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A Groenlândia derretendo

'Agora, pela primeira vez, foi possível medir a quantidade de água despejada pelas geleiras da Groenlândia nos oceanos desde 1900'

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Fernando Reinach

09 Janeiro 2016 | 03h00

Ano novo. Estava com o mar até o pescoço em uma praia no litoral norte de São Paulo. Olhando a areia branca e a mata verde, conversava com minha filha. Quanto dessa praia ainda veremos daqui a 50 anos? A cada onda, metros de praia desapareciam para reaparecerem segundos depois. A cada dia a maré sobe e desce, a cada semana as marés mudam, assim como muda o humor dos oceanos e com ele o tamanho das ondas. O tamanho da praia e o nível do mar mudavam enquanto eu pensava na pergunta.

Nosso cérebro está acostumado a lidar com mudanças grandes em curtos espaços de tempo. Enchemos uma panela de água em poucos segundos. Para esvaziar leva menos de um segundo. Esquentamos água, dezenas de graus centígrados, em minutos. Gelamos uma cerveja em horas. Mas algo que aquece alguns graus ao longo de séculos ou sobe alguns centímetros por século escapa à compreensão imediata. É natural, não chegamos a viver 100 anos e todos os nossos problemas cotidianos precisam ser resolvidos em horas, dias ou meses. 

Mas foi esse cérebro que inventou a ciência e com ela entendemos o que é o tempo medido em milênios e variações de comprimento medidas em centímetros por século. Desde que passamos a queimar petróleo, por volta de 1850, a quantidade de gás carbônico na atmosfera e a temperatura do planeta vêm aumentando lentamente, frações de grau por ano. E esse aumento está derretendo o gelo. E a água das geleiras vai para o oceano. E o oceano sobe aos poucos. Quando a praia vai desaparecer?

Tudo depende de quanta água está se acumulando nos oceanos. Agora, pela primeira vez, foi possível medir a quantidade de água despejada pelas geleiras da Groenlândia nos oceanos desde 1900. A maneira como isso foi medido é impressionante. Os dados das últimas décadas são relativamente fáceis de obter, afinal, desde o final do século 20 os satélites acompanham o degelo da Groenlândia. Mas como saber quanto de gelo havia em 1900? Até agora, isso era estimado, mas, em um trabalho extremamente complicado de executar, mas fácil de entender, os cientistas mediram de fato quanto gelo derreteu nos últimos 110 anos.

Foram usadas fotos aéreas da década de 1980 e terrestres do início do século. Essas fotos, que cobrem toda a borda da Groenlândia, foram comparadas com fotos atuais e, em cada uma dela, a beirada do gelo nas montanhas foi determinada. Usando técnicas de reconstrução tridimensional foi possível determinar, em toda a Groenlândia, o nível do gelo em 1900, em 1983, em 2003 e em 2010.

Para cada um desses períodos foi possível calcular a quantidade de gelo derretida por ano. Entre 1900 e 1983, a Groenlândia despejou no oceano 75,1 gigatoneladas de água por ano. Uma gigatonelada equivale a 1 bilhão de toneladas de água (1 gigatonelada de água é aproximadamente o que cabe nos reservatórios do Cantareira). No intervalo seguinte, entre 1983 e 2003, esse número subiu para 73,8 por ano. Entre 2003 e 2010, a descarga anual subiu para 186 gigatoneladas por ano, mais que o dobro dos intervalos anteriores. Quando você soma toda essa água, e a espalha como se fosse uma camada sobre todos os oceanos do planeta, o resultado é um aumento no nível dos oceanos de 2,5 centímetros. Ou seja, nos últimos 110 anos, somente o degelo da Groenlândia, que é nada perto do que aconteceu no Ártico e na Antártica, contribuiu para aumentar o nível do mar em 2,5 centímetros.

Dada a inclinação da praia em que eu estava, estimo que se meu avô estivesse nadando por lá em 1900, teria uma praia pelo menos 25 centímetros mais larga. Isso, é claro, se somente a Groenlândia tivesse perdido gelo. É fácil imaginar que, com os polos também contribuindo, a tal praia talvez já tenha perdido um metro de largura. Um metro nos 100 anos em que se iniciaram o degelo e o aquecimento global. Quantos metros nos próximos 50 anos?

Seguramente não vou ver a praia desaparecer, mas do meu lado estava meu neto de 10 meses. Talvez ele, nadando com seu neto em 2100, veja a água lambendo a vegetação.

MAIS INFORMAÇÕES: SPATIAL AND TEMPORAL DISTRIBUTION OF MASS LOSS FROM GREENLAND ICE SHEET SINCE AD 1900. NATURE VOL. 528 PAG. 396 2015

FERNANDO REINACH É BIÓLOGO

 

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