Daniel Beltrá/Greenpeace
Daniel Beltrá/Greenpeace

Análise: Cortar floresta é contraproducente para o Brasil

'Maciços florestais são fundamentais para garantir chuva e clima estáveis - ativos essenciais para a agropecuária'

André Guimarães *, O Estado de S.Paulo

18 Março 2017 | 03h00

Talvez a geração mais nova não se lembre, mas o Brasil passou boa parte das décadas de 1980, 1990 e 2000 assistindo a seu patrimônio literalmente queimar. A Amazônia pereceu frente a um modelo de desenvolvimento que privilegiava a derrubada, a queima, a grilagem de terras, tudo feito sem planejamento e muitas vezes com incentivos e subsídios públicos. 

Em 2004, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais registrou inacreditáveis 27 mil km² de floresta destruídas em um único ano. Conseguimos baixar essa taxa para cerca de 5 mil km², mas nos últimos anos o desmate voltou a crescer, especialmente dentro de unidades de conservação. A conta chegou, e veio alta. A ciência mostra, com mais clareza a cada dia, que maciços florestais são fundamentais para garantir chuva e clima estáveis - ativos essenciais para a agropecuária, a atividade em que somos os mais competitivos do mundo. Quebras de safra por falta de chuva e replantios sucessivos por atraso na chegada das águas são alguns elementos de incerteza, que representam riscos e prejuízos para o agronegócio. 

Estudo feito pelo Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam) e parceiros mostra que a temperatura ao redor do Parque Indígena do Xingu, em Mato Grosso, região cheia de monoculturas e pastagens, já aumentou quase 1°C ao longo de dez anos. As pessoas podem não sentir o aumento na temperatura, mas boi e soja sentem e produzem menos. 

Está evidente que produzir mais significa preservar florestas. Simples assim. O agro moderno já entendeu que é melhor investir em produtividade. Tanto que o PIB agrícola continua crescendo, mesmo que o desmatamento tenha diminuído na última década.

Mas ainda há aqueles que ganham com o desmatamento, com o crime e com a especulação de terra. O País não pode sucumbir ao interesse individual e de curto prazo. Senão, o desmatamento, que voltou a crescer no último ano, até mesmo em unidades de conservação, mas não circunscritas a elas, ameaçará nosso patrimônio novamente, e também a economia do Brasil.

* AGRÔNOMO, É DIRETOR EXECUTIVO DO IPAM

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