação de zebuínos da Índia - a primeira desde 1962 - foi autorizada em fevereiro pelo Ministério da Agricultura. Só que dessa vez os animais virão na forma de embriões congelados, produzidos de animais selecionados por técnicos da ABCZ. Apesar de serem animais rústicos, é algo que "vai ajudar a refrescar um pouco o sangue do rebanho", explica Machado.

 

O gado que chega hoje do campo para o açougue é muito diferente do que chegou da Índia para o Brasil um século atrás. Ficou maior, mais pesado, mais resistente, mais eficiente, mais fértil e mais precoce. Animais que na década de 70 eram mortos com cinco anos hoje já chegam ao peso de abate (18 arrobas) com dois anos e meio, graças a uma série de melhorias genéticas, nutricionais e sanitárias. "É um ganho não só de tempo, mas de qualidade, pois o animal mais jovem tende a ter uma carne mais macia", diz o especialista Kepler Euclides Filho, pesquisador da Embrapa Gado de Corte, em Campo Grande (MS).

 

Em condições ideais, animais nelores superprecoces são abatidos com 18 meses. "Basicamente, queremos um animal que cresça rápido, coma pouco e produza bastante carne", resume Caetano, do Cenargen-Embrapa.

 

Quark é exemplo de um "animal elite" que combina várias dessas características. As estatísticas mostram que os bezerros produzidos com seu sêmen desmamam mais cedo, ganham peso mais rápido e são reprodutores mais eficientes do que a média dos rebanhos. "É um touro excepcional, que contribuiu muito para a pecuária de corte no Brasil", diz Marcos Labury, gerente da Alta Genetics, em Uberaba (MG), empresa especializada no comércio de sêmen bovino. Ele calcula que Quark já tenha produzido cerca de 80 mil filhos, mais uma incontável prole de netos e bisnetos - que são os animais que vão de fato para o frigorífico.

 

O sêmen é comercializado em tubinhos congelados de 0,25 mililitro, que depois são usados para inseminar as fêmeas. Os garrotes que nascem são usados como doadores genéticos ou soltos no pasto para cobrir as fêmeas do rebanho de corte. Uma amostra seminal de Quark custa R$ 40 - mais que o dobro da média de um bom animal. O sêmen mais caro do mercado, vendido a R$ 250 o tubinho, é do touro Basco, um nelore de 5 anos leiloado no ano passado por R$ 4 milhões - o boi mais caro do mundo, segundo Labury.

 

CLONAGEM PARA PERPETUAR GENÉTICA

 

Fazendas especializadas trabalham também com a genética de fêmeas, valorizadas pela capacidade de emprenhar cedo e produzir leite para criar filhotes saudáveis e cheios de carne. Nesse caso, porém, os óvulos não podem ser comercializados individualmente, como o sêmen, porque as células não resistem ao congelamento - problema que também se enfrenta na reprodução humana. A solução mais comum é fazer uma fertilização in vitro, combinando o sêmen e o óvulo de animais selecionados para produzir embriões com características genéticas específicas às necessidades do produtor.

 

A Fazenda Mata Velha, em Uberaba (MG), por exemplo, é especializada em genética de elite. Dona de algumas das vacas mais premiadas do País, ela vende embriões congelados por uma média de R$ 102 mil e fêmeas, por R$ 80 mil, segundo o zootecnista Nilo Sampaio. Em uma visita recente do Estado à fazenda, ele pára diante da baia de uma vaca mais idosa, chamada Divisa. É o animal símbolo da empresa, vencedor de vários prêmios em seus de 16 anos de vida (equivalente a 80 anos em idade humana). "Essa é uma que gostaríamos de clonar", afirma Sampaio, dando a dica do novo projeto tecnológico da empresa, que recentemente criou um laboratório especificamente para isso.

 

Apesar de ainda apresentar índices de sucesso muito baixos, da ordem de 5% (cinco nascimentos para cada cem embriões transferidos), a clonagem já aparece como uma tecnologia viável para reprodução de animais de alto valor genético ou de espécies ameaçadas de extinção. Dessa forma, animais mais velhos como Quark e Divisa podem ser duplicados ou até triplicados, e animais mais jovens que morreram prematuramente podem ser "ressuscitados" com o mesmo DNA.

 

Pelo menos três empresas especializadas oferecem serviços de clonagem, a preços que variam entre R$ 40 mil e R$ 50 mil por clone - uma pechincha para reproduzir um animal que pode valer milhões. O problema, segundo especialistas, é a falta de regulamentação sobre o tema, que impede que os animais clonados sejam registrados. Conseqüentemente, seu material genético não pode ser comercializado oficialmente. É como se os animais não existissem.

 

Um projeto de lei da senadora Kátia Abreu que regulamenta a clonagem está tramitando na Comissão de Ciência e Tecnologia do Senado desde 2007. "Uma vez que isso seja resolvido acho que a demanda pela clonagem vai aumentar muito", prevê o pesquisador Rodolfo Rumpf, da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, que produziu os primeiros clones bovinos do País (todos ainda sem registro).

 

RESISTÊNCIA VERSUS MACIEZ

 

O carro-chefe do melhoramento genético, porém, continuará a ser o trabalho clássico de seleção e cruzamento - que também continuará a ser feito "no olho", mas cada vez mais apoiado em ferramentas da genômica e da biologia molecular.

 

"Temos potencial para melhorar muita coisa ainda", afirma Machado, da ABCZ. Uma desvantagem dos zebuínos em relação aos taurinos está relacionada ao marmoreio, ou à quantidade de gordura intramuscular. As raças européias depositam mais gordura entre as fibras, por isso sua carne é mais macia e saborosa (o que explica, em grande parte, a diferença entre as carnes argentinas e brasileiras, por exemplo). Já os zebuínos depositam a gordura como uma capa, na parte externa do músculo.

 

"O zebu ganha em rusticidade mas perde em qualidade. Alguns mercados questionam isso", reconhece Machado. Uma maneira de reduzir essa diferença seria aumentar geneticamente o marmoreio ou reduzir ainda mais o tempo de abate (precocidade). "Temos quantidade e preço, mas se falar em qualidade, não somos bem vistos. Temos uma reputação muito ruim lá fora", afirma Sampaio, da Fazenda Mata Velha. Outra fonte de preocupação é a questão sanitária, principalmente com relação à febre aftosa, que vai e volta causa dificuldades para a exportação de carne brasileira.

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