Acordo contra efeito estufa demanda ações mais efetivas, dizem especialistas

EUA quer chegar a 2025 com emissões de 26% a 28% menores; China comprometeu-se a não aumentar as emissões a partir de 2030

Mariana Naviskas, Especial para O Estado

12 Novembro 2014 | 21h42

SÃO PAULO - O acordo feito entre China e Estados Unidos com o objetivo de diminuir as emissões de gases do efeito estufa, nesta quarta-feira, 12, é fundamental na luta contra a mudança climática, porém especialistas afirmam que ainda são necessárias ações mais concretas.

O ativista sênior de Clima e Energia do Greenpeace da Ásia Li Shuo disse que a parceria mostra um forte engajamento de responsabilidade coletiva, mas que os dois países ainda precisam alcançar uma relação que realmente auxilie na alteração do clima. "Há uma expectativa clara de ações mais ambiciosas por parte dessas economias, cujas trajetórias de emissão de gases definem a resposta global da mudança climática", explica.

No acordo, a China se comprometeu a reduzir as emissões a partir de 2030, quando o país atingirá o nível máximo. Até lá, 20% da energia terá origem em fontes limpas e renováveis. Já os EUA diminuirão até 2025 suas emissões entre 26% e 28% em relação aos níveis de 2005, o que significa o dobro de reduções previstas entre 2005 e 2020.

O pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) José Antonio Marengo explica que não existe um nível de redução na emissão de gases indicado para os países. "O que se sugere é que se reduza o máximo possível para que isso não piore o aquecimento", diz.

Segundo ele, para atingir as metas, os EUA e a China terão, principalmente, que investir em energias limpas, como a eólica e a solar. "Embora a China tenha, hoje, 65% da energia vinda do carbono, eles já estão investindo nessas tecnologias. Por ser um país continental, a energia eólica é bastante indicada". Segundo o pesquisador, os dois países têm a tecnologia e os recursos necessários para implementar as soluções.

A China e os EUA geram cerca de 45% dos gases poluentes no mundo. "Será um desafio diminuir isso. A China, por exemplo, vai ter que mudar muito o processo industrial, o que pode gerar desemprego". Além da energia limpa, Marengo aponta o reflorestamento e diminuição de frota veicular para combater o aquecimento. "É importante lembrar que o carbono já existente na atmosfera não vai desaparecer. Por isso, é necessário investir em geoengenharia, uma alternativa cara, mas possível, que desloca esse carbono para buracos no subsolo."

O professor livre-docente do Instituto de Astronomia Geofísica e Ciências Atmosféricas (IAG) da USP Tercio Ambrizzi acredita que, independente das metas estabelecidas, o acordo é um passo histórico na mudança climática, principalmente por reconhecer o aquecimento da atmosfera. "Estamos caminhando para uma mudança no clima que poderá impactar toda a sociedade, pois afetaria regimes de chuvas e temperatura em todas as regiões", destaca o especialista, que também é coordenador do Grupo de Estudos do Clima do IAG.

O Painel Intergovernamental para Mudança Climática (IPCC, na sigla em inglês), divulgado pela Organização das Nações Unidas (ONU) no dia 2 de novembro, concluiu que o aquecimento global está provocando ondas de extremo calor e chuvas intensas, o que resulta na acidificação dos oceanos e aumenta o nível dos mares. Segundo o documento, a emissão de gases do efeito estufa deve ser reduzida a zero até 2100 - com isso a entidade espera limitar o aumento das temperaturas em dois graus Celsius acima da era pré-industrial. As temperaturas já estão 0,85 grau mais altas. 

O secretário-executivo do Observatório do Clima Carlos Rittl afirma que, embora insuficiente e tardio, o acordo injeta ânimo e senso de urgência na questão do clima. Rittl destaca ainda que a "coragem e senso de urgência" que os dois países apresentaram têm faltado ao governo do Brasil. "O País, que seis anos atrás era elogiado pela comunidade internacional por seu esforço de reduzir emissões, hoje esconde o aumento do desmatamento e dobra a aposta na energia suja", afirma.

Para ele, o governo brasileiro perde a oportunidade de liderar um processo que traria oportunidades ao País. "Esperamos que o bom exemplo de Pequim e Washington possa inspirar nossa presidente a propor a meta de fazer as emissões brasileiras caírem após 2020 e chegarem a 800 milhões de toneladas de CO2 em 2030", declara.

Mais conteúdo sobre:
Estados Unidos China meio ambiente

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.