Acordo climático será feito a portas fechadas

Para negociador europeu, decisões dependem de química pessoal e amizade entre delegados

Arthur Max, da Associated Press

12 Dezembro 2009 | 17h14

Se um acordo climático for assinado em Copenhague, é mais provável que ele seja exaustivamente discutido durante o café no corredor, um copo de vinho no jantar ou um passeio pelas ruas do centro de Copenhague do que na sala das reuniões plenárias da conferência. Química pessoal e amizade entre os delegados de grupos opostos são cruciais em negociações complexas, e poderia ser particularmente importante neste fim de semana, quando ministros tentarão acabar com os impasses nas negociações sobre um acordo global para controlar as mudanças climáticas. 

 

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Os ministros chegaram mais cedo do que o planejado para preparar o terreno para a vinda de líderes de 110 países no final da semana. O objetivo é alinhavar um acordo político que estabelece os contornos para um novo  pacto sobre mudanças do clima que deve ser concluído no próximo ano. 

 

A conferência de Copenhague está completando dois anos de negociações entre 192 países, que já se reuniram quase uma dúzia de vezes para conversas formais, geralmente chegando a lugar nenhum. Enquanto isso, seus líderes ou negociadores-chefes reuniram-se mais frequentemente em situações informais - fazendo turismo em um parque selvagem sul-africano, caminhando sobre uma geleira argentina ou relaxando em fiordes perto da Groenlândia. 

 

Essas semanas de conversas relaxadas, as discussões sobre família e hobbies, juntamento com questões climáticas e políticas públicas, trocando os ternos por jeans, são de valor inestimável na construção de relacionamentos e confiança que poderão culminar em avanços diplomáticos no futuro. 

 

Dois dos mais ferrenhos adversários nas negociações, o enviado especial americano Todd Stern e o negociador-chefe chinês Xie Zhenhua são conhecidos por reunir-se regularmente e cordialmente, apesar de eles se comunicarem através de intérprete. "Ele é um cara muito bem-apessoado", afirma, em elogio a Xie, a diretora do programa chinês do Natural Resources Defense Council, Barbara Finamore. Ela diz que os dois têm um entendimento que vai além de seus cargos públicos. 

 

A conferência de Copenhague, assim como todas as negociações anteriores, está sendo realizada em vários níveis, desde as reuniões abertas com a presença de todas as nações até as pequenas salas onde poucos delegados possam pechinchar no silêncio. Sessões públicas muitas vezes são rodadas controversas de negociação para redigir sutilezas diplomáticas. Os países pobres dizem que serão os primeiros a sofrer com o aquecimento global causado pelos países ricos. Os países ricos dizem que os países em desenvolvimento  não estão fazendo o suficiente para ajudar a resolver o problema. 

 

Além disso, as nações estão agrupados em alianças com diversos interesses em comum, sendo o G-77 + China o maior bloco, na verdade, composto de cerca de 135 países. Junto a ele, há outros grupos como a União Europeia, os Pequenos Estados Insulares, os Países Menos Desenvolvidos  e o Grupo Gaurda-Chuva, que agrega Estados Unidos, Austrália, Canadá e Japão. É uma forma conveniente para poupar tempo com um porta-voz nomeado anteriormente para indicar uma posição de consenso na abertura ou encerramento de uma sessão plenária. 

 

As sessões plenárias não são feitas para a negociação. É onde as nações demarcam suas posições e mostram fidelidade aos seus aliados. Mas delegados dizem que a maior parte do progresso é forjada nos bastidores. "Quanto mais íntima a configuração, mais fácil é de falar", diz Jurgen Lefevere, diplomata belga, um veterano negociador europeu. "É incrível o quanto as negociações dependem de quem se esbarra nos corredores." 

 

As sessões plenárias originam os pequenos grupos de contato para lidar com questões específicas. Quando as conversas travam, o presidente pode designar um colega para levar os negociadores-chave a uma sala ao lado e prosseguir com a discussão. Se isso falhar, o problema fica para mais tarde. Se for uma questão importante, vai ser necessário esperar que seja aprovada por ministros ou chefes de governo. Segundo Lefevere, os encontros formais e informais reforçam-se mutuamente. 

 

Em pequenos grupos negociadores podem sondar, esquivar-se ou questionar. Lefevere explica que assim eles podem explorar o quanto o outro lado está disposto a ceder e onde é o "limiar da dor". Esse contato pessoal pode ser feito durante uma xícara de café no centro de conferência ou durante um copo de vinho e um bom jantar. De acordo com o negociador, é quando os delegados trocam informações privadas ou documentos internos e as propostas. "Você tem nuances e sutilezas que não pode levar para um grande encontro.'' Mas, segundo Lefevere, mesmo entre amigos, "é preciso ter cuidado em como mostrar as linhas essenciais."

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