P. S. Sena
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A virgindade da Amazônia

Povos pré-colombianos alteraram a flora da floresta, e isso pode ser observado

Fernando Reinach, O Estado de S.Paulo

28 Outubro 2017 | 07h26

Floresta virgem, fêmea jamais penetrada. Basta descer de uma canoa na Amazônia para sentir o cheiro forte e a umidade

que emana do interior invisível. A entrada é recoberta por um emaranhado de cipós encaracolados. A imaginação é tomada pelo receio e prazer de explorar. Floresta virgem é uma expressão que faz sentido. Mas no fundo, de virgem a floresta não tem nada. Nas últimas décadas foram descobertas dezenas de construções primitivas, rtefatos, ossos humanos e pinturas rupestres que indicam que muito antes da chegada dos europeus, a Floresta Amazônica já havia sido deflorada por povos précolombianos que desceram dos Andes, adentraram a floresta e chegaram à foz do Amazonas.

Essas culturas domesticavam plantas amazônicas 8 mil anos antes de Cristo, meros 2 mil anos após as primeiras domesticações de plantas e animais nas bordas do Tigre e Eufrates. Foram esses homens que 9,5 mil antes da chegada dos portugueses desvirginaram a

Amazônia. Até recentemente se acreditava que eles haviam chegado e partido, deixando poucas cicatrizes na floresta. Mas isso está mudando. Essas comunidades alteraram a distribuição das espécies de árvores na Amazônia. A flora que observamos hoje é resultado

dessa intervenção préhistórica. Analisando sítios arqueológicos foi possível identificar 85 espécies de plantas domesticadas pelos précolombianos. Entre elas está a castanha-do-Pará, o ingá, a embaúba, o abiu e o cacau. Os cientistas tentaram descobrir se a frequência das espécies domesticadas em diferentes áreas da Amazônia estava de alguma forma relacionada à localização dos sítios arqueológicos.

Faz alguns anos os cientistas demarcaram 1.170 quadrados espalhados por toda a região amazônica, e em cada um identificaram as espécies presentes e a frequência de cada uma. Nesses 1.170 quadrados foram identificadas 4.962 espécies de árvores. Foi possível estimar que devem existir na Amazônia aproximadamente 16 mil espécies, algumas extremamente raras. Também foram identificadas 227 espécies de árvores denominadas hiperdominantes, que existem em grande número de exemplares e constituem o grosso da floresta. Das 85 espécies de plantas domesticadas pelo povos précolombianos, 20 fazem parte do grupo de hiperdominantes.

Quando os cientistas colocaram em um mapa da região amazônica a frequência de cada uma das espécies domesticadas e o local dos sítios arqueológicos, foi possível demonstrar que a presença das espécies domesticadas está correlacionada com a localização dos sítios arqueológicos. Nos locais onde os préColombianos se estabeleceram 8 mil anos atrás, encontramos hoje uma maior concentração das espécies por eles domesticadas. E essa concentração forma gradientes decrescentes à medida que nos afastamos dos sítios arqueológicos. Ou seja, se existe uma alta frequência de árvores dessas espécies em uma área é porque existe um sítio arqueológico por perto. E o reverso é verdade: se encontramos um sítio arqueológico, vamos encontrar ao seu redor uma alta concentração dessas espécies.

Essa descoberta demonstra que os povos précolombianos alteraram a flora da Amazônia e que essa alteração ainda pode ser observada na distribuição das espécies domesticadas. A floresta amazônica perdeu sua virgindade há milhares de anos e ainda guarda memórias desse episódio.

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