1. Usuário
Assine o Estadão
assine
  • Comentar
  • A+ A-
  • Imprimir
  • E-mail

Amazônia: mulher poderosa

Fernando Reinach

O crescimento das árvores varia ao longo do ano. Nos climas temperados essa flutuação é entendida, mas a flutuação observada na Floresta Amazônica era um mistério. 

Nos climas temperados, quando chega o outono a temperatura diminui, os dias ficam mais curtos e as árvores perdem as folhas. A chuva é substituída pela neve. Baixa temperatura, pouca luz e falta de água fazem com que a fotossíntese seja interrompida. É o clima controlando o comportamento da floresta.

Na Floresta Amazônica as variações climáticas são mais sutis. A temperatura permanece alta o ano inteiro, o clima é sempre úmido e as árvores estão sempre verdes. Mas existe um período mais seco, entre junho e novembro, em que a temperatura é mais baixa, a chuva diminui e os dias ficam um pouco mais curtos. Inicialmente se acreditava que essas mudanças sutis não deveriam afetar o crescimento da floresta. Se imaginava que ela crescia o ano todo ou reduzia um pouco seu crescimento durante a seca. Algumas décadas atrás, surgiram as primeiras evidências que na Amazônia acontecia o contrário, era exatamente durante a seca que a floresta crescia mais rápido. Seria possível que nossa floresta desobedecesse ao clima?

Os cientistas usaram dados coletados em quatro torres, mais altas que o topo das árvores, para descobrir o que acontece. Nelas você pode medir vários parâmetros a diferentes alturas. É possível medir a quantidade de luz, a umidade e a quantidade de gás carbônico ao rés do chão, no meio da copa das árvores ou mesmo acima da copa. Foi usando os dados coletados nas torres em Santarém, Belém, Manaus e na Reserva de Jaru, em Rondônia, que os cientistas conseguiram entender o que estava acontecendo.

Eles mediram a quantidade de chuva, de luz disponível para fotossíntese e a massa de carbono fixado pela floresta por dia (o ritmo de crescimento). Estas medidas demonstraram que, ao longo do ano, quando a quantidade de chuva diminui em junho e julho, a floresta diminui um pouco seu ritmo de crescimento, apesar da quantidade de luz disponível aumentar muito (menos dias nublados compensam a pequena diminuição na duração do dia). Mas, logo em seguida, no auge da seca, a velocidade de crescimento aumenta, muito antes de começar a chover e exatamente quando a quantidade de luz diminui. Esse resultado confirma a suspeita dos cientistas. A Floresta Amazônica não segue a lógica climática das florestas de regiões frias, ela parece ter outro relacionamento com o clima. 

Não satisfeitos, os cientistas resolveram estudar a razão desse aumento durante a seca. Analisando fotos obtidas com câmaras instaladas nessas torres, e coletando as folhas no solo, os cientistas descobriram o que acontece. É exatamente no momento em que começa a seca que a grande maioria das árvores da Floresta Amazônica “resolve” trocar suas folhas. Mas, ao contrário das árvores de clima frio, elas não derrubam as folhas, ficam peladas, e depois produzem as novas. As novas brotam enquanto as velhas são derrubadas e é o aparecimento dessas novas folhas, ainda na seca, que faz com que a floresta, com suas novas máquinas de fotossíntese trabalhando a todo vapor, acelerem seu crescimento.

Essa descoberta demonstra que a Floresta Amazônica não se curva às mudanças anuais no clima, mas usa o início da seca para se renovar, e cresce mais rápido quando as condições são aparentemente mais adversas.

Como esse crescimento mais rápido ocorre quando a atmosfera está mais seca e é nesse período que a floresta produz mais vapor de água e transporta água do solo para a atmosfera, em vez de se submeter à seca, podemos imaginar que a Floresta Amazônica se contrapõe às mudanças climáticas, umedecendo a atmosfera. Ou seja, ao contrário das florestas frias que se comportam como uma dama submissa aos desejos do clima, nossa Amazônia é uma mulher confiante e poderosa, que modifica o clima em vez de se submeter. Mais uma razão para ser admirada e preservada.

MAIS INFORMAÇÕES: LEAF DEVELOPMENT AND DEMOGRAPHY EXPLAIN PHOTOSYNTHETIC SEASONALITY IN AMAZON EVERGREEN FORESTS. SCIENCE VOL. 351 PAG. 972 2016

FERNANDO REINACH É BIÓLOGO

Comentários

Aviso: Os comentários são de responsabilidade de seus autores e não representam a opinião do Estadão.
É vetada a inserção de comentários que violem a lei, a moral e os bons costumes ou violem direitos de terceiros. O Estadão poderá retirar, sem prévia notificação, comentários postados que não respeitem os criterios impostos neste aviso ou que estejam fora do tema proposto.

Você pode digitar 600 caracteres.

Mais em SustentabilidadeX