Arthur Soares
Arthur Soares

A triste música de uma árvore em extinção

Artista usa um toca-discos a laser para extrair uma canção de pau-brasil em campanha de alerta pela devastação da Mata Atlântica

Giovana Girardi, O Estado de S.Paulo

01 Maio 2017 | 05h00

A destruição de uma floresta costuma vir acompanhada de sons dramáticos: o crepitar intenso do fogo, o ronco da motosserra, o ranger dos correntões arrancando as árvores pela raiz, o baque seco do tronco alcançando o chão. Mas como seria se cada árvore pudesse emitir uma mensagem nessa hora? E se esse adeus pudesse ser traduzido em uma música?

A um exemplar de pau-brasil, árvore típica da Mata Atlântica que primeiro testemunhou a devastação que sofreria o bioma desde as primeiras décadas da colonização, foi dada a oportunidade de cantar a sua despedida.

De um tronco da árvore foi feito um disco que, ‘lido’ por uma espécie de toca-discos a laser, gerou uma triste melodia. O canto da árvore foi obtido por meio de uma técnica desenvolvida pelo artista alemão Bartholomäus Traubeck, que usa um sensor para ler informações contidas nos anéis da árvore, como espessura, textura, ranhuras, sulcos e cor. Tudo isso é traduzido por um algoritmo e transformado em notas de piano.

A experiência com o pau-brasil faz parte de uma campanha do Instituto Terra – do fotógrafo Sebastião Salgado e sua mulher, Lélia Wanick – feita pela agência J.Walter Thompson para alertar contra o desmatamento da Mata Atlântica. 

O bioma é o mais devastado do Brasil. Apesar de vir apresentando algum grau de regeneração natural e recuperação – conforme mostrou o levantamento Mapbiomas, no total foi reduzida a apenas cerca de 12% de sua área original. A ideia da campanha foi alertar para esse problema e angariar verba para o instituto, que atua em projetos de restauração florestal e recuperação de nascentes no Vale do Rio Doce, região entre Minas Gerais e Espírito Santo afetada pelo vazamento da lama de rejeitos da Samarco em 2015.

Da agência a Traubeck, todo mundo trabalhou de graça. O artista tinha ganhado destaque com suas árvores que cantam em 2013, quando lançou o álbum Years (Anos), com músicas feitas a partir de anéis de espécies como carvalho, bordo, nogueira e faia. O nome da obra remete ao fato de que esses anéis fornecem informação sobre a idade das árvores.

Marcelo Monzillo, diretor de arte da agência, e Filipe Rosado, redator, estavam iniciando um trabalho com o instituto quando souberam da obra e resolveram procurar o artista. “Decidimos fazer o mesmo com o pau-brasil, a árvore que deu nome ao nosso país, para representar o adeus de 140 espécies ameaçadas de extinção na Mata Atlântica”, conta Rosado. Um exemplar já cortado da espécie foi encontrado e enviado a Traubeck.

“É uma música triste, que dá vontade de chorar quando se ouve. Ela mostra que a floresta respira, a terra fala com a gente, e nos lembra que a devastação profunda que houve na Mata Atlântica é uma violência ao próprio ser humano”, afirma Isabella Salton, diretora executiva do Terra.

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