Paixão pela terra

Paixão pela terra

tiagoqueiroz

26 Fevereiro 2016 | 20h46

Letícia Fonseca-Sourander, de Bruxelas

Mesmo quando a terra descansa durante o inverno, Suren Melkonyan, 68 anos, pode ser visto, quase diariamente, em uma das hortas comunitárias de Bruxelas, na Bélgica. Faça chuva, sol ou até mesmo debaixo da neve. “Não posso viver sem colocar a mão na terra. Isso aqui é como ar para mim”, confessa. Suren garante que há muito trabalho a ser feito nesta época do ano. É preciso proteger os legumes das geadas em estufas, fabricar o composto, fazer podas e principalmente, semear para a primavera que vem aí.

Suren MelkonyanHorta comunitária Boitsfort

“Colocar a mão na terra é como respirar. Sem isso não saberia viver”.

A paixão de Suren pela terra vem de longe, de Ararat, um vilarejo armênio onde se tem a vista mais linda do Monte Ararat, o símbolo de seu país natal. Segundo a Bíblia, foi no topo do Monte Ararat que a Arca de Noé encalhou depois do dilúvio. Mas hoje, a enorme montanha fica na Turquia e os armênios só podem admirá-la a distância.

“Cresci em um kolchoz – fazenda comunitária – no tempo da URSS. Desde criança sempre estive perto da terra” explica Suren, em um francês marcado pelo sotaque de imigrante. “As memórias estão todas aqui dentro”, sorri e aponta para o coração.

Bicicleta de Suren placa Horta Comunitária

 

Quem deixa o país onde nasceu entende o que Suren quis dizer. Hoje, aposentado, ele gosta de estar com os netos e andar de bicicleta. De vez em quando, ainda faz pequenas reformas nas casas dos filhos e de alguns amigos. Desde que se mudou com a família para Bruxelas, há 20 anos, Suren se tornou pedreiro. “Na Armênia, eu era engenheiro, mas isso é outra história”, conta e sorri, enquanto poda a groselha para uma senhorinha que mantém um espaço na horta, mas que não pode sair de casa em dias muito frios.

 

BRUXELAS MAIS VERDE

Viver em uma cidade mais sustentável que proponha frutas e legumes frescos e saudáveis a seus habitantes é a meta do programa Good Food, que acaba de ser lançado pelo governo regional de Bruxelas. A idéia é reduzir em 30% o desperdício de alimentos até 2020 e cultivar na área urbana um terço das frutas e hortaliças consumidas por seus moradores até 2035. “Vamos implementar uma centena de ações de sensibilização para criar uma nova cultura alimentar”, explica Joséphine Henrion, porta-voz do projeto.

 “Comer produtos orgânicos, cultivados localmente, ainda está associado a uma imagem de comportamento de luxo”, enfatiza Joséphine. Porém, com a estratégia Good Food, as autoridades belgas pretendem ensinar que é possível ter acesso à uma alimentacão sustentável sem gastar muito. A intenção é chegar até o final desta década com 60% da população de Bruxelas assimilando comida saudável a preço acessível.

 Quando as pessoas passarem a consumir frutas e legumes orgânicos com maior frequência, a tendência é haver uma baixa no preço desses produtos, que passarão a ser cultivados em maior escala. Além disso, com o incentivo à producão, o valor do transporte dos alimentos vai diminuir e as emissões de gás carbônico irão reduzir. Vale lembrar que uma das maiores vilãs pela emissão de CO2 na atmosfera continua sendo a indústria de alimentos. Na Bélgica, a cadeia alimentar representa 31% da emissão dos gases de efeito estufa. Bruxelas tem 1.200 milhão de habitantes e existem cerca de 300 áreas de cultivo na cidade, sendo que 70 são ocupadas por hortas comunitárias. A meta é duplicar os espaços para as hortas comunitárias nos próximos cinco anos.

Horta Good Food logo Good Food

crédito foto: Bruxelles Environnement

Como as boas práticas alimentares são importantes desde cedo, o Good Food vai priorizar ações pedagógicas nas escolas, estimular cantinas sustentáveis e orientar projetos de hortas onde os alunos possam plantar e cuidar de seus próprios legumes e frutas. A idéia é que até 2020, todas as creches e cantinas das escolas públicas de Bruxelas possam servir refeições com produtos orgânicos, plantados aqui e colhidos na época certa.

