'A preocupação de trazer a natureza para o interior das cidades é algo moderno'

Diretor do Senseable City fala sobre o projeto Treepedia, que mapeou a cobertura verde nas ruas de grandes cidades

Entrevista com

Carlo Ratti, diretor do Senseable City

Giovana Girardi, O Estado de S.Paulo

30 Julho 2017 | 05h00

SÃO PAULO - A cidade São Paulo aparece mal no levantamento feito pelo Laboratório Senseable City, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), que calculou, com o auxílio do Google Street View, a cobertura verde de 23 cidades do mundo. Com apenas 11,7%, está na terceira pior posição. Mas não está só. Cidade admiradas por seus parques e pela vida coletiva também não se destacam quando a métrica é a arborização no viário urbano. Londres tem apenas 12,7% de cobertura, Nova York, 13,5%, e Paris, a pior de todas, apenas 8,8%. A melhor cidade, por incrível que pareça, é Cingapura, com 29,3%.

Na entrevista a seguir, o pesquisador italiano Carlo Ratti, diretor do Senseable City, explica os possíveis motivos para isso.

Baseado no que vocês observaram com a Treepedia, seria possível tirar algumas conclusões sobre como as cidades analisadas lidam com as árvores? Além do índice de arborização urbana (GVI na sigla em inglês), o sr. seria capaz de fazer um “diagnóstico” sobre o que descobriu? Por exemplo, se o GVI pode ter alguma relação com PIB, IDH ou algum outro fator?

Ainda estamos ampliando a base de dados, mas definitivamente podemos esboçar algumas considerações iniciais. Por exemplo, muitas pessoas acharam surpreendente que algumas das cidades mais antigas incluídas na pesquisa, como Paris e Londres, estejam na parte inferior do GVI. Mas a preocupação de trazer a natureza para o interior das cidades é algo moderno. Não estava tão presente há alguns séculos, quando as cidades eram menores e a maioria da população vivia e trabalhava no campo. Enquanto isso, muitas cidades mais novas, incluindo algumas norte-americanas, tendem a ocupar uma posição melhor no ranking. Se o planejamento modernista de cidades foi deletério sob diversos pontos de vista, ele provavelmente deixou um legado inesperado: ruas largas e cobertas de árvores, além de bulevares, ao redor do mundo. Posto isso, gostaria de acrescentar que o projeto começou recentemente, e até o momento nós ainda temos uma amostra relativamente pequena de cidades.

Entre os próximos passos do projeto, está a análise histórica de imagens para começar a determinar como a cobertura de árvores de uma cidade mudou com o tempo. Esse tipo de análise vai fornecer mais insights de como as coberturas mudam com o tempo, além de gerar métricas que indiquem se elas estão atingindo as metas de se tornarem mais verdes, se a cobertura de árvores está decaindo ou se expandindo, e se doenças e períodos de seca estão gerando efeitos nas árvores das cidades.

Por fim, estamos também observando como o GVI pode se relacionar com fatores socioeconômicos e de saúde. Por exemplo, nós estamos combinando esses dados com informações sobre mobilidade, para desenvolver novos meios de medir a exposição a espaços verdes nas cidades de forma mais direta. Nós também estamos examinando se a exposição a áreas verdes pode ter efeitos positivos na saúde. É completamente possível analisar métricas socioeconômicas adicionais, e nós estamos tornando esses dados disponíveis, de modo que outros pesquisadores, investidores e cidades possam avançar na exploração das correlações de dados.

Cingapura tem o melhor GVI entre as 23 cidades analisadas. Quais seriam as causas?

Provavelmente isso se deve a dois fatores, com a biogeografia de Cingapura desempenhando um papel primário. Cingapura está localizada em uma região tropical e, portanto, já tem uma predisposição a ser bastante verde. A região é caracterizada por uma vegetação abundante e as plantas crescem bastante e rapidamente lá. Por exemplo, mesmo espaços vazios e abertos que não foram modificados têm uma tendência a possuir uma quantidade de vegetação consideravelmente grande e com super crescimento de modo natural. Posto isso, Cingapura também destinou recursos consideráveis para tornar a cidade mais verde e planejar as áreas públicas com vegetação. Esse esforço provavelmente se reflete na pontuação alta no GVI. O “Jardim da Baía” de Cingapura pode ser uma boa ilustração desse trabalho.

A biogeografia tem um papel significativo em determinar o quão verde uma cidade é, mas também cria um desvio que precisa ser considerado. Vancouver (Canadá), por exemplo, tem a segunda maior cobertura urbana de árvores na nossa base de dados, mas a cidade fica em uma região de floresta temperada. É por esta razão que o Treepedia não tem como objetivo avaliar cidades e fazê-las competir em uma “Olimpíada verde”. Sem uma grande quantidade de recursos como água e energia, não se pode esperar que uma cidade no deserto ou na paisagem árida mediterrânea sustente tanto verde quanto uma localizada em zona tropical.

Uma comparação entre cidades não deve, necessariamente, ser um confronto do valor absoluto do GVI. mas talvez a comparação de cidades que possuam configurações biogeográficas compatíveis ou, ainda, a comparação de como a cobertura de árvores está distribuída pela cidade e como ela está mudando (aumentando ou diminuindo) no decorrer do tempo. Por essas razões, pode não ser válido comparar o índice GVI de São Paulo com o de Cingapura, mas sim com o de uma cidade como Sidney (25,9%), na Austrália.

Por que vocês decidiram focar a análise nas árvores de rua, não considerando parques ou jardins no índice? Algumas das cidades analisadas, como Nova York ou Paris, possuem grandes parques que, provavelmente, passam a impressão de que os dois locais são bastante verdes. Considerando benefícios como resfriamento e melhora na qualidade de vida, ter mais ruas com árvores poderia ser melhor do que possuir apenas parques, mesmo que sejam grandes?

O objetivo do Treepedia é quantificar e caracterizar como os cidadãos veem e vivenciam a paisagem de uma cidade e suas áreas verdes. Levando em conta que as ruas são a unidade primária pelas quais as pessoas se movem e vivem a cidade, nós nos focamos nas ruas de vizinhanças. Se considerarmos ainda os serviços que as árvores urbanas fornecem, como resfriamento, redução das ilhas de calor e retenção das águas de tempestades, as árvores de ruas são vitais.

Com nossas pesquisas, em cada metrópole nós podemos quantificar quanto das ruas de cada cidade têm cobertura de árvores e, mais importante, como é essa distribuição ao longo do município. Há áreas mais verdes enquanto outras não são? A cobertura de árvores é bem distribuída ou possui vários “buracos”? Quais partes da cidade carecem de árvores e, portanto, seriam as candidatas ideais a programas de plantio? Todas essas são questões diretamente relacionadas a como a paisagem de ruas e árvores de uma cidade é definida e gerenciada.

Focar-se apenas em árvores de ruas também tem relação com os dados de imagens que nós usamos. O Treepedia se baseia em imagens do Google Street View e, atualmente, elas são disponíveis e padronizadas apenas ao longo de ruas, apesar de alguns parques estarem sendo incorporados no Google Maps e no Google Earth.

Por fim, nós queremos criar uma ferramenta que possa ajudar cidades e cidadãos a serem mais participativos e informados sobre as áreas verdes em suas regiões. Assim, as pessoas podem desempenhar um papel mais efetivo e integral em ajudar a moldar as coberturas de árvores em suas vizinhanças, enquanto os administradores das cidades podem colocar em prática políticas para aumentar as coberturas verdes em suas jurisdições.

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