A natureza compartilhada na linguagem dos sinais

A natureza compartilhada na linguagem dos sinais

tiagoqueiroz

27 Maio 2016 | 15h50

Era uma manhã de sábado fria, típica de outono, com uma linda luz que nos entusiasmava a aproveitar cada segundo. Peguei o metrô, munido de minha câmera fotográfica, de meu bloquinho e muita vontade de presenciar um evento especial, na Escola Municipal de Educação Bilíngue para Surdos Neusa Bassetto, na Rua Taquari, bairro da Mooca. Tratava-se do Dia da família com a presença dos jovens acompanhados de seus pais. O motivo da minha visita lá era assistir as palestras dos voluntários do Grupo Muda Mooca. Surgido em 2014 no bairro de mesmo nome. Eles plantam árvores em calçadas, sempre com a autorização do dono do imóvel. Além do plantio, o grupo tem como uma das metas o ensino e o despertar da consciência ambiental para o máximo possível de cidadãos paulistanos e foi isso que eles foram fazer lá, por meio de duas palestras, a primeira com o engenheiro florestal Felipe Atoline e a segunda com Renato Suelotto. A parceria entre o Muda Mooca e a Escola teve início no ano passado.

Felipe Atoline começou falando sobre o benefício das árvores para os homens e nosso bem-estar. Apresentou estudos como o que mostrava medições que uma área verde de 100 metros, reduz a temperatura num raio de até 300 metros. Além da redução térmica, elas nos presenteiam com o aumento da umidade relativa do ar, diminuição das enchentes, limpeza do ar com a redução do efeito dos gases poluentes. Uma palestra embasada em muitos dados e pesquisas.
Enquanto os voluntários do Muda Mooca ensinavam sobre a importância do meio ambiente, professores se revezavam na frente do espaço fazendo os sinais de Libras (Língua Brasileira de Sinais). O primeiro professor que transmitiu a palestra foi Danilo Prado. Outras cinco professoras participaram e cada uma ficou em média quinze minutos emitindo os sinais para que os cerca de 50 alunos pudessem compreender a aula.
SÃO PAULO 18.06.2014 VIAGEM PARQUE ESTADUAL DO RIO PRETO TIAGO QUEIROZ/ESTADÃO

Enquanto Felipe Atoline fazia sua palestra, o professor Danilo Prado se comunicava com os alunos através da linguagem de sinais. FOTO TIAGO QUEIROZ/ESTADÃO

SÃO PAULO 18.06.2014 VIAGEM PARQUE ESTADUAL DO RIO PRETO TIAGO QUEIROZ/ESTADÃO

A atenção dos alunos durante as palestras. FOTO TIAGO QUEIROZ/ESTADÃO

Após a palestra de Felipe, foi a vez de Renato Suelotto dar seu recado para os jovens. Graças a conversas com sua mãe, a psicopedagoga Maria Cristina Suelotto, ele desenvolveu uma apresentação em forma de teatro com a participação de vários alunos, para demonstrar a formação de uma floresta. A primeira a aceitar o pedido foi Gabriela Morais Ribeiro, de 11 anos. Na peça ela foi o “passarinho’, segundo me disse depois, um papagaio, que ajudava a espalhar sementes de árvores pioneiras, conhecidas por crescerem rapidamente e dar condições para que outras árvores, as chamadas secundárias, se desenvolvam com êxito. Cada uma dessas árvores foi representada por um aluno e todos se divertiram muito, o papel de “árvore-mãe”, que são as “árvores-referência” numa mata, como as exuberantes sumaúma e figueira, foi destinado à professora Cinthia Maretto, do ensino fundamental, que ficou muito honrada de participar da apresentação e que, segundo ela, aprendeu muito também com a dinâmica.
SÃO PAULO 18.06.2014 VIAGEM PARQUE ESTADUAL DO RIO PRETO TIAGO QUEIROZ/ESTADÃO

Os voluntários para o teatro rapidamente foram aparecendo. FOTO TIAGO QUEIROZ/ESTADÃO

SÃO PAULO 18.06.2014 VIAGEM PARQUE ESTADUAL DO RIO PRETO TIAGO QUEIROZ/ESTADÃO

Renato Suelotto (á direita) explica a evolução da floresta. FOTO TIAGO QUEIROZ/ESTADÃO

 

SÃO PAULO 18.06.2014 VIAGEM PARQUE ESTADUAL DO RIO PRETO TIAGO QUEIROZ/ESTADÃO

A árvore-mãe, feliz da vida, representada pela professora Cinthia Maretto. FOTO  TIAGO QUEIROZ/ESTADÃO

SÃO PAULO 18.06.2014 VIAGEM PARQUE ESTADUAL DO RIO PRETO TIAGO QUEIROZ/ESTADÃO

Os voluntários do Muda Mooca representaram árvores invasoras que impedem o crescimento das árvores nativas. FOTO TIAGO QUEIROZ/ESTADÃO

SÃO PAULO 18.06.2014 VIAGEM PARQUE ESTADUAL DO RIO PRETO TIAGO QUEIROZ/ESTADÃO

A peça foi muito aplaudida pela platéia. FOTO TIAGO QUEIROZ/ESTADÃO

Na conversa com Renato após a apresentação, ele descreve uma passagem interessante de sua infância. Quando era muito pequeno, segundo sua mãe gosta de contar nas rodas familiares, um dia apareceu e disse todo cheio de sabedoria: “Mamãe, um dia voltaremos e a ser índios!” e claro, na época todos acharam aquela fala muito engraçada, coisa de criança, mas Renato, hoje um especialista em soluções em tecnologia para grandes empresas, mas que sempre buscou o auto conhecimento em técnicas de plantio e botânica, acredita que “tudo que está surgindo nos últimos anos como a permacultura, a agrofloresta, as ecovilas, nada mais são do que o homem voltando a ter uma relação com o meio ambiente como os índios tinham, só que agora, com mais tecnologia”.
Sobre a dinâmica apresentada na palestra, Suelotto fez com que as crianças se movimentassem. “Conteúdo atualmente não falta, mas as pessoas não o interiorizam. Precisava mostrar algo que fosse tão atraente para a garotada quanto o jogo de futebol que iria ter depois da palestra. É preciso conseguir dar esse start, para que os jovens e a sociedade tenham a necessidade de buscar seus próprios caminhos a seguir”, disse ele, que tem planos de fazer vídeos com essas vivências para que possam ser replicadas com mais facilidade em outras escolas e instituições.
A escola conta com uma coordenadora que trouxe a tona a discussão sobre o meio ambiente, Heloisa de Oliveira. Em 2011, compraram uma composteira para que os alunos pudessem aprender a destinar melhor restos de frutas e verduras. “Orientamos os jovens sobre o que pode ser colocado, borra de café, por exemplo, é muito bom, já as cascas de laranja evitamos colocar”. A escola incentiva a redução do consumo, o combate ao desperdício e o descarte correto dos materiais reciclados.  Além disso, conta com um espaço para plantio de ervas para tempero e uma pequena produção de mudas de árvores frutíferas, como pitangueiras. Um dos alunos mais interessados nessa parte ambiental do colégio é Ruan Castro da Silva, de 16 anos. Segundo Heloisa, ele é um dos estudantes mais entusiasmados em cuidar da composteira. “Gosto de participar e pesquisar sobre como o crescimento das árvores, a  reprodução das flores. No futuro quero ensinar as pessoas sobre as coisas que aprendi por aqui, ser um multiplicador”, disse através da linguagem de sinais, por meio da tradução da Coordenadora Heloisa. Ele foi um dos alunos voluntários que fizeram parte da floresta nativa mostrada por Renato Suelotto.
SÃO PAULO 18.06.2014 VIAGEM PARQUE ESTADUAL DO RIO PRETO TIAGO QUEIROZ/ESTADÃO

A coordenadora Heloisa Oliveira e o aluno Ruan Castro da Silva, ao fundo, as composteiras do colégio. FOTO TIAGO QUEIROZ/ESTADÃO

SÃO PAULO 18.06.2014 VIAGEM PARQUE ESTADUAL DO RIO PRETO TIAGO QUEIROZ/ESTADÃO

Turma reunida após as explicações e pronta para o plantio da árvore. FOTO TIAGO QUEIROZ/ESTADÃO

E o evento terminou com o plantio de uma árvore na frente do jardim da escola, com as explicações de Felipe e Renato sobre como plantar corretamente. Muitos alunos participaram entusiasmados. No meio deles, um se destacava, o pequeno Vinicius Suelotto, de 3 anos, filho de Renato e Sheila Almelin. Pegava a pá do pai e participava da produção do berço da árvore que seria logo mais plantada. Filho de índio, indiozinho é!
SÃO PAULO 18.06.2014 VIAGEM PARQUE ESTADUAL DO RIO PRETO TIAGO QUEIROZ/ESTADÃO

O pequenino Vínicius Suelotto, de 3 anos, (à direita) também quis participar. FOTO TIAGO QUEIROZ/ESTADÃO