“CADA ESTAÇÃO DO ANO NOS DÁ AQUILO QUE NOSSO CORPO NECESSITA”

Escolher frutas e legumes da safra da época é sempre melhor, tem mais nutrientes e sabor. “No campo da nutrição, o que é bom para as pessoas, é bom para o meio ambiente” assegura a nutricionista espanhola Teresa Fernandez-Gil, que chegou em Bruxelas há quase 30 anos. A estratégia Good Food é vista com bons olhos por ela, que lembra um estudo onde a Bélgica encabeçava um ranking de países com os piores hábitos alimentares no mundo. Mas a mudança em prol da saúde está chegando. “Hoje já é possível encontrar nas prateleiras dos supermercados os chamados legumes esquecidos”, como os deliciosos tupinambos, aipo-rábano e chirívias.

 

Em suas aulas, Teresa mostra as alegrias de se preparar receitas com produtos frescos no lugar de comida processada. Ela ressalta a importância de comer produtos da estação, e de preferência, cultivados localmente. “Na Europa, a Itália é um exemplo pela sua tradição biológica” explica. “Não é possível comer o mesmo produto durante todo o ano, isso pode ter um enorme impacto na saúde. No tempo de nossos avós, o trigo era recolhido no outono e ficava apenas dois meses no celeiro. Cada estação do ano nos dá aquilo que nosso corpo necessita. O trigo no outono, o verde na primavera e as frutas no verão”.

Teresa Fernandez-Gil

A nutricionista Teresa Fernandez-Gil ensina a fazer pratos saudáveis.

OS LEGUMES ESQUECIDOS

tupinambo

O tupinambo, conhecido também como girassol batateiro, é um tubérculo que deixa os pratos levemente adocicados. Quando cozido fica cremoso com um aroma amendoado. Quando cortado cru, em fatias finas, fica crocante e é ótimo nas saladas. O sabor do tupinambo lembra o do miolo de uma alcachofra. O tupinambo tem uma enorme vantagem: pouca caloria e nenhum amido.

aipo-rabano

Também conhecido como raiz de aipo, o aipo-rábano é outro tubérculo da família da cenoura, mas não se assemelha em nada com uma cenoura ou um aipo. Depois de cozido, o aipo-rábano pode servir como uma alternativa à batata – em forma de purê ou sopa –, mas você também pode comê-lo cru. O aipo-rábano é uma boa fonte de fibra, potássio e vitamina C, que possui muito menos amido e calorias quando comparado com outros tubérculos.

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Chirívia no Brasil e em Portugal, onde é bastante consumida, pode ser cherovia ou pastinaca. É uma raiz com forma de cenoura e cor de nabo. Porém, ela é mais rica em vitaminas e minerais do que sua “prima” cenoura. Pode ser cozida, assada e é muito usada como purês e base de sopas. Em Portugal é cultivada na região da Serra da Estrela.

DESPERDÍCIO ZERO

Outro viés importante do Good Food é reduzir o desperdício alimentar. Só em Bruxelas, 135 mil toneladas de alimentos vão para o lixo anualmente. Ou seja,  cada morador da cidade joga fora de 15 à 23 quilos de comida por ano. Para reverter esta situação, cerca de cinquenta restaurantes da capital belga adotaram as famosas doggy bags para que os clientes possam levar o que sobrou para casa, evitando assim o desperdício. Cada restaurante que participa da iniciativa recebe uma etiqueta de identificação que lembra ao cliente seu direito de pedir a quentinha no final da refeição.

Doggy Bag Rest-o-Pack Etiqueta Rest-o-Pack

 

Good Food é um projeto de fôlego que vai envolver entre outros, produtores, associações de jovens, distribuidores e as sub-prefeituras todos os dezenove bairros da capital belga. Nos próximos cinco anos, além de dobrar o número de hortas comunitárias na cidade, haverá também incentivo ao cultivo da horta caseira. Com isso, os moradores de Bruxelas que quiserem plantar legumes e frutas no quintal ou jardim, poderão receber, gratuitamente, conselhos de especialistas.

 

Letícia Fonseca-Sourander é jornalista, mora em Bruxelas e atualmente trabalha como correspondente da Radio France Internacionale. Foi correspondente da GloboNews, Radio Nederland, BBC Brasil entre outros. Letícia acredita nas iniciativas criativas que possam inspirar e melhorar as cidades, por isso aceitou o convite para colaborar com o Naturaleza, contando as experiências de projetos sustentáveis na Europa