Alimentar as pessoas ou os carros?

Estudo sugere que o plantio de grãos para produção de biocombustíveis eleva o preço dos alimentos e piora o problema da fome no mundo

The Guardian

22 Janeiro 2010 | 17h20

Um novo estudo que sugere que a revolução do biocombustível iniciada pelo presidente George Bush em 2007 está impactando a produção mundial de alimentos. Matéria publicada pelo The Guardian revela que um quarto do milho e outros grãos produzidos nos EUA terminam como biocombustível em carros ao invés de serem usados para alimentar pessoas.

 

O relatório 2009 do Departamento de Agricultura dos EUA mostra um aumento da produção de etanol em nível recorde, levado adiante por subsídios aos produtores e por leis que exigem o uso crescente de biocombustíveis nos veículos.

 

 “A plantação de grãos para produção de combustível em 2009 seria o suficiente para alimentar 300 milhões de pessoas por um ano, levando em consideração o consumo médio mundial”, disse Lester Brown, diretor do Earth Policy Institute, instituição que conduziu a análise.

 

No último ano, 107 milhões de toneladas de grãos, principalmente milho, foram colhidas pelos fazendeiros norte-americanos para serem misturadas ao petróleo. Isso é quase o dobro do número registrado em 2007, quando Bush incentivou os fazendeiros a aumentar a produção em torno de 500% até 2017 para bancar a diminuição da importação de petróleo e reduzir as emissões de carbono.

 

Mais de 80 novas plantações de etanol surgiram desde então, e a expectativa é de que esse número cresça até 2015, quando os EUA precisarão produzir mais 5 bilhões de galões de etanol se quiserem honrar seus compromissos com a utilização de combustíveis renováveis.

 

De acordo com Brown, a demanda crescente por etanol derivado de grãos nos EUA colaborou para puxar os preços dos grãos para recordes altos entre 2006 e 2008. Em 2008, o Guardian revelou um relatório secreto do Banco Mundial que concluía que a corrida pelos biocombustíveis empreendida pelos governos europeus e norte-americano haviam elevado os preços dos alimentos em 75% - o que contrastava com a afirmação norte-americana de que os preços teriam subido apenas entre 2% e 3%.

 

Desde então, os números de pessoas famintas no mundo aumentou para mais de 1 bilhão, segundo o programa das Nações Unidas para a Alimentação.

 

 “Se continuarmos a converter comida em combustível, como foi incentivado pelo governo federal para alcançar sua meta de combustível renovável, vamos apenas reforçar o aumento da fome no mundo. Ao subsidiar a produção de etanol a uma toada de US$ 6 bilhões por ano, os contribuintes norte-americanos estão, de fato, subsidiando o aumento das contas com alimentação em suas casas e no mundo todo”, disse Brown.

 

 “A pior crise econômica desde a grande depressão recentemente trouxe os preços dos alimentos para baixo, com relação às épocas de pico, mas eles ainda continuam muito acima das médias de longo-prazo que conhecemos”, completou.

 

Os EUA são, de longe, o maior exportador de grãos do undo, vendendo para a Argentina, a Austrália, o Canadá e a Rússia. Em 2008, as Nações Unidas pediu que o mundo revisse sua disposição para produzir biocombustível a partir das safras de alimentos.

 

“Há uma conexão direta entre os biocombustíveis e o preço dos alimentos. As necessidades dos famintos têm de vir antes das necessidades dos carros”, disse Meredith Alexander, ativista da ActionAid, em Londres. Os ativistas também argumentam que muitos cientistas ainda contestam se os biocombustíveis feitos a partir de grãos realmente evitam as emissões de gases de efeito estufa.

 

Mas os produtores de etanol negam que sua produção recorde signifique menos comida no mundo. “A inovação contínua na produção de etanol e a tecnologia agrícola mostram que nós não temos que fazer uma falsa escolha entre alimentos e combustível. Nós podemos suprir a demanda por alimentos enquanto reduzimos nossa dependência de petróleo importado produzindo etanol”, disse Tom Buis, chefe executivo do grupo Growth Energy.

 

Com informações do The Guardian

